登入Autora: Edivania Rios
História ambientada na década de 2000 Protagonistas: Raquel e Leandro Capítulo 5 Raquel narrando… Estou vivendo um verdadeiro inferno. O meu tal marido me proíbe de comer, e nesse momento sinto uma fome que não cabe em mim. Se o velho Félix estiver por aqui, ele sempre obriga o Joaquim a me dar comida — tomara que ele esteja presente. O pai do meu filho viajou para os Estados Unidos; pelo menos o avô dele ainda está aqui, e isso já é um alívio, mas sofro muito. Sempre que ele volta, traz uma mulher diferente e faz coisas com ela dentro do quarto, até ela gritar alto. Estou com cinco meses de gravidez. Quando está em casa, ele manda as empregadas não deixarem eu pegar coisas pesadas — mas de que adianta? Ele quase não fica em casa. Já o meu marido vive aqui, me infernizando o tempo todo. Diz que não sei cuidar das suas roupas; um dia ele chegou a querer me queimar com um ferro elétrico. E já falou que assim que eu tiver o meu filho, vai se livrar de mim. Ouvi ele conversando com um capanga: quando o bebê completar um mês, mandam me matar. Estou num beco sem saída. É madrugada, todo mundo já dormiu — é a única hora que me permitem comer. O velho Félix me deixa comida na cozinha, almoço e deixa a janta bem escondida, com medo que alguém ponha veneno para mim. Começo a comer a comida quentinha, que não parece tão gostosa quanto eu esperava, mas como com medo a todo instante. O choro está preso na garganta, mas eu me mantenho forte. Leandro não merece as minhas lágrimas — estou esperando um filho dele, poxa, ele sabe disso e ainda assim me dá tão pouca confiança. Saí da cozinha e acabei vomitando tudo o que comi. Tomei um banho e me encolhi debaixo do lençol de seda, com as lembranças duras do velho Joaquim ecoando na minha cabeça — palavras pesadas que doeram como chicotes, sem eu nem ter levado um tapa. Tenho que entender que essa é a minha nova realidade. Na luta, às vezes o mais importante é aceitar a derrota diante do inimigo. Não adianta lutar se não aguentamos mais. Agora, a única coisa que me move é pensar em como fugir, em como escapar desse campo de guerra onde caí. Talvez Joaquim pensasse que poderia me transformar numa mulher perfeita, respeitada. Acho que errei ao ter me envolvido com o filho dele — talvez não fosse feliz, mas ao menos seria dona da casa. Mas eu esqueci que fui criada por um traficante: tenho malícia, conheço a maldade, e sou mais forte do que os olhos de quem vê pode perceber. Dormi… Dia seguinte… Marta está me chamando alto, estou tão sonolenta — essa gravidez está me derrubando, não consigo acordar cedo. — Acorda, dona Raquel! O senhor Joaquim está furioso porque a senhora não acordou às seis da manhã! — Já estou indo — respondi. A vontade de dormir quase me vence, mas me sento na cama como se tivesse dormido só dez minutos, quando na verdade foram sete horas seguidas. Tomei um banho gelado para despertar, arrumei e prendi os cabelos, vesti o uniforme azul. Respirei fundo e até sorri para mim mesma no espelho: “Barrigudinha, você está linda. Quem perdeu foi ele. Prometo que as lágrimas acabaram — hoje ninguém me derruba.” Saí do quarto e ouço gritos vindos do quarto de Leandro. Ah, aquele menino sem vergonha… esse barulho significa que o safado chegou. Fui direto para a cozinha. Marta arruma a mesa do café, muito cuidadosa. Tomei os remédios da manhã, o sulfato ferroso para a gravidez. — Bom dia — falei, sentando no balcão. — Precisa de alguma coisa, senhora? — Ela não precisa fazer nada, ela mesma se vira — ouço a voz grossa de Joaquim atrás de mim. E logo atrás dele está Leandro. Fechei a cara para ele — sinto mais raiva dele do que do próprio Joaquim, porque eu queria ele para mim, e não posso ter. O ódio tomou o lugar do amor. Leandro está vestido com roupas de ginástica; a calça marca muito bem as suas coxas e o seu corpo, e eu lembro da tal ruiva… que ódio! O peito nu está molhado, de suor ou água, não sei. — Raquel não é dona de nada aqui — diz o velho. — Pai, ela está grávida do seu filho. Trate bem a mãe do meu irmão — falou ele, olhou para mim e desviou o olhar rápido, como se não quisesse ser visto. Que safado. — Ela não é mãe de filho meu, nem minha esposa. É minha empregada — rosnou o velho. Ele não me quer como esposa de jeito nenhum, é orgulhoso demais. — Ah… sim, senhor — gaguejou Marta. — Deseja algo mais, senhor