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capítulo 7 Raquel narrando

last update Veröffentlichungsdatum: 10.09.2026 21:32:44

Autora: Edivania Rios

História ambientada na década de 2000

Protagonistas: Raquel e Leandro

Saí da casa de Leandro à noite, para o velho não me ver saindo. Ele me levou até o ônibus e me deu um dinheiro — mas esse pouco não vai durar muito tempo. Agradeço a Deus por ter saído daquela família de loucos. Aquele velho quer me matar, bicho ruim. Quando entreguei o nosso bebê para ele, ele aceitou rápido — deve ter ficado até aliviado por se livrar de mim. Mas até breve, Leandro.

Parei num hotel para dormir e conheci uma moça que trabalhava no turno da noite, muito simpática comigo. Dormi, e combinamos de sair juntas de manhã — eu não sei para onde ir, quem sabe ela possa me ajudar.

Dia seguinte…

Saí com a Paula e chegamos a um lugar onde todo mundo mora junto. Lá havia um rapaz que vivia me elogiando, todo tempo.

Um mês depois…

Com o tempo, Nicolas me conquistou e comecei a namorar ele. Queria saber se existia algum homem melhor que Leandro. Nicolas é até mais gentil, me deixa chamá-lo de meu — mas o tempo vai dizer se é realmente assim.

Mais um mês depois…

Consegui um emprego num asilo e deu muito certo. Gosto de cuidar dessas pessoas que muitos acham inúteis, que não servem para mais nada. É ali que vejo que a minha vida pode ter algum sentido, cuidando de quem ninguém quer — afinal, eu sempre me senti inútil também, igual a eles.

Um ano depois…

Cuidei de todos com muito carinho. Em alguns momentos senti falta do pai da minha filha, mas nunca esqueci a menina. Com o tempo, Nicolas foi preenchendo esse espaço — mas se um dia eu terminar com ele, será só por causa da minha filha: ela sim foi tudo o que eu perdi. Aquele lugar horrível onde vivi é algo que jamais deveria voltar, e todas as amarguras deveriam ser apagadas da minha memória. Mas aquele interior de Minas Gerais eu não esqueço — porque lá ficou um pedaço de mim, o melhor de mim. Sei que ele virou prefeito; estou aqui em São Paulo vendo ele brilhar, exatamente como eu previa. Esperto, rápido, safado… terei que usar as próprias armas dele contra ele mesmo. Pedi ao Lucas para me inscrever num curso de informática e ando lendo muito. Ele é esperto demais, e eu preciso estar preparada. Suspirei: vai demorar, mas um dia eu volto para pegar a minha filha.

Quatro anos depois…

Vejo que Leandro se candidatou de novo a prefeito, agora na cidade onde mora com a minha menina. Que linda ela é! Vi fotos dele com ela no Orkut e me deu uma vontade imensa de chorar. Já estou casada com um senhor rico do asilo, o Lourenço — ele tem câncer, e para voltar forte eu precisava ficar rica também. Casei porque o meu marido do passado, Joaquim, já tinha morrido. Tive que deixar Nicolas para casar com ele. Minha amiga nem sabe do meu passado, nem o meu ex-namorado sabe. O sexo com Nicolas era bom, mas escolhi esse homem de propósito: o médico disse que ele tem pouco tempo de vida, e eu preciso cumprir o meu plano. Ele não tem herdeiros e precisava de alguém para cuidar dele. Sinto pena, nunca o maltratei, dou todo o carinho que ele precisa. Já faz um ano que Joaquim morreu; por respeito a Lourenço, ainda não voltei. Para enfrentar Leandro, preciso estar de igual para igual. Vejo Nair em todas as fotos com ele — será que a filha dela é dele? Tem a mesma idade da minha, mas ele nunca deixava ela chegar perto. Será que ele lembra que a menina tem mãe? Que essa mãe sou eu? Que fui a esposa do seu pai? Será que ele pensa em mim para contar a verdade para a criança? Fiquei sabendo que ele é dono de tudo — e o avô Félix ainda está vivo, como ele conseguiu tudo isso?

