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Capítulo 05

Author: Merida Lonson
last update publish date: 2026-09-20 00:59:12

O cheiro de queimado parecia ter ultrapassado os limites do porto e impregnado o ar da própria mansão. Trancada no quarto após o incidente na biblioteca, passei o resto da tarde andando de um lado para o outro sobre o tapete espesso, com os braços cruzados e a cabeça fervilhando. As marcas no meu pulso haviam escurecido para um tom arroxeado, uma lembrança constante e dolorosa da força de Ares Voss.

A raiva que eu sentia por ele não era apenas por ter me prendido, mas pela forma como ele me olhava: como se eu fosse uma criança insignificante, um estorvo inconveniente que ele era obrigado a aturar por causa de um contrato invisível.

A noite caiu densa, e a chuva voltou a martelar contra as janelas de vidro blindado.

Quando a tranca da porta estalou por volta das nove da noite, não me dei ao trabalho de me levantar da poltrona. Victor entrou primeiro, trazendo uma bandeja de jantar que emanava um aroma rico de carne assada e ervas. Atrás dele, com a postura impecável e a expressão de quem carregava o peso de um império em colapso, vinha Ares.

Ares nem sequer me olhou ao entrar. Ele foi direto para a mesa de canto, puxou uma cadeira e sentou-se, apoiando os cotovelos sobre os joelhos e encarando o chão com uma rigidez assustadora. O paletó cinza estava jogado sobre o braço de Victor, e a camisa preta de Ares tinha os dois primeiros botões abertos, revelando a linha tensa do pescoço.

— Deixe a bandeja aí, Victor. E feche a porta — ordenou Ares, a voz rouca pelo cansaço e pela fumaça que provavelmente respirara ao vistoriar os estragos no porto.

— Quer que eu mande chamar o médico para examinar o pulso dela? — perguntou Victor, num tom baixo, demonstrando uma preocupação que Ares nitidamente não compartilhava.

— O pulso dela está ótimo para quem estava tentando escalar um muro de quatro metros — retrucou Ares, sem levantar a cabeça. — Saia.

Victor suspirou, lançando-me um olhar acolhedor antes de recuar.

O silêncio que se instalou no quarto era sufocante. A presença de Ares parecia ocupar cada centímetro de ar disponível. Fiquei em pé devagar, mantendo a maior distância possível dele, encostando as costas na parede fria do fundo.

— O que você quer aqui? — perguntei, a voz firme, recusando-me a mostrar qualquer sinal de fraqueza. — Veio checar se a sua prisioneira continua no quarto ou veio me dar outro sermão sobre o quanto eu sou ingrata?

Ares ergueu o rosto devagar. Seus olhos escuros pareciam duas cavidades fundas, cercadas por sombras de exaustão, mas a frieza brutal continuava lá, intacta.

— O armazém do porto perdeu doze milhões de dólares em mercadoria legítima em menos de vinte minutos — disse ele, num tom baixo, perigosamente calmo. — Quatro dos meus homens estão no hospital com queimaduras de segundo grau. E a Família Romano deixou claro que o próximo alvo não vai ser um depósito de cargas.

— E o que eu tenho a ver com isso? — rebati, dando um passo à frente, tomada por um acesso de indignação. — Eu não coloquei fogo no seu armazém! Eu não chamei a Família Romano! Você me arrastou para essa guerra e agora quer me culpar pelas suas perdas?

Ares levantou-se num movimento lento e ameaçador. A altura dele me obrigava a erguer o queixo, mas eu me recusei a dar um único passo para trás.

— Você é o motivo pelo qual eles estão atacando agora, Lívia — disse ele, a voz caindo para um tom cortante. — A morte do seu pai abriu uma brecha na nossa estrutura. Enquanto eles acharem que você tem os arquivos ou que eu posso usar as informações do Ernesto contra eles, esta cidade vai queimar. E você, com essa sua teimosia ridícula de tentar fugir, só facilita o trabalho deles.

— Eu não pedi para meu pai trabalhar para você! — esbravejei, a respiração descontrolada. — Eu não pedi nada disso! Se você odeia tanto ter que me aguentar aqui, me entregue para eles ou me jogue na rua! Pare de fingir que está me fazendo um favor!

Ares deu um passo rápido na minha direção, parando a milímetros do meu corpo. O calor do peito dele era quase perceptível através do tecido da camisa, e o cheiro de charuto e chuva que emanava dele me envolveu de forma intrusiva.

— Você acha mesmo que eu quero você aqui? — ele se inclinou, falando diretamente no meu rosto, os olhos faiscando de ódio reprimido. — Você acha que é agradável para mim ter que parar o meu trabalho para caçar uma garota mimada no jardim? Você é uma pedra no meu sapato, Lívia. Uma complicação tática que eu preferia não ter. Mas o seu pai deu a vida para que o livro de registros não caísse nas mãos do Romano. Se eu deixar você morrer, o sacrifício dele não terá servido para nada.

— Meu pai morreu por causa da sua organização nojenta! — cuspi as palavras, sentindo as lágrimas de raiva queimarem meus olhos. — Ele passou a vida inteira escondendo o que fazia porque sabia que vocês eram monstros! E você é o pior de todos!

Ares sustentou o meu olhar sem piscar. Não havia dor ou arrependimento na cara dele; havia apenas uma frieza calculada e uma arrogância que me dava vontade de esmurrá-lo.

— Pense o que quiser de mim — disse ele, a voz voltando àquela monotonia gélida que me tirava do sério. — A sua opinião sobre o meu caráter não muda o fato de que você depende da minha proteção para continuar respirando. Amanhã cedo, Victor vai começar a vistoriar os pertences do seu pai que conseguimos resgatar do escritório antigo dele antes do incêndio na sua casa. Você vai sentar com ele e vai examinar cada folha de papel.

— E se eu me recusar? — desafiei, cruzando os braços.

Ares deu um sorriso sem humor e cruel na lateral dos lábios.

— Se você se recusar, eu te tranco neste quarto e não deixo você ver a luz do sol até que eu mesmo encontre o que preciso. Você escolhe se quer ser útil ou se quer ser tratada como uma carga inútil.

A raiva entalou na minha garganta. Eu o odiava com todas as minhas forças. Odiava a forma como ele controlava cada opção minha, odiava a frieza com que falava do meu pai e odiava o fato de que, no fundo, ele tinha razão sobre a minha vulnerabilidade.

— Eu vou olhar os papéis — disse, entredentes, mantendo o olhar fixo no dele. — Mas não por você. Pela memória do meu pai. E por mim.

— Pouco me importa o seu motivo — respondeu Ares, virando as costas e caminhando em direção à porta. — Desde que o resultado seja o mesmo.

Ele bateu duas vezes na madeira para que os guardas abrissem pelo lado de fora. Antes de cruzar o umbral, parou e olhou de relance para a bandeja sobre a mesa.

— Coma a comida. Não tenho paciência para lidar com uma prisioneira doente.

A porta se fechou com o baque seco de sempre, seguido pelo som da chave girando na fechadura.

Fiquei sozinha no quarto, o peito subindo e descendo com violência. Caminhei até a mesa, peguei o copo de água da bandeja e o joguei contra a parede oposta. O vidro se estilhaçou em dezenas de pedaços, refletindo a luz fraca do abajur.

Ares Voss podia ser o Rei da Máfia, podia ter homens armados e muros de pedra, mas ele não me dobraria. Se aqueles papéis do meu pai continham o segredo para destruir a paz daquela organização, eu usaria cada informação para garantir minha liberdade e dar o troco a Ares por cada segundo de humilhação que ele me fez passar.

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