Joaquim? — Não. Ele parece um urubu, só usa roupas pretas. O velho foi tomar café na mesa, Leandro está bebendo água, e os seus olhos zombeteiros não saem de mim, percorrendo o uniforme e a minha barriga já grande, que aperta a roupa. — Quero falar com você lá no quarto de cima. Te espero lá — disse ele. Não acredito que ele quer me ver. Ele sorriu, passando o polegar nos lábios. Ele saiu, e eu fiquei olhando a porta até ouvir o barulho dela fechar. Ele foi… e eu quero ir. Saí da cozinha depressa e fui ao seu encontro. Ele estava sentado na cama. — O que você quer comigo? — Quero tocar na sua barriga — pediu. E naquele momento, o bebê começou a mexer sem parar. Ele sorriu: — É o meu filho! Que coisa linda, Raquel. Eu estou defendendo essa criança, eu a quero muito. — Vejo que você está louco por ela — falei com ironia. — O meu avô está aqui porque eu pedi para ele não deixar essa criança morrer. Então não duvide das poucas coisas sinceras que existem em mim. Ele ficou ali, todo atento à minha barriga. Saí do quarto e voltei para a cozinha, onde o velho já tinha deixado uma bacia cheia de água para eu pegar. Ele quer mesmo que eu perca o bebê. Mas quando eu ia levantar a bacia, Leandro apareceu. — Não, ela não vai pegar nada pesado, pai! Ela pode perder o meu irmão! — Ele não é seu irmão, já disse! — gritou o velho. Eu até achei graça: Leandro adora infernizar o pai. Ele sabe muito bem que é o pai da criança, e isso me dá um pouco de tempo para pensar em como fugir dessa casa de loucos. Esse infeliz é o herdeiro desse velho mau — mas duvido que seja tão mau quanto ele. Acho Leandro frio e calculista: o pai pensa que está na frente, mas eu percebi que quando ele quer, é ele quem domina tanto o avô quanto o pai. Com essa cabeça, em pouco tempo tudo vai estar nas mãos dele. E eu estou estudando ele, porque sei que será o meu maior inimigo no futuro. É novo, e já domina os dois velhos — imagina quando a sua mente amadurecer. Eu vivi a vida toda no meio do mal, e aprendi que não existe ser humano do bem, como ele mesmo me ensinou. Homem é mau. Leandro, você nunca vai me vencer — deixou essa sua fraqueza aparecer. Agora vou prestar atenção em cada movimento, calcular todas as rotas, principalmente as dele. — Pai, resolvi virar político — disse ele de repente. Os olhos do velho ficaram grandes de surpresa. — Cansei de ficar sem fazer nada. Vou ter um irmão, e quero o melhor para ele — foi mais uma jogada de Leandro contra o pai. Por que será que ele falou em política? — Pense bem, pai: sujei o seu nome com aquela história da cocaína, e agora quero te dar orgulho. Parei de brincar com o senhor. — Filho de bandido, você assumiu que fez tudo para me atingir! Isso é feio, rebelar-se contra o próprio pai. — Não finja, pai. O senhor sempre soube que era para te atingir — ele saiu rindo, e na porta completou: — A minha ruiva chegou. Vou para a piscina ficar com ela. Assim que ele saiu, o velho me obrigou a levar suco para o casal. Ele caiu na conversa do filho — precisa mesmo que ele se acalme e mantenha a fachada de família tradicional. Chegando à piscina, o sol estava muito forte, e vi Leandro quase beijando a ruiva com toda a força. O meu bebê começou a mexer muito, e o ar não vinha mais aos meus pulmões. Ele não suporta o pai e fica assim, me maltratando? Não conseguia respirar, e tudo escureceu — eu desmaiei. Senti alguém me pegar, e ouvi vozes ao longe: “Levem ela para o hospital! Liga rápido, ela está mal!” Parecia um eco na minha cabeça. Mais tarde… Acordei no hospital, e Leandro está ao meu lado. — Oi, como você está, Raquel? — Não sei… acabei de acordar. — É uma menina — ele disse. — Que bom — respondi. Na verdade, nem sei o que esperar dessa menina, nem o que se passa na cabeça doente de Leandro. Ele faz tantas coisas que não consigo entender. É tão estranho… — Meu amor, como ela está? — perguntou a ruiva. Eu nem sabia que eles eram namorados. — Ela acordou, e a minha irmãzinha está bem — respondeu ele, com a maior cara de pau. Olhei firme para ele, sem dizer nada. Agora entendi por que nunca me senti perto de homens: a minha vida sempre foi torta, e eu fui me apaixonar justamente por um homem sem sentimentos, que ninguém sabe o que realmente pensa. — E o seu pai? — perguntei. — Não pense nele. Sabemos muito bem que ele quer a sua cabeça. Vou ter que ficar mais tempo sem viajar para ficar de