— Paula, amiga, por que está calada? De onde vim, para onde vou…

— O seu marido acordou?

— Não, ele está tranquilo, sem dor.

— O Nicolas perguntou por você. Por que não fica com ele e com o seu doente?

— Isso nunca! Já fiz coisas erradas demais. Diz para o Nicolas me esquecer.

— Está bem, amiga… se ele falecer, você volta para ele?

Meu pensamento voou direto para Minas Gerais, para a minha filha.

— Diz para ele que eu o amo, mas que não dá mesmo. Não quero mais.

Saí e fui até o quarto do meu marido. Acariciei o rosto dele, beijei as suas mãos e chorei baixinho:

— Me perdoa!

— De certa forma, minha linda, já te perdoei — ele respondeu com voz fraca. — Sei que algo te persegue. Imagine se eu viesse te acusar, se você já se culpa tanto. Chama um pastor para mim, quero ir nos braços de Deus. Quando você se sentir sozinha no vazio, lembre-se: não se fez sozinha. Algo maior criou você.

Chamei o pastor. Ouvi as palavras dele, e por um instante o meu coração ficou em paz.

Dez dias depois…

Meu marido faleceu e já foi enterrado. Estou arrumando as minhas malas para voltar a Minas Gerais, quando Nicolas aparece. Fico sem graça e ao mesmo tempo triste.

— Agora nada impede a gente de ficar juntos, Raquel — ele diz, e começa a me beijar.

— Não, Nicolas… preciso te contar uma verdade que escondi: eu tenho uma filha, e ela está com o pai. Preciso recuperar ela, por favor não me impeça.

— Eu vou com você. Você vai precisar de mim.

— Não. O pai da minha filha não é uma pessoa fácil. Com você por perto, essa luta só vai ficar mais difícil. Vou te ligar quando chegar a hora certa de você vir.

— A gente não deu certo?

— Deu, foi maravilhoso — respondi. Nunca quis falar dessa parte da minha vida, mas precisei dizer para ele entender.

Algo caiu no chão. Olhei para a penteadeira, para a porta — não era nada. Olhei para baixo: era uma aliança.

— Por favor, Nicolas, eu preciso resgatar a minha filha. É o que eu mais quero na vida, não me atrapalha, por favor — chorei, esperando esse momento há anos.

— Eu vou embora. E eu te amo.

— Eu… — ia dizer o mesmo, mas para quê complicar as coisas? Saí, deixando ele chorando. Limpei os olhos com força: não vou mais chorar. — Paula, cuida da casa para mim. O Nicolas vai te contar o que eu contei para ele.

Ela acenou com a cabeça, triste. Deixei-a na sala. Já tinha mandado comprar passagem de avião para Minas Gerais no dia anterior. Eu preciso ir, pensei comigo mesma. Desculpa, Nicolas.

Chegando à cidade onde a minha filha mora…

Sei tudo pela internet, pelas informações do investigador. Achei Leandro no Orkut, até conversei com ele — disse que o achava muito bonito. Vale tudo para ter a minha filha de volta. Ele respondeu que não precisa procurar mulher pela internet, pois tem todas na palma da mão — que cara convencido!

Cheguei. Meu coração dispara. O táxi para na porta da casa dele, rua toda asfaltada, bonita. Finalmente cheguei. Estou exausta, mas quero ele cara a cara. Bati na porta, e uma senhora atendeu.

— Olá, o que deseja?

— Sou assessora do Leandro. Diz a ele que é urgente, preciso falar algo sobre o nome dele.

— Entre, por favor — ela abriu espaço, acreditando na minha mentira.

