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Capítulo 04

作者: Merida Lonson
last update publish date: 2026-09-20 00:44:39

Ares nem sequer olhou para trás quando saiu. Com um aceno seco de cabeça, deu a ordem final para o seu braço direito assumir a triagem inicial e caminhou a passos largos em direção ao corredor. Victor apenas assentiu em respeito à decisão do chefe, trocou um olhar breve e sério comigo e se afastou apressadamente para executar os comandos de Ares, deixando-me sob a vista curta de dois guardas na entrada da biblioteca.

Eu me recusei a voltar para o quarto imediatamente. A raiva ainda queimava em minhas veias, quente e pulsante, misturada ao tremor involuntário nos meus pulsos onde os dedos de Ares haviam me prensado. Se aquele homem achava que uma demonstração de força e autoridade me deixaria acovardada, estava tragicamente enganado.

Fui para a biblioteca e me encostei na mesa de leitura de madeira maciça, cruzando os braços bem apertados contra o peito para disfarçar o descontrole do meu corpo. O silêncio do salão era pesado, quebrado apenas pelo som abafado da minha própria respiração.

Caminhei devagar até a imensa janela em arco que dava para o pátio interno. Apoiei a testa contra o vidro frio, tentando desacelerar os batimentos do meu coração. Lá embaixo, o movimento dos homens armados havia mudado drasticamente após as ordens que Ares enviara pelo rádio. A postura deles não era mais de mero tédio; os guardas circulavam em duplas, com as mãos estrategicamente posicionadas perto dos coldres, observando as copas das árvores e as extremidades dos muros com uma paranoia palpável.

A mansão parecia uma fortaleza em alerta máximo. E enquanto eu observava a ronda cadenciada daqueles homens lá fora, uma certeza se cravava no fundo da minha alma: o perigo real não estava apenas do outro lado dos portões. Ele estava ali dentro, respirando o mesmo ar que nós.

A tempestade da noite anterior dera lugar a uma neblina espessa que cobria os jardins da mansão Voss. Do alto da biblioteca, no segundo andar, observei a rotina dos guardas. Eles faziam rondas a cada quinze minutos, mas havia um ponto cego no canto leste do muro principal: o momento em que a patrulha da piscina trocava de turno com os homens dos portões de serviço.

Quinze segundos. Era essa a janela de tempo de que eu precisava.

Eu não nasci para ser moeda de troca, nem a prisioneira agradecida de um chefe da máfia. Victor e Ares podiam acreditar que as paredes de pedra e as ameaças sobre a Família Romano me manteriam obediente, mas eles não me conheciam. O choque pela morte do meu pai e o trauma do leilão haviam dado lugar a algo muito mais incandescente: uma raiva pura e calculada.

Caminhei em direção à porta pesada da biblioteca, ajustando a jaqueta preta que pegara no closet mais cedo. Meus pulsos ainda doíam, mas minhas pernas estavam prontas. Quando cheguei ao corredor, o guarda postado na porta me encarou com apatia.

— Preciso de água fresca. A da jarra acabou — menti, mantendo a voz vacilante, imitando a garota assustada que eles achavam que eu era.

O homem suspirou, o tédio visível em sua postura. Ele deu um passo para o lado, indicando a escada de serviço que levava à cozinha.

— Vá e volte direto. Se o senhor Voss te pegar fora do setor, ele te mata.

Aproveitei a guarda baixa. Desci os degraus de pedra em silêncio, o coração martelando contra as costelas. Em vez de ir para a cozinha, dobrei à esquerda, infiltrando-me no corredor dos funcionários que dava para a lavanderia externa. O ar frio da manhã atingiu meu rosto assim que empurrei a porta metálica dos fundos.

Corri.

Meus sapatos quase não faziam barulho na grama úmida. Atravessei o labirinto de arbustos altos em direção à saída do lado leste, exatamente na contagem regressiva da troca de turno. Oito... sete... seis... alcancei a base do muro de alvenaria. Havia uma trepadeira antiga subindo pelas pedras, grossa o suficiente para servir de apoio.