olho em você — o meu avô sozinho não dá conta do meu pai. Mais uma vez vejo que Leandro vai longe — talvez seja pior do que o pai e o avô juntos. Sinto uma tristeza no peito, saudade de algo que nunca vivi. Respirei fundo: é só uma questão de tempo, Raquel. Virei para o lado na cama do hospital e fechei os olhos.Acordei antes de Bella.Algo muito raro. Muito, muito raro mesmo. Normalmente ela conseguia transformar qualquer manhã tranquila numa verdadeira competição olímpica de barulho, pulo e voz alta — parecia que o sol não podia nascer sem que ela já estivesse correndo pelos cantos, cantando, chamando, fazendo da casa um lugar cheio de vida. Mas hoje ,nesse dia… não. O silêncio vinha antes do Aquele telefonema de Leandro me deixou pior, não porque ele sumiu.Isso é do feitio dele,as vezes não conheço ele direito, não sei se ele some por medo ou querendo resolver as coisas.Fui até a cozinha devagar, na ponta dos pés, como se não quisesse que o dia me notasse ainda. Coloquei água para ferver. O som da água enchendo a chaleira foi a primeira coisa que ouvi, suave, familiar. Abri a janela e o ar fresco da manhã entrou devagar, trazendo o cheiro de grama molhada e café de longe.Na casa da frente, uma mulher regava as plantas com calma, o jato d’água brilhando no sol que começava a aparecer. Um
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a casa inteira, que
Autora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Fiquei parado na esquina por vários minutos, sem me mexer, pensando se eu ia ou não.Segurando o papel entre os dedos. O vento soprou leve, levando folhas secas pela calçada, mas eu nem prestei atenção. O endereço continuava ali, escrito à mão, simples, direto, sem explicação, sem assinatura, sem nenhuma palavra a mais. Apenas um endereço. Nada mais.Dobrei o papel devagar, com cuidado, e guardei no bolso da calça, apertando com a palma da mão contra o tecido. Fiquei parado mais um instante, olhando a rua, as pessoas passando, os carros seguindo… e então comecei a andar. Mas não na direção do galpão. Ainda não. Precisava pensar primeiro. Respirar. Organizar a cabeça. Porque eu já cometi muitos erros na vida, e a maioria deles aconteceu justamente quando agi sem pensar, guiado só pela raiva ou pela vontade de descobrir tudo de uma vez.O problema é que eu nunca fui muito paciente. Quando queria respostas, corria atrás delas, sem m
ConsequênciasAutora: Edivânia RiosHistória ambientada no ano de 2001Acordei com a Bella cantando. E não era uma música só, dessas que a gente aprende no rádio e repete sem parar. Era pior. Ela estava misturando três músicas diferentes ao mesmo tempo, trocando as letras, inventando estrofes inteiras, cantando no tom que bem entendia — feliz, alta, sem a menor vergonha de nada.— Bella — chamei, sem abrir os olhos direito.Ela continuou, como se não tivesse ouvido.— Bella — repeti, mais alto.Nada. A voz dela só ficava mais animada.— BELLA!A porta do quarto se abriu de leve e ela apareceu ali, sorrindo de orelha a orelha.— Bom dia, mãe!Sentei na cama, fingindo indignação:— Você sabe que canta mal, não sabe?Ela cruzou os braços, ofendida:— Isso é inveja.— Claro que é — sorri.— É porque eu tenho talento mesmo sou artista — afirmou,ela, agora Bela colocou na cabeça que é artista.Joguei o travesseiro nela. Ela desviou ágil e começou a rir — aquela risada gostosa, que enchia a
ConsequênciasEu vi Bela me olhando,eu fingir que não a vi, fui deitar...Durante a noite não consegui dormi. De jeito nenhum. Tentei. Deitei, fechei os olhos, contei até cem, respirei devagar… mas a mente não parava. Levantei, fui até a cozinha, voltei para a cama. Acendi a televisão, passei os canais, desliguei de novo. Nada funcionava. O envelope continuava ali, sobre a mesa da sala, visível de qualquer canto do cômodo. Parecia-me observar. Me vigiar. Toda vez que eu passava por ele, os olhos desciam sozinhos para a frase, lendo de novo, como se pudesse mudar de alguma forma:"Pare de procurar respostas sobre sua mãe antes que Bella pague o preço."Era impossível ignorar. Se a ameaça fosse contra mim, talvez eu até conseguisse deixar de lado, fingir que não vi. Mas não era. Era ela. A Bela. Uma criança que não tinha nada a ver com isso. Nada. Ela não escolheu nenhum dos lados. Não fez mal a ninguém. Só queria saber de brinquedos, de filmes, de adesivos para enfeitar o caderno. E me







