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Capítulo 03

Penulis: Merida Lonson
last update Tanggal publikasi: 2026-09-09 11:09:41

A luz fria e pálida do amanhecer atravessava os painéis de vidro blindado da varanda, desenhando retângulos foscos sobre o piso de madeira de demolição. Eu não havia dormido uma única hora. Passei a noite inteira encolhida na poltrona do canto do quarto, vigiando a porta como se a qualquer momento o maçaneta fosse girar e dar passagem a um executor.

Minhas pálpebras pesavam, ardendo pelo choro sufocado de horas atrás, mas meu cérebro se recusava a desligar. A névoa do pânico inicial começava a dar lugar a um tipo diferente de dor: a lucidez cruel de quem percebe que a vida antiga foi pulverizada sem possibilidade de reconstrução.

O quarto era imenso. As paredes em tons de cinza-chumbo e bege sóbrio ostentavam quadros abstratos em molduras de metal escuro. Uma cama imensa ocupava o centro do ambiente, intocada por mim. À esquerda, uma porta de correr revelava um closet espaçoso, abastecido com roupas femininas novíssimas de marcas de luxo — jeans de corte reto, suéteres de caxemira, vestidos —, todas exatamente no meu tamanho. A constatação fez meu estômago embrulhar. Era como se Ares já tivesse planejado tudo aquilo.

Um toque triplo e ritmado na porta rompeu o silêncio do cômodo.

Endireitei o corpo na poltrona, prendendo a respiração. Ouvi o estalo da chave girando na fechadura por fora. A porta pesada se abriu devagar, revelando Victor. Ele vestia um terno azul-marinho perfeitamente alinhado e carregava uma bandeja de prata com um bule de porcelana fumegante, torradas, frutas cortadas e um copo de suco.

— Bom dia, Lívia — disse ele, a voz mantendo aquela cadência calma, quase paternal, que tentava me acalmar. — Trouxe algo para você comer. Você precisa manter as forças.

Ele caminhou até a mesa de apoio perto da janela e pousou a bandeja com cuidado. Olhei para a comida e depois para os pulsos dele, observando as abotoaduras de ouro reluzentes.

— Não estou com fome — murmurei, mantendo a voz mais baixa possível para não trair o tremor nos meus lábios.

Victor suspirou com simpatia, ajustando a postura.

— Eu imagino o choque que você está passando. Mas garanto a você, o pior já passou. Se aqueles homens do leilão tivessem ficado com você por mais uma hora, você não estaria viva para ver o sol nascer hoje.

Levantei o olhar para encarar seu rosto. Victor tinha cabelos ligeiramente grisalhos nas têmporas, olhos castanhos firmes e um vinco de preocupação entre as sobrancelhas. Ele parecia mais um diplomata de alto escalão do que um homem envolvido com o crime organizado.

— Quem eram aqueles homens? E por que o meu pai me deixou no meio dessa sujeira? — perguntei, deixando o desespero aflorar. — Ele era só um homem norma! Ele trabalhava com números! Ele nunca teve uma arma, nunca levantou a voz para ninguém! Ele era a pessoa mais correta que já conheci em toda a minha vida.

Victor puxou uma cadeira de madeira nobre e sentou-se a uma distância respeitável de mim, cruzando as mãos sobre o joelho.

— O seu pai, Ernesto, era o homem de maior confiança da antiga liderança da organização. Quando Ares assumiu o comando após a morte do pai dele, Ernesto continuou sendo a espinha dorsal de toda a nossa contabilidade legítima e... dos registros confidenciais.

— Registros confidenciais? — repeti, a palavra soando amarga na minha língua.

— A família Voss construiu um império nas últimas três décadas, Lívia — explicou Victor, inclinando-se levemente para a frente como se revelasse um segredo de Estado. — Hoje, mais de oitenta por cento de toda a fortuna vem de negócios totalmente legais. Hotéis de luxo na Europa, a maior empresa de segurança privada do país, frotas de navios de logística e outros transportes, além de casas noturnas e restaurantes premiados. Ares não é apenas um chefe do submundo, digamos assim, ele é um dos empresários mais influentes do continente.

Fiquei em silêncio, processando a escala daquilo. O dinheiro que meu pai gerenciava não vinha apenas de maletas pretas no escuro; vinha de um império corporativo gigante.

— Mas a máfia ainda está lá, não está? — deduzi, encarando-o.

— Está — admitiu Victor, sem piscar. — A máfia é a estrutura que protege os negócios legítimos. E para manter todas as outras famílias rivais sob controle, Ares precisou unificá-las debaixo de uma única bandeira. Ele criou a paz nesta cidade. Mas essa paz é frágil. E o seu pai... o seu pai guardava os arquivos que mantêm os acordos entre essas famílias de pé.

