LOGINLívia nunca imaginou que a morte do pai seria apenas o começo do seu pesadelo. Poucos dias depois de enterrá-lo, ela é sequestrada por homens que sabem mais sobre sua família do que ela. Mantida em cativeiro, sem entender por que se tornou alvo, Lívia acredita que ninguém virá salvá-la. Até que Ares aparece. Conhecido como o Rei da Máfia, Ares é poderoso, frio e temido por todos que conhecem seu nome. Para tirar Lívia das mãos dos sequestradores, ele paga o preço exigido por sua vida. Para ela, existe apenas uma explicação: foi vendida. O que Lívia não sabe é que, antes de morrer, seu pai procurou Ares e lhe fez uma promessa: se alguma coisa acontecesse com ele, Ares deveria proteger sua filha. Agora, Ares precisa cumprir sua palavra. Mas existe um problema: alguém dentro da organização está tentando matar Lívia, e ele não sabe em quem confiar. Enquanto procura pelo traidor, Ares mantém Lívia sob sua proteção e esconde dela a verdadeira identidade do pai. Presa naquele mundo, ela odeia as regras de Ares, seu jeito controlador e o fato de depender do homem que acredita ter comprado sua liberdade. Mas, quanto mais Ares tenta mantê-la distante dos perigos da máfia, mais Lívia se aproxima dos segredos que seu pai levou para o túmulo. Ela descobre que sua família escondia uma vida que não imaginava e que a morte do pai pode estar ligada à guerra pelo poder. O pior é que o inimigo pode estar mais perto do que imaginam. Enquanto a ameaça cresce, Ares percebe que proteger Lívia deixou de ser apenas uma promessa. Ela desperta sentimentos que jurou sufocar para sempre dentro dele. Ele prometeu mantê-la viva até encontrar o traidor. Só não prometeu conseguir proteger o próprio coração.
View MoreO cheiro de fumaça e fuligem ainda parecia impregnado na minha pele, entranhado nos meus poros de uma forma que água nenhuma seria capaz de lavar. Segurando a pequena urna de cerâmica escura contra o peito, observei o céu acinzentado da tarde parecer desabar sobre a cidade. O funeral do meu pai fora rápido, silencioso e solitário. Sem flores, sem discursos emocionados, sem rostos conhecidos para me oferecer condolências. Apenas eu, o crematório e o eco dos últimos avisos que ele murmurara no leito de morte: “Se algo acontecer comigo, vá embora, Lívia. Não olhe para trás. Não confie em ninguém que mencione o meu passado.”
Apertei o casaco preto contra o corpo, sentindo o ar frio da rua cortar minhas bochechas. Meu pai sempre fora um homem reservado, um contador de histórias de poucas palavras que vivia nas sombras e evitava chamar atenção. Para mim, ele era apenas um homem cansado tentando me dar uma vida comum. Mas a paranoia que o consumira nos últimos meses agora parecia ter uma razão assustadora de ser. Ao dobrar a esquina da minha rua, a pouca iluminação pública começou a falhar, piscando em um ritmo febril. O ambiente parecia deserto demais, frio demais. Apressando os passos, apertei a chave de casa entre meus dedos trêmulos. O som de um motor gutural rasgou o silêncio logo em seguida. Uma van preta, de vidros totalmente escurecidos, subiu a calçada de estalo, bloqueando minha passagem. Antes que eu conseguisse gritar, a porta lateral correu. Dois homens altos, de rostos cobertos por balaclavas, saltaram para o asfalto. Um deles me agarrou pela cintura, pressionando um pano áspero impregnado com um odor químico forte contra meu nariz e boca. Lutei desajeitadamente. A urna com as cinzas do meu pai escapou das minhas mãos, chocando-se contra o chão e se estilhaçando, espalhando o pó cinza no asfalto molhado. Não... — foi meu último pensamento consciente antes que a escuridão me tragasse. A consciência retornou em ondas dolorosas de náusea e tontura. Pisquei devagar, tentando focar a visão. Minhas mãos estavam amarradas para trás com abraçadeiras de plástico que cortavam meus pulsos a cada movimento, e minhas pernas estavam presas à base de uma cadeira de metal fria. Eu estava em um salão subterrâneo amplo, iluminado por holofotes amarelados que lançavam sombras grotescas nas paredes de concreto aparente. O ar cheirava a mofo, tabaco barato e suor acumulado. À minha frente, havia um pequeno palco improvisado. Nas laterais e ao fundo da sala, agrupavam-se homens em ternos sob medida, conversando em sussurros graves enquanto seguravam copos de uísque. — Calma, garotinha. Não tente se mexer — debochou uma voz rouca ao meu lado. Um homem franzino, de terno amassado e cicatriz no queixo, segurou meu rosto com força, virando-me para a multidão silenciosa. — O que é isso? Me soltem! O que vocês querem comigo? Eu não tenho dinheiro! — protestei, minha voz falhando pelo pânico. — Você não precisa de dinheiro, coisinha. Você é o produto — o homem riu, voltando-se para o salão. — Senhoras e senhores, como prometido! A filha do velho. Sem rastro, sem polícia, sem complicações. A chave de acesso para quem souber fazer as perguntas certas. Lance inicial: meio milhão de dólares. Senti meu sangue congelar nas veias. Leilão. Eles estavam me vendendo como uma mercadoria. Tentei me debater, mas a cadeira era rígida. Homens na plateia começaram a erguer as mãos, ditando números como se negociassem um imóvel. As ofertas subiam rapidamente: setecentos mil, oitocentos mil, um milhão. — Um milhão e duzentos mil! — gritou um homem na primeira fileira, trajando um sobretudo escuro. O leiloeiro sorriu, erguendo o martelo de madeira. — Um milhão e duzentos mil para o senhor Shel! Alguém dá mais? Uma... duas... — Cinco milhões. A voz que cortou o salão não era alta, mas possuía uma autoridade tão absoluta e gélida que o burburinho na sala cessou instantaneamente. Todos os olhares se voltaram para o fundo do salão, onde a penumbra escondia a entrada. Um homem deu um passo à frente, saindo das sombras. Ele vestia um terno perfeitamente cortado em tom cinza-chumbo. Alto, de ombros largos e postura impecável, transpirava um perigo silencioso. Seus cabelos escuros estavam alinhados e os olhos, de um tom denso e indecifrável, fitavam o palco com um desprezo quase enfadado. Ao seu lado, um homem um pouco mais velho, de feições sérias e olhar atento, mantinha a mão dentro do paletó. Ele observava a multidão com a compostura de quem conhecia cada canto daquele submundo. O silêncio no salão tornou-se sufocante. — Senhor... Voss — o leiloeiro gaguejou, o sorriso sumindo imediatamente. — Não sabíamos que o senhor honraria este evento com sua presença. Ares Voss caminhou devagar pelo corredor central. Os homens que antes faziam lances afastavam-se respeitosamente, abrindo caminho como se temessem ser notados. Ele nem sequer olhou para eles. Seus olhos estavam fixos em mim. — Cinco milhões de dólares — repetiu Ares, parando a poucos metros do palco. — Em dinheiro, transferido agora. E ela sai comigo. — Mas... senhor Voss — interveio o homem que havia dado o lance anterior, dando um passo à frente com o rosto contraído de raiva. — O leilão estava aberto. A regra da mesa... Ares lentamente virou o rosto para encará-lo. O olhar do Rei da Máfia era como uma lâmina afiada. — As regras da mesa são mantidas pela minha família, Shel — disse Ares, a voz suave, quase aveludada, mas impregnada de uma ameaça morta. — Você quer questionar quem dita as leis nesta cidade? O tal sr. Shel engoliu em seco, os punhos fechados ao lado do corpo, mas acabou recuando um passo, inclinando a cabeça em uma concordância contrariada. Ninguém ali parecia ousar desafiar aquele homem. — Transferência feita — anunciou o homem ao lado de Ares, baixando o telefone com um aceno sutil para o leiloeiro. Ares subiu os degraus do palco sem pressa. Ele tirou um canivete de prata do bolso interno do paletó, abriu a lâmina com um estalo seco e se aproximou de mim. Encolhi-me, prendendo a respiração enquanto ele se inclinava. O cheiro dele — uma mistura de amadeirado, couro e charuto fino — envolveu meus sentidos. Com dois cortes precisos e rápidos, ele seccionou as abraçadeiras nos meus pulsos e tornozelos. — Você... você vai me matar? — sussurrei, a voz trêmula, segurando meus pulsos marcados de vermelho. Ares guardou a lâmina e olhou no fundo dos meus olhos. Não havia piedade na expressão dele, apenas uma determinação implacável. — Não — ele respondeu baixinho, a voz apenas para eu ouvir. — Eu acabei de comprar a sua vida. E a partir de agora, você pertence a mim. Ele tirou o próprio sobretudo pesado e o jogou sobre meus ombros trêmulos, cobrindo-me. Em seguida, segurou-me firmemente pelo cotovelo, guiando-me para fora do palco. O acompanhante de Ares abriu a porta do utilitário blindado que aguardava na saída do galpão, mantendo os olhos atentos à rua. — Está tudo limpo, Ares. Ninguém nos seguiu— informou o homem, assumindo o banco do passageiro dianteiro enquanto o motorista dava partida. Ares sentou-se ao meu lado no banco traseiro. A van cortou a noite em velocidade constante, afastando-se do distrito industrial. Encolhi-me no canto do banco, abraçando o sobretudo dele que ainda mantinha o calor de seu corpo. O pânico de ser sequestrada dava lugar a um terror ainda mais profundo: eu estava no carro do homem mais perigoso da cidade. — Quem é você? Por que pagou aquilo por mim? — perguntei, tentando manter a voz firme, embora meu corpo todo estivesse tremendo. Ares nem sequer se virou para me olhar. Ele observava a chuva que começava a bater no vidro escurecido do carro. — O seu pai fez muitos inimigos, garota. E deixou pendências que não teve tempo de resolver — disse ele, o tom frio e distante. — Aqueles homens que te pegaram sabem que sua cabeça tem um valor, só não sabem quanto. Entretanto, tem gente que sabe e fará de tudo para tê-la. — Impossível.— eu disse. — O seu pai sabia demais. E você é o único rastro que sobrou dele — declarou. — Há pessoas nesta cidade que fariam qualquer coisa para ver você morta antes que descubram o que o seu pai escondeu. A partir de hoje, você não sai do meu alcance. Você cumpre as minhas ordens e não fala com ninguém. — Você me ajudou para ser sua prisioneira? — falei, erguendo o queixo apesar do medo. Um esboço de sorriso gelado surgiu nos lábios dele. — Eu não te ajudei. Eu comprei você. Você está viva, Lívia. No nosso mundo, isso é o mais próximo de liberdade que você vai conseguir. O carro acelerou, entrando pelos grandes portões de ferro de uma imensa propriedade nas colinas da cidade. Olhei pela janela, vendo a silhueta da mansão se erguer contra o céu noturno.Eu encarava meu próprio reflexo no espelho do quarto, abotoando os botões da camisa social azul-marinho. Tecido pesado, corte ajustado nos ombros. Por cima, vesti o paletó preto e ajeitei a calça de alfaiataria escura, finalizando com os sapatos sociais. Curvei o corpo sobre a bancada, passei a mão pelos cabelos ainda levemente úmidos e borrifei um pouco do perfume no pescoço. Peguei a gravata preta sobre a cama, cheguei a alinhá-la sob o colarinho, mas desisti. Não estava com paciência para formalidades sufocantes. Tirei a gravata, joguei-a de qualquer jeito na poltrona e abri o primeiro botão da camisa, soltando o ar devagar. Minha cabeça ainda teimava em voltar para a cena da cozinha, minutos atrás. Lívia de joelhos, tentando juntar os estilhaços de vidro no chão. A gota de sangue vermelho pingando do dedo mindinho dela. Eu passei a vida inteira cercado por violência, vi homens agonizarem no asfalto e fiz Inimigos sangrarem sem piscar. Mas, por algum motivo absurdo e irritante, v
O som da porta do jardim de inverno batendo suavemente ao fechar deixou-me sozinha com o eco das minhas próprias batidas cardíacas. Fiquei parada por alguns segundos encarando o espaço vazio onde Ares estivera há pouco. A frase dele — "Eu apostaria a minha vida que você não vai fazer isso" — ainda ecoava na minha cabeça, junto à imagem nítida da P226 preta escondida no cós da calça dele, bem na linha dos rins. Soltei um suspiro longo, passando as mãos pelo rosto. Eu não sabia exatamente como me sentir em relação a tudo aquilo. Minha mente era um turbilhão de confusão. Por um lado, o ódio e o rancor pelo que ele fizera ao me manter prisioneira continuavam ali, intactos; por outro, havia uma nova camada de tensão, uma gravidade invisível que me puxava para a órbita dele de um jeito que eu não conseguia controlar. A forma como ele me defendera, o olhar intenso... nada daquilo fazia sentido no meu plano de sobrevivência. Eu estava me acostumando a um monstro, e isso era terrivelmente per
A mansão parecia respirar de um jeito diferente depois daquela madrugada no banheiro de Ares. Não que ele tivesse ficado mais brando ou que eu tivesse esquecido quem ele era, mas a distância entre nós mudara. O rastro de pele quente, o cheiro de sangue limpo e a precisão do nó de sutura que fiz em sua coxa pareciam ter marcado um território invisível entre nós dois. Eu sabia que algo dentro de mim tinha se deslocado. Não era afeto — eu me recusava a chamar de afeto —, mas uma consciência constante, quase física, da presença dele. Sempre que ouvia passos no corredor, minha pele formigava. Era irritante e perigoso sentir que a linha entre a repulsa e a fascinação pela fera estava ficando cada vez mais tênue. Para escapar do peso abafado dos quartos, decidi ir até o Jardim, uma estrutura ampla de ferro trabalhado e vidro nos fundos da casa, repleta de plantas nativas e uma pequena fonte de pedra. O som da água corrente era o único refúgio silencioso que encontrei. Eu estava parada per
O silêncio daquela mansão de madrugada não trazia paz; parecia apenas uma pausa estratégica antes que a próxima tragédia desabasse. Eu estava acordada, andando de um lado para o outro sobre o tapete escuro do meu quarto. A mensagem do meu pai no vídeo não saía da minha mente. A voz cansada dele, a menção ao Sentinela Branco, a dor de saber que ele se fora... tudo aquilo se misturava ao pavor sufocante de me ver trancada em uma gaiola de ouro sob a custódia do homem mais frio e imprevisível que já cruzei na vida. Quando o relógio de parede indicou quase quatro da manhã, um rosnado grave de motor ecoou no pátio dos fundos. Fui até a janela e vi o SUV blindado de Ares estacionar sob a chuva fina. Ele tinha saído há horas sem dar explicações a ninguém. Curiosa — e movida por um instinto constante de sobrevivência —, abri a porta do meu quarto e coloquei a cabeça para fora. Passos pesados e apressados subiam a escadaria. Não era apenas Ares. — Chamem o médico logo, droga! — era a vo












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