ANMELDENA Força do Amor
Autora: Edivania Rios História ambientada na década de 2000 Protagonistas: Leandro e Raquel Eu preciso observar muito bem tudo ao meu redor, pois o perigo está sempre ao meu lado. Agora mais do que nunca, preciso de domínio e poder: Raquel deu à luz uma menina, e eu tenho que estar esperto. Meu avô sabe como ficar rico, meu pai nunca erra um alvo — e eu preciso saber exatamente para onde ele está apontando a flecha. Quatro meses depois… Raquel me chamou ao seu quarto, parecendo desesperada. — Tome a criança. Ela é sua. O seu pai quer me matar, eu vou fugir. Não posso levar essa menina comigo, não sei para onde vou, e não tenho coragem de colocar uma criança nesse mundo tão triste que eu conheço — não quero isso para ela. Já faz duas semanas que ela deu à luz. Sinto um misto de sentimentos: vou ser pai solteiro. Ela ainda estava amamentando. — Tudo bem — respondi, e sorri. Dei-lhe dinheiro, coloquei ela num ônibus durante a noite, para ninguém ver. Acreditei nela quando falou da armadilha que o meu pai preparava. — Um dia eu volto para buscá-la — disse ela pela janela do veículo. — Não vai mesmo — falei baixo para mim mesmo. Essa mulher foi um perigo para a minha vida e para a dela também; quero distância de gente perigosa. — Não se preocupe, meu amor. Tenho uma carta na manga para quando eu voltar — completou ela. Não dei confiança, acenei e voltei para dentro. Peguei a minha filha e fui dormir com ela. Acordei de manhã com a criança chorando muito. Entrei na sala e encontrei meu avô e meu pai ali, e a menina não parava de chorar. — O que é isso? Onde está a mãe dessa criança? — perguntou meu pai. — Ela fugiu e deixou a menina comigo. Disse que viu o senhor preparando a morte dela. Creusa, me ajude — chamei a empregada, uma mulher mais velha que deve entender de crianças. — Sim, senhor! — Maldita! Se eu correr atrás dela ainda a encontro, ela tem que morrer! — rosnou ele. — Não vai encontrar, pois ela saiu de noite. E ela não tem que morrer de nada, papai. — Maldita! — bateu forte na mesa de madeira. Ele está descontrolado, precisa de domínio e orientação — e eu sou esse homem. — Pai, te espero no escritório. Precisamos encontrar uma solução para os nossos problemas. E ele veio, como peixe no anzol. Eu vou pescá-lo. — Pai, eu não quero mortes, não quero que o senhor procure por Raquel. Eu vou ser político, e ninguém vai atrapalhar o que eu quero. Vou dar muito orgulho para o senhor e para o vô também — falei, sabendo que tudo já estava se encaminhando para o meu bem. — Está bem — concordou ele. Meu avô parecia tranquilo, um bando de falsos. Preparei os papéis para que os dois passassem todos os bens para o meu nome. Um ano depois… Agora sou o prefeito da cidade. Prometi muitas coisas que os jovens gostam de ouvir — a ilusão da diversão, tudo o que brilha aos olhos deles — e eles, iludidos, votaram em mim. Os velhos assinaram todos os papéis, inclusive o que transfere tudo para mim. Levei ao cartório, e agora é meu. Não tenho nenhum arrependimento. Comprei uma casa em outra cidade para a minha filha crescer longe desse avô que a odeia. Fico entre uma cidade e outra. A ruiva, Nair, ainda me procura de vez em quando, mas ela teve um filho com outro homem, e a prioridade dela é a própria criança. Eu não quero perder nenhuma oportunidade no futuro — passarei por cima de quem for preciso para conseguir o que quero. Meu avô mereceu que eu passasse a perna nele. Afinal, o vagabundo continuou fazendo negócios com o homem que matou a minha mãe. Ele é um bom ladrão, mas eu não confio: para esses homens de negócio, filhas e mulheres não acrescentam muita coisa, e esse meu avô não vai ficar perto dos meus negócios. O problema é que meu pai confiava em qualquer um, e esses quaisquer um entregavam os seus crimes para o meu avô. Ninguém sabe que a menina é minha. Só meu avô estranhou o quanto sou apegado a ela, mas eu disse que “na minha irmã ninguém toca” — acho que convenci ele. Agora estou na outra cidade com ela. Ela começa a andar, desajeitada, vindo em minha direção. Eu a pego no colo e cheiro o seu cabelo. — Papa! — disse ela. Arqueei a sobrancelha, assustado. Foi a primeira vez que ela me chamou assim. Fiquei alucinado de alegria. Não