— Que arquivos?

— Nomes. Contas bancárias encobertas. Provas de quem traiu quem durante a guerra de transição de poder há cinco anos — explicou ele com gravidade. — Há três meses, quando o seu pai descobriu que estava doente, ele sumiu com o livro de registros original. Ele sabia que, se esse livro caísse nas mãos erradas — como as da Família Romano —, guerras inteiras seriam reacesas. E quando seu pai morreu, os inimigos do Ares deduziram que você sabia onde a chave para esses arquivos estava. Por isso te sequestraram na porta de casa.

Engoli em seco, lembrando da van preta, do pano químico no meu rosto e do barulho do pote de cerâmica se quebrando no asfalto.

— Mas eu não sei de nada! — exclamei, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos novamente. — Ele nunca me contou nada! As últimas palavras dele foram para eu fugir e não confiar em ninguém! Ele não me deu livro nenhum!

— Ares sabe disso — a voz de Victor soou macia, quase acolhedora. — É por isso que ele pagou cinco milhões de dólares para tirar você daquele leilão. Para impedir que a Família Romano te torturasse até você dizer algo que nem sabia, ou para evitar que usassem você como barganha contra nós. Você está protegida aqui, Lívia. Ares pode ter maneiras duras, mas ele cumpre as promessas que faz.

Olhei para a bandeja de café da manhã. A explicação de Victor fazia sentido, trazia uma lógica fria e perfeita para o pesadelo que eu estava vivendo. No entanto, algo na minha intuição continuava gritando, um sobressalto incômodo no fundo da alma que me dizia para não relaxar.

— O Ares vai me manter trancada aqui para sempre? — perguntei.

— Até acharmos esses arquivos e garantirmos que o perigo passou, ele prometeu isso a seu pai— respondeu Victor, levantando-se da cadeira. — Coma algo. Daqui a pouco Ares vai querer falar com você no escritório.

Ele caminhou até a porta, deu uma última olhada para mim com um sorriso contido e saiu, trancando a porta novamente pelo lado de fora.

Duas horas depois, fui conduzida por dois guardas armados pelo corredor até a asa oeste do segundo andar. A mansão parecia ainda maior e mais silenciosa de dia. As paredes de gesso adornado, as janelas gigantescas que davam para jardins perfeitamente aparados e o som distante de passos de funcionários davam ao lugar a atmosfera de um palácio isolado do resto da civilização.

Os guardas pararam em frente a uma porta dupla de madeira de lei com puxadores de bronze. Um deles bateu duas vezes antes de abrir a porta e dar passagem.

— Entre, senhorita.

O escritório de Ares era vasto, dominado por uma estante de livros que ia do piso ao teto alto e uma parede inteira de vidro com vista para as colinas de floresta fechada que cercavam a propriedade. No centro do salão, atrás de uma mesa maciça de mogno coberta por papéis, monitores finos e um telefone antigo de disco, estava Ares.

Ele não usava o terno cinza da noite anterior. Vestia uma camisa social preta com as mangas dobradas até os antebraços, revelando veias marcadas e uma pele bronzeada. Ele segurava uma caneta de metal pesada, assinando documentos com movimentos rápidos e precisos.

— Deixem-nos a sós — ordenou Ares sem levantar os olhos do papel.

Os guardas bateram em retirada, fechando as portas pesadas atrás de mim. O som do trinco se encaixando fez meus ombros se contraírem.

Permaneci de pé perto da entrada, cruzando os braços sobre o peito. A aura de domínio que emanava dele preenchia cada centímetro cúbico daquele cômodo. Era sufocante estar no mesmo ambiente que Ares; ele exalava um tipo de perigo controlado, como um predador que não precisa rosnar para deixar claro que pode matar.

Ele terminou de assinar a última folha, fechou a pasta de couro e finalmente ergueu o rosto para me encarar.

Seus olhos escuros percorreram meu rosto, demorando-se nas olheiras profundas sob meus olhos e, em seguida, caindo para os meus pulsos, onde as marcas vermelhas da noite anterior ainda eram visíveis sob a manga da minha blusa.

— Você não comeu o café da manhã — declarou ele, a voz grave e calma.

— Não estou com fome — respondi, tentando manter a cabeça erguida. — O Victor me explicou sobre os negócios legítimos. Sobre os hotéis, as empresas de transporte, os arquivos do meu pai.

Ares inclinou-se para trás em sua poltrona de couro, entrelaçando os dedos longos sobre a mesa.

— O Victor fala demais às vezes — comentou, com a expressão indecifrável. — Mas a essência da história é essa. Seu pai deixou uma bomba-relógio armada antes de morrer. E você é o estopim.