Acessei o primeiro galho, apoiando o pé na saliência da pedra. Meus dedos sangraram quando me agarrei à crista do muro, mas a adrenalina anestesiava qualquer dor. Eu estava a um pulo da liberdade, a um passo de desaparecer na floresta que cercava a propriedade e tomar o controle da minha própria vida.

Içava o corpo para o topo quando uma mão de forte se fechou ao redor do meu tornozelo.

O puxão foi implacável e preciso. Perdi o apoio das mãos e caí de costas. Antes que meu corpo chocasse contra o chão, fui aparada por um impacto firme contra um peito rígido. Fui girada no ar e prensada com força contra o muro de pedra.

Ares.

Seus olhos escuros estavam acesos com uma fúria gélida e perigosa. Ele segurava meus dois pulsos bloqueando meu corpo com o dele. O cheiro de madeira, couro e o hálito quente dele invadiram meus sentidos enquanto eu lutava desesperadamente, tentando chutá-lo, tentando me soltar daquela prensa de músculos e tecido caro.

— Me solta! Agora! — gritei, a raiva transbordando na minha voz enquanto me debatia contra o peito dele. — Eu prefiro morrer lá fora a ficar trancada nessa sua gaiola nojenta!

Ares não se moveu um milímetro. Ele nem sequer parecia arfante. Apenas me manteve presa contra a parede fria, a pressão de seus dedos no meu pulso lembrando-me da discrepância brutal de força entre nós.

— Você é inacreditavelmente estúpida — disse ele, a voz num tom terrivelmente baixo, aveludado e carregado de um desprezo que fez meu sangue ferver. — Você acha que isso é um jogo? Acha que fugir para a floresta como uma criança fujona faz de você uma heroína?

— Faz de mim alguém que não aceita ordens de um assassino! — cuspi as palavras a centímetros do rosto dele, encarando a imensidão negra dos seus olhos sem piscar. — Você pagou por mim porque quer saber o segredo do meu pai! Você é exatamente igual aos homens daquele leilão! A única diferença é o terno!

Um sorriso frio, quase cruel, despontou nos lábios de Ares. Ele se aproximou ainda mais, a linha dura do seu maxilar roçando minha bochecha enquanto ele sussurrava no meu ouvido, a voz cortante como uma navalha:

— Se eu fosse igual a eles, garota, você já estaria amarrada em um porão com eletrodos no corpo até lembrar onde está os arquivos e o dinheiro que estava com seu pai. Eu não gastei milhões para brincar de babá de uma garota ingrata e mimada. Eu fiz isso para honrar uma dívida de sangue. E, conseguir o que eu quero.

— Eu não pedi para você honrar nada! — tentei chutar a canela dele, mas ele bloqueou minha perna com o joelho com facilidade irritante, prensando-me ainda mais contra a parede.

— Mas eu fiz — retrucou ele, puxando meus pulsos um pouco mais para cima, obrigando-me a encará-lo de frente. — E agora a sua vida é a minha responsabilidade, quer você goste ou não. Se você cruzar a linha deste muro novamente sem a minha permissão, eu juro que coloco correntes nos seus pulsos. Você vai odiar cada segundo nesta casa, mas vai odiar estando viva.

— Eu odeio você — sussurrei, a respiração descontrolada, a proximidade do corpo dele fazendo meu peito subir e descer em um ritmo frenético. O ódio que eu sentia por aquele homem era uma força física, palpável.

— O seu ódio não tem o menor valor para mim, Lívia — respondeu ele, soltando meus pulsos com um gesto brusco de desprezo e dando um passo para trás, ajeitando os punhos do paletó como se acabasse de recolher um lixo do chão. — Mas a sua sobrevivência tem.

Antes que eu pudesse tentar qualquer outra reação, passos apressados soaram no cascalho. Victor surgiu, acompanhado por três guardas armados. O braço direito do Ares parecia visivelmente alterado, o rosto pálido e a respiração descompassada.

