Share

XIV - LUZ

last update publish date: 2026-07-15 00:59:20

A luz da manhã na Fortaleza de Obsidiana nunca era realmente clara. Era um cinza sujo, filtrado pelas frestas de pedra, que parecia roubar as cores do mundo.

Acordei com o corpo dolorido, enrolada nas peles de carneiro fedorentas da minha cela. A minha pele ainda formigava. O fantasma do toque do Rei do Norte — o peso das mãos dele, o hálito de menta selvagem e a respiração pesada contra o meu pescoço — estava impregnado na minha mente como uma tatuagem. Meu baixo ventre deu uma pontada traiçoe
Continue to read this book for free
Scan code to download App
Locked Chapter

Latest chapter

  • Vendida ao Monstro do Norte   EPÍLOGO

    O silêncio do Norte nunca foi pacífico; ele era apenas a calmaria tensa que antecedia o bote de uma fera invisível.Anos haviam se passado desde o dia em que as carruagens de Aedan e Lyra desceram a encosta rumo ao exílio dourado no Sul. Desde então, a Fortaleza de Obsidiana havia mudado o seu ritmo. Kael reinava com pulso firme e justo ao lado de Ravena, consolidando o império que Soren e Maeve haviam forjado no sangue. O meu pai e a minha mãe viviam agora numa trégua sagrada com o tempo, desfrutando das sombras da montanha de forma reclusa e quase intocável. E eu... eu havia assumido o único lugar que a minha biologia e o meu temperamento exigiam: Comandante da Guarda de Elite do Norte.Aos vinte e cinco anos, o meu reflexo nos espelhos de prata de Obsidiana já não mostrava o garoto raivoso que atirava pratos contra a parede ou que rosnava por ciúmes infantis. Os cabelos platinados caíam longos sobre os ombros largos, emoldurando um rosto marcado por cicatrizes de patrulhas nas front

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXX - Enfim, sós.

    O sol de inverno despontava preguiçoso por trás dos picos gelados, banhando as pedras escuras da fortaleza com uma luz pálida e prateada. O pátio inferior estava mergulhado num caos organizado, uma sinfonia ruidosa de cascos batendo na pedra, metal tilintando, relinchos nervosos e ordens sendo gritadas pelos comandantes da guarda.Mas, para mim, o mundo inteiro estava mergulhado num silêncio ensurdecedor.As despedidas íntimas haviam acontecido nos corredores internos, longe dos olhares dos lordes e dos soldados. Eu havia abraçado Lyra com uma força desesperada, afagando os cabelos brancos da minha menina, sussurrando contra a bochecha sardenta dela todas as promessas e conselhos que uma mãe poderia dar. Eu pedi que ela fosse forte, que continuasse lendo, que não esquecesse o arco longo e, acima de tudo, que permitisse a si mesma ser feliz no Sul. Ela chorou, as lágrimas quentes molhando o meu pescoço, os dedinhos apertando o veludo do meu vestido como se fosse a última âncora do mund

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXIX - DESPEDIDAS

    O fogo crepitava na lareira da sala de estudos, lançando sombras quentes e dançantes sobre as prateleiras de carvalho maciço e os milhares de pergaminhos que guardavam a história de Obsidiana. O castelo lá fora continuava a sua rotina gélida e militar, mas, dentro daquelas quatro paredes, o tempo parecia ter parado. Não havia Rei, não havia Estrategista, não havia Comandante. Havia apenas uma mãe e os seus dois filhos.Estávamos deitados no chão, sobre os grossos e macios tapetes de pele de urso que forravam a pedra fria. Eu estava no centro, de costas para o chão, fitando o teto abobadado. Torin estava deitado à minha direita, com os braços cruzados atrás da cabeça platinada, enquanto Aedan estava à minha esquerda, de lado, apoiado no cotovelo, observando as brasas com o seu olhar de cobre.Era uma cena idêntica a dezenas de outras que havíamos partilhado quando eles eram apenas filhotes desajeitados, fugindo dos treinos rigorosos de Soren para se esconderem no meu refúgio. Mas agora

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXVIII - A CÚPULA

    O amanhecer trouxe consigo uma claridade fria e implacável que atravessou as pesadas cortinas do meu quarto, mas não trouxe arrependimento. Quando abri os olhos, o peso reconfortante do braço de Aedan ainda repousava sobre a minha cintura, prendendo-me contra o peito largo e quente dele. A marca na base do meu pescoço latejava num ritmo compassado, um lembrete físico e eterno de que eu havia sido reivindicada. O meu sangue cantava, a minha loba estava em paz, mas o ar que respirávamos estava denso com a promessa da tempestade.A minha pele inteira exalava o cheiro dele. Couro, especiarias, ozônio e o gelo cortante do Sul haviam se fundido à minha lavanda de forma irrevogável. Aedan me ajudou a vestir uma túnica de gola alta, os dedos longos dele demorando-se na minha marca com uma reverência quase religiosa, antes de beijar a minha testa. Não havia mais como nos escondermos. Nós caminhamos pelos corredores de Obsidiana lado a lado, as nossas mãos entrelaçadas. A cada passo, eu via as

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXVII - DESISTÊNCIA DELICIOSA

    As horas que se arrastaram após o amanhecer foram a tortura mais silenciosa que eu já havia suportado. A nevasca lá fora continuava castigando as muralhas de Obsidiana, uivando como um bando de feras famintas, mas o verdadeiro inferno estava acontecendo dentro do meu próprio corpo.Trancada nos meus aposentos, eu andava de um lado para o outro como um animal enjaulado. A minha pele formigava. O meu sangue parecia espesso, quente demais, correndo pelas minhas veias com uma urgência febril que me deixava tonta. O meu lobo interior estava desperto, arranhando as grades da minha mente, exigindo o macho que a biologia havia escolhido. Eu esfregava os braços, tentando espantar os tremores, mas o cheiro fantasma de Aedan — couro escuro, gelo e especiarias — recusava-se a abandonar os meus sentidos.Quando a noite finalmente caiu, engolindo o castelo numa escuridão profunda, o clique metálico da fechadura da minha porta soou como um tiro.Girei sobre os calcanhares, o coração saltando até a b

  • Vendida ao Monstro do Norte   CXXVI - PAI E FILHO

    O amanhecer na Fortaleza de Obsidiana, após a nevasca implacável que castigou a montanha durante a noite inteira, nasceu pálido, silencioso e congelante. O castelo parecia mergulhado num transe profundo, as pedras cobertas por uma espessa camada de gelo branco que refletia a luz fraca do sol de inverno.Aedan caminhava pelos corredores da Ala Leste com passos medidos, silenciosos e absolutamente letais. O Estrategista do Sul não havia dormido. O cheiro de lavanda, pele úmida e desejo ainda impregnava as suas roupas e nublava os seus sentidos, uma lembrança física e torturante da garota de cabelos brancos que ele deixara adormecida, trancada e segura nos aposentos dela, poucas horas antes.O lobo dentro dele estava agitado, arranhando as paredes da sua mente, exigindo voltar, exigindo arrombar aquela porta de carvalho e terminar o que haviam começado. Mas a mente humana, afiada e brilhante de Aedan, sabia que o próximo passo não poderia ser dado no calor dos lençóis. O próximo passo pr

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status