— Eu já disse para ele e digo para você: eu não sei onde está livro nenhum! Meu pai me manteve longe de tudo isso! Eu nem sabia que vocês existiam até ontem à noite! — caminhei dois passos em direção à mesa dele, a frustração vencendo o receio. — Se você quer o livro, busque nos pertences dele, vá à nossa casa, vire a cidade do avesso! Mas me deixe ir embora! Eu não tenho nada a ver com a sua guerra!

Ares levantou-se devagar. A altura dele era intimidadora; ele devia ter quase um metro e noventa, e a largura de seus ombros fazia o espaço ao redor parecer menor. Ele rodeou a mesa com passos calculados até parar a menos de um metro de mim.

O cheiro dele — a mescla amadeirada e amarga — voltou a tomar conta do meu espaço aéreo.

— Sua casa foi invadida e queimada por homens da Família Romano exatamente quarenta minutos depois que você foi sequestrada — disse ele, a voz caindo para um tom perigosamente baixo. — Não sobrou uma parede de pé, Lívia. Se você voltar para a rua, não vai durar vinte e quatro horas. Romano quer a sua cabeça, e há pessoas dentro do meu próprio ecossistema que pagariam alto para garantir que o segredo do seu pai morra com você depois de pegar os arquivo e os vinte milhões que estavam sobre a posse dele.

—Vinte milhões?

Senti o chão fugir debaixo dos meus pés.

Minha casa fora queimada. Minhas roupas, as fotos da minha infância, os livros que meu pai lia para mim... tudo reduzido a cinzas, assim como o próprio corpo dele. Uma onda de desespero quase me fez perder o equilíbrio, mas a mão de Ares se projetou para a frente, segurando meu antebraço com firmeza antes que eu caísse.

O toque dele era quente e surpreendentemente cuidadoso, apesar da força contida.

— Me solta... — murmurei com a voz embargada, tentando puxar o braço, mas sem forças reais para lutar.

— Olhe para mim — ordenou Ares.

Fui forçada a erguer os olhos para encarar a imensidão escura dos dele.

— Você não vai sair desta propriedade — declarou ele, cada palavra pronunciada com uma clareza cortante. — Não porque você é minha prisioneira, mas porque este é o único lugar no mapa onde ninguém pode tocar em você sem passar por mim primeiro. O seu pai me serviu com lealdade por quinze anos. A última coisa que ele me pediu, foi para garantir que você ficasse viva. E eu honro os meus acordos.

— Ele te pediu isso? — sussurrei, as lágrimas voltando a rolar pelo meu rosto.

— Pediu — Ares estava com uma compostura perfeita, mantendo o olhar fixo no meu para sustentar a farsa que protegia o mistério maior. — Mas a lealdade exige cooperação. Seu pai deixou alguma coisa com você? Um colar? Um código? Uma palavra que ele dizia com frequência nos últimos dias? Qualquer detalhe, por menor que seja, pode ser a chave.

Pensei desesperadamente. Tentei vasculhar as memórias dos últimos dias no hospital, a voz fraca do meu pai, as mãos trêmulas dele segurando as minhas. Mas tudo o que vinha à minha mente eram os avisos vagos sobre não confiar em ninguém e a ordem para fugir.

— Ele não me deu nada — balancei a cabeça, sentindo-me impotente. — Nada além de avisos para eu ir embora.

Ares sustentou meu olhar por mais alguns segundos antes de soltar meu braço lentamente. Ele deu um passo para trás, recuperando a distância e a postura distante de sempre.

— Então você vai tentar lembrar — disse ele, voltando para trás de sua mesa. — Você tem acesso livre à biblioteca e aos jardins do pátio interno, desde que acompanhada por segurança. Não tente se aproximar dos portões principais. Os homens lá fora têm ordens para atirar em qualquer um que tente cruzar a linha sem autorização.

— E você? O que vai fazer? — perguntei, enxugando as lágrimas na manga da blusa com raiva da minha própria fraqueza.

— Eu vou descobrir quem vazou a sua localização para os sequestradores em primeiro lugar — respondeu Ares, os olhos brilhando com uma promessa sombria e mortal. — Porque alguém da minha extrema confiança sabia que seu pai havia morrido antes mesmo que o corpo saísse do crematório. E quando eu encontrar essa pessoa, eu vou mostrar a ela o preço da traição.

Um arrepio gelado percorreu minha espinha. A frieza na voz de Ares era absoluta. Naquele momento, entendi perfeitamente por que aquele homem governava o império da máfia: ele não tinha dúvidas, não tinha hesitação e não conhecia a misericórdia.

Eu estava presa no olho do furacão, cercada por luxo, armas e segredos mortais. E embora Ares afirmasse ser meu protetor, eu sabia que a linha que separava minha salvação da minha ruína era tão fina quanto a lâmina do canivete de prata que ele usara para cortar minhas amarras na noite anterior.

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