— Ares! Graças a Deus te encontrei — disse Victor, ignorando o fato de eu estar encostada no muro, descabelada e furiosa. — As câmeras do perímetro dispararam o alarme silencioso. O que aconteceu?

— A nossa convidada achou que estava em um acampamento de férias — respondeu Ares sem sequer olhar para mim, o tom de voz retornando à habitual indiferença executiva. — Redobre a guarda no segundo andar. Se ela pisar fora do quarto novamente, os homens de plantão serão demitidos e jogados no porto.

Victor olhou para mim, sua expressão vacilando entre a decepção e uma preocupação quase paternal.

— Lívia... por que fez isso? Você podia ter sido baleada pelos sensores automáticos do muro — disse ele, a voz mansa, aproximando-se com as mãos levantadas em sinal de paz. — Ares só está tentando garantir que você não termine como seu pai.

— Não fale do meu pai como se você se importasse! — esbravejei para Victor, afastando-me da parede. — Vocês dois são Farinha do mesmo saco! Me mantêm prisioneira e esperam que eu agradeça!

— Chega de teatro — cortou Ares, a voz soando como um chicote no ar. — Victor, leve-a para o quarto. Tranque a porta principal e desative a sacada.

— Espera — interveio Victor, segurando o tablet nas mãos e encarando o chefe com gravidade. — Temos um problema urgente no porto. O galpão quatro que foi queimado... os peritos encontraram vestígios de explosivos que só a nossa divisão de suprimentos tem acesso. O traidor usou o código de segurança do próprio comando para abrir as portas antes de incendiar tudo.

Ares congelou por uma fração de segundo. Pela primeira vez desde que cheguei a esta propriedade, vi uma fagulha de algo perigoso e sombrio cruzar seus olhos. A menção ao traidor interno tocara no único ponto onde o Rei da Máfia era vulnerável: o controle absoluto da própria estrutura.

— Quem assinou a liberação do código? — perguntou Ares, a voz tão baixa que parecia vir do fundo da terra.

— O registro de acesso foi apagado do servidor central, mas o terminal usado fica no escritório do segundo andar — explicou Victor, o olhar sério. — Alguém de dentro da mansão fez isso, Ares. Enquanto estávamos no leilão ou logo após a nossa chegada.

Olhei para o Ares depois para o Victor. O braço direito parecia genuinamente chocado com a audácia do traidor, enquanto Ares mantinha a postura ereta, a mente claramente calculando cada movimento do inimigo oculto.

Senti um arrepio percorrer minha espinha. Aquele lugar não era apenas uma cela; era um ninho de cobras. E o homem que me prensara contra o muro há poucos segundos podia ser o meu carcereiro, mas o verdadeiro monstro estava circulando pelos corredores daquela mansão em silêncio, esperando a oportunidade certa para nos destruir.

— Victor, leve-a para cima — ordenou Ares, virando as costas e caminhando a passos largos em direção ao casarão. — E mande isolar a sala de servidores. Eu mesmo vou revisar os acesso.

Victor fez um aceno de cabeça e se voltou para mim, a expressão suave retornando ao seu rosto.

— Vamos, Lívia. Por favor. Não piore as coisas para você mesma.

Encarei as costas de Ares Voss enquanto ele se afastava pela grama alta. Meus pulsos ainda queimavam pela pressão dos seus dedos, e meu corpo inteiro tremia de raiva e exaustão. Eu falhara na fuga, fora humilhada e trancada novamente, mas enquanto caminhava escoltada de volta para a mansão, uma certeza se cravou no meu peito:

Eu não ia desistir. Ele podia colocar quantas trancas quisesse naquela porta, podia me olhar com todo o desprezo do mundo e me ameaçar com correntes. Eu descobriria o segredo do meu pai e encontraria uma brecha naquele império. E quando o fizesse, Ares Voss aprenderia que não se compra a liberdade de ninguém.

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