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22. Risos cruéis

Author: mahribbs
last update publish date: 2026-08-07 01:21:10

— Que cena admirável — disse Teodoro de Valença, surgindo atrás deles com uma taça na mão e um sorriso tão polido que chegava a ser ofensivo. — Monteluz enfim voltou aos salões, e trouxe sua própria lenda pela mão.

Clara sentiu Gabriel enrijecer antes de vê-lo mudar de expressão.

Era uma alteração mínima, quase imperceptível para quem não tivesse aprendido a observar o modo como ele transformava qualquer desconforto em imobilidade. O braço oferecido a ela permaneceu firme, a postura continu
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  • Vendida à Fera de Monteluz   34. O homem sem máscara

    Gabriel não abandonou a máscara de uma vez. Clara percebeu isso antes de qualquer outra coisa. Não houve milagre na manhã seguinte, nem uma transformação limpa em que o conde de Monteluz atravessou os corredores com o rosto descoberto e permitiu que a casa inteira reaprendesse a vê-lo. Nada em Gabriel acontecia assim. O que nele parecia decisão, visto de fora, quase sempre era o resultado de uma guerra silenciosa travada por dias, meses, anos. Mas alguma coisa havia mudado. Na primeira manhã depois da noite em que ele deixara a máscara cair, Gabriel apareceu no jardim com ela no rosto, como sempre. As luvas também estavam em seu lugar. O casaco escuro. A gola alta. A postura tão exata que poderia ser confundida com indiferença por quem não soubesse onde procurar as falhas. Clara o viu junto ao muro norte, dando instruções a dois jardineiros sobre a fonte seca, e sentiu uma pontada de decepção que se recusou a nomear. Depois ele olhou para ela. Não foi um olhar longo, não foi

  • Vendida à Fera de Monteluz   33. O que cai com a máscara

    A máscara permaneceu no chão. Clara não sabia por quanto tempo olhou para ela, caída sobre o tapete como uma coisa morta. Antes, aquele objeto parecia fazer parte de Gabriel, uma extensão escura de sua pele, de sua história, de sua condenação. Agora, separado dele, parecia menor. Ainda pesado, ainda terrível pelo que representava, mas menor do que o homem parado diante dela. Gabriel continuava sem se mover. Era estranho vê-lo assim, exposto à luz da lamparina, sem a máscara e sem qualquer palavra que pudesse reorganizar a cena. As cicatrizes deformavam o lado esquerdo de seu rosto, puxavam a pele, alteravam a simetria, tornavam sua expressão mais difícil de ler e, ao mesmo tempo, mais impossível de ignorar. Clara não tentou transformá-las em beleza. Não tentou procurar uma forma poética para suavizar a violência do que via. O fogo havia deixado marcas reais. Cruéis. Permanentes. Mas ele estava ali. E isso, de algum modo, importava mais. Gabriel segurava a mão dela contra o

  • Vendida à Fera de Monteluz   32. O rosto da fera

    Gabriel não foi ao quarto de Clara na noite seguinte. Nem na outra. Na terceira, Clara deixou de fingir que não escutava os corredores. Sentou-se junto à janela com um livro aberto no colo, sem ler uