O cheiro de fumaça e fuligem ainda parecia impregnado na minha pele, entranhado nos meus poros de uma forma que água nenhuma seria capaz de lavar. Segurando a pequena urna de cerâmica escura contra o peito, observei o céu acinzentado da tarde parecer desabar sobre a cidade. O funeral do meu pai fora rápido, silencioso e solitário. Sem flores, sem discursos emocionados, sem rostos conhecidos para me oferecer condolências. Apenas eu, o crematório e o eco dos últimos avisos que ele murmurara no leito de morte: “Se algo acontecer comigo, vá embora, Lívia. Não olhe para trás. Não confie em ninguém que mencione o meu passado.” Apertei o casaco preto contra o corpo, sentindo o ar frio da rua cortar minhas bochechas. Meu pai sempre fora um homem reservado, um contador de histórias de poucas palavras que vivia nas sombras e evitava chamar atenção. Para mim, ele era apenas um homem cansado tentando me dar uma vida comum. Mas a paranoia que o consumira nos últimos meses agora parecia ter uma r
Last Updated : 2026-09-09 Read more