quero que a mãe dela volte — é o meu segredo, e corre riscos de ser descoberto, e eu quero continuar na política. Dia seguinte… — Meu neto querido… você me roubou! Como pôde? Fui seu amigo, seu companheiro! — gritou o avô. — O seu erro, meu avô, foi ter me obrigado a conviver com ladrões. Eu me transformei no que o senhor não previu — e o senhor pagou para ver. Ele chorou e me deu um tapa no rosto. — Isso serve para você não seguir o caminho errado! — Vô, quem tem raiz podre, se ninguém arrumar rápido, às vezes não dá tempo. Quando o jardineiro encontra, já é tarde demais — respondi. Ele saiu chorando. Eu não me importo: perdi a minha mãe por causa das trapaças dos dois. É claro que eu precisava me vestir de ovelha, mas sou um lobo. Tinha que parecer dócil, gente boa — coisa que não sou. Às vezes uso essa fantasia para enganar o rebanho. A única coisa que amo de verdade é a minha filha; falo palavras doces para ela e dou todo o carinho do mundo. Agora eles dois vão saber quem eu realmente sou — um já sabe. — Vagabundo, filho de uma prostituta! Tirou a máscara! Depois de eu ter te dado um teto, roubou tudo do seu pai e do seu avô, filho ingrato! — gritou meu pai, chegando furioso. — Vamos brindar, papai. Hoje faz vinte e três anos, quase vinte e quatro, que a minha mãe morreu. O senhor acabou com ela, e o meu avô não vingou o suficiente porque ele só pensa em dinheiro. Pode deixar: eu não faço o serviço pela metade. O meu avô foi fraco — o dinheiro que ele tirou do senhor, ele sempre deixou perto de você. Nunca concordei com isso. Ele saiu furioso. Olhei para a minha pequena Isabela, e o coração doeu um pouco: onde estará a sua mãe? Como teve coragem de deixar essa criatura para trás e nunca mais voltar? Ganhei alguns inimigos na política, mas para mim isso é só a vida que eu sempre conheci — afinal, sempre considerei o meu pai e o meu avô como os meus maiores inimigos. Três anos depois… A minha menina está linda, eu a carrego para todo lado. Meu pai faleceu há três meses. Ele ainda conseguiu dar alguns golpes, mas o meu avô ficou com os restos dos bens dele. Meu avô nunca mais falou comigo. Um ano antes de morrer, meu pai descobriu que eu era o pai da Bela. Armou uma emboscada, me prendeu num quarto, comprou um chicote de tatu e me bateu muito. Disse que fui a sua pior decepção. Bateu por uma hora sem parar, depois veio outro homem, e depois ele de novo — foram quatro horas de tortura. Para mim, aquilo não foi nada demais. Afinal, houve traição da minha parte também. Lembrei que eu dizia o tempo todo que a filha era dele — mas quem me meteu nessa confusão toda foi a Raquel. Mesmo com os meus instintos de sobrevivência gritando alto, eu me fortalecia cada vez mais. Estou afastado da política, mas só por um tempo — penso sempre à frente. Ninguém sabe que sou o pai da Bela. Estou com Nair, a ruiva, como minha amante. Ela traz a filha dela de vez em quando, mas as duas brigam muito. Ela defende a sua, eu defendo a minha. Estou sentado na cadeira do escritório, assinando papéis e lendo documentos. Como Nair está aqui, trouxe a minha filha comigo — não confio em pessoas que não gostam da minha menina para cuidar dela. De repente, levanto e empurro a mesa com raiva. Inferno! Peguei a minha filha e entrei no carro — vi que estava com pouca gasolina. — Me espera, Leandro! — gritou Nair vindo atrás. — Entra. Você trouxe a cadeirinha para a sua filha? — Vim a pé, não trouxe. Coloca a minha no lugar da sua, eu seguro a sua no colo — disse ela, com a maior cara de pau. Olhei para ela, puxei a porta e saí em alta velocidade, deixando-a falando sozinha. Liguei para o meu empregado: — Fique de olho no escritório. Mande uma empregada vigiar a Nair e a filha dela. Os brinquedos da minha menina estão proibidos para a outra criança. Se Nair quer briga, vamos ter briga. Se a minha filha não pode ter os mesmos privilégios que ela dá para a dela, e ela não sabe dividir direito, a dela também não vai usufruir de nada que é da minha. Se quiser comida, que traga da casa dela — ela não dividiu nem a maçã da filha dela com a minha. Sempre fui um homem decidido, perspicaz e severo com a minha vida. Não há espaço para comodismo, futilidades não fazem parte do meu dia a dia — tudo é bem orquestrado. O meu plano sempre foi mais importante do que qualquer laço familiar. A única pessoa a quem me apeguei de verdade é a minha filha: a única coisa que saiu de mim, que eu vi crescer, e a quem eu amo mais do que tudo.Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a
ConsequênciasEu vi Bela me olhando,eu fingir que não a vi, fui deitar...Durante a noite não consegui dormi. De jeito nenhum. Tentei. Deitei, fechei os olhos, contei até cem, respirei devagar… mas a mente não parava. Levantei, fui até a cozinha, voltei para a cama. Acendi a televisão, passei os canais, desliguei de novo. Nada funcionava. O envelope continuava ali, sobre a mesa da sala, visível de qualquer canto do cômodo. Parecia-me observar. Me vigiar. Toda vez que eu passava por ele, os olhos desciam sozinhos para a frase, lendo de novo, como se pudesse mudar de alguma forma:"Pare de procurar respostas sobre sua mãe antes que Bella pague o preço."Era impossível ignorar. Se a ameaça fosse contra mim, talvez eu até conseguisse deixar de lado, fingir que não vi. Mas não era. Era ela. A Bela. Uma criança que não tinha nada a ver com isso. Nada. Ela não escolheu nenhum dos lados. Não fez mal a ninguém. Só queria saber de brinquedos, de filmes, de adesivos para enfeitar o caderno. E me
ConsequênciasEu estava na cozinha, com o café fumegando na mesa, quando a Bela apareceu ali na porta, com uma das minhas revistas nas mãos, aberta no meio, os olhinhos brilhando de curiosidade.— Mãe.— Hm? — respondi, sem tirar os olhos da xícara.— Você sabia que a Mônica ideia o Cebolinha?ela bate nele sempre com o coelhinho azul.Olhei para ela por cima da borda da xícara, segurando o riso:— Como é que você observa essas coisas, hein?— Está aqui, ó bem grande! — apontou o dedinho para a página.— E por que você está lvendo essa revista de gente grande? — perguntei, secando a mão no avental.— Pesquisa ,mas o que Cebolinha e Mônica está fazendo na revista de gente grande?— Disse ela, com a seriedade de uma professora.— Eu não queria acabar com sua fantasia, mas a turma da Mônica e mais velha do que eu e você?__ Mas você é velha mamãe? É mais velha que o papai?__ Seu pai é mais velho que eu pouca coisa.__ Não acledito!__Entao tá ficando aí bobinha.Bela ficou séria, endire
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Protagonista: LeandroA primeira coisa que ouvi naquela manhã foi o barulho da torneira pingando na cozinha.Ping.Ping.Ping.Fiquei deitado olhando para o teto durante alguns segundos, contando cada gota, como se aquele som ritmado fosse o único ponto firme num mundo que tinha virado de cabeça para baixo. A casa estava silenciosa. Silenciosa demais. Levantei devagar, sem fazer barulho, sentindo o frio do piso nos pés descalços. Passei pela sala: a televisão de tubo continuava desligada, com a tela escura refletindo a luz fraca que entrava pela janela. Uma xícara esquecida sobre a mesa, ainda com um resto de café escuro no fundo. Uma camisa jogada numa cadeira, como se alguém tivesse tirado às pressas. Tudo parado. Como se a vida inteira tivesse parado para esperar alguma coisa. Ou alguém.Abri a geladeira. O ar frio me bateu no rosto. Peguei o leite, coloquei no fogo. Enquanto a panela esquentava, meus olhos des
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Protagonistas: Leandro e RaquelNão consegui dormir aquela noite. De jeito nenhum. Depois que o Leandro falou sobre o carro parado observando a casa, alguma coisa dentro de mim ficou inquieta, remexendo, não deixando sossego. Fiquei deitada, de olhos abertos, ouvindo cada som da casa: o tic-tac do relógio na sala, o vento batendo forte na janela, os galhos das árvores raspando devagar no telhado como dedos curiosos.A Bela dormia profundamente ao meu lado, serena, abraçada na boneca que a tia Lurdes tinha dado. Às vezes virava para um lado, depois para o outro, sem soltar o brinquedo. Como eu queria ter dormido assim a vida inteira… sem medo, sem lembranças ruins, sem imaginar quem podia estar do outro lado da porta. Fechei os olhos com força, tentei descansar… mas a mente não parou.Quando amanheceu, levantei cedo. Muito cedo. Antes mesmo da tia Lurdes acender o fogo na cozinha. Antes do Leandro. Antes de todo mun