O suor escorre na minha testa, eu limpo, mas suo muito por baixo dos braços. Estou tensa, com o coração doendo como quando eu saí daqui: medo, pavor. Mas o maior medo não é ele — é ela. Tenho medo da minha filha. Medo de ser rejeitada por ela. Será que aquele bandido vai me reconhecer? E a menina? Não sou mais aquela moça ingênua, conheci outros homens, mas ninguém tira o que é meu. Minhas mãos tremem. Sou uma mulher cheia de cicatrizes na alma, a vida fez cada uma delas. Como alguém nasce para viver sem sentido? Amaldiçoo o dia em que nasci.

Toquei no sofá com a ponta dos dedos, tremendo muito. Apertei os lábios, os olhos fixos na porta onde ele vai aparecer a qualquer momento. E ele apareceu. Como está lindo! Um homem mesmo. Ele se assustou ao me ver, levou a mão ao peito. Sentou no sofá, baixou a cabeça e ficou calado por longos segundos. Joguei o cabelo para o lado, e falei com voz firme:

— Estou de volta. Sei que demorei, mas vim buscar o que é meu.

— Não sei o que é seu aqui, Raquel. Quando você foi embora, não deixei nenhuma possibilidade de voltar.

— Mas eu deixei. Lembra da minha carta na manga? Posso contar para os seus eleitores que você teve uma filha com a mulher do seu próprio pai.

— Foi você que me seduziu.

— Eles não precisam saber disso.

— O que você quer, Raquel?

— Quero ser babá da minha filha. Depois que eu conquistar o coração dela, você vai dizer que eu sou a mãe dela.

— Mas você não é a mãe dela — disse ele, frio como se não tivesse sentimento nenhum.

Aquilo doeu fundo. Eu chorei na frente dele.

— Não fala isso! Você sabe a verdade. Para estar aqui hoje, fiz coisas que nunca imaginei, só para chegar de igual para igual com você.

— Você nunca será igual a mim. Eu nunca precisei me entregar para ninguém para escapar dos meus problemas, e nunca abandonei a minha filha, mesmo sabendo que isso poderia me custar tudo.

— Para você é fácil, é rico, resolve tudo com dinheiro — estalei os dedos, nervosa.

— Você pode ficar. Mas não invada o meu espaço. Finja que não me conhece, que é apenas a babá da minha filha. Aquele imbecil do meu pai fez tudo errado na vida, até me dar uma mulher que era dele — e essa mulher me deu uma filha. Homem idiota, homem mesquinho.

Ele saiu, parecendo atordoado. Assim que ele saiu, eu sorri, rindo da cara dele. Não tenho nada a perder. Agora vou conhecer a pessoa que eu mais amo no mundo: a minha filha.

Tomei um banho, vesti o uniforme e fui até ela. Ela está brincando com outra criança, jogando terra uma na outra — sapeca, igual o pai. Peguei ela com carinho, mas com firmeza. Sei que é minha: loirinha, olhos verdes, um pouco parecida comigo, uma mistura dos dois. A outra menina é ruiva. Tenho certeza: é essa aqui que eu vi nas fotos do Orkut.

— Sou a sua nova babá — falei.

— Minha babá? — ela sorriu para mim. Por favor, não chore, Raquel, não chore. Peguei ela no colo, abracei forte e levei para o quarto. Dei banho, penteei o cabelo dela. Ela está linda, tão perfeita. Minha filha. Minha menina.

— Agora você vai cuidar de mim como uma mãe?

— Sim. Como uma mãe.

— Oba! — pulou feliz. Que inocência de criança. Como passou tanto tempo assim? Alguns anos… e por dentro eu estou desabando de emoção.

Mais tarde…

Estou com a Isabela no colo, mexendo no Orkut, quando vejo uma mensagem do Nicolas: “Oi, como está?”

— Oi. Estou com a minha filha.

— E nós?

— Me dá um tempo.

— E o pai da criança?

— Ele me odeia. Não cria esperanças, tchau.

Saí do quarto com a Isabela — nome lindo, Isabela! — e vi Leandro ao longe, parado ao lado da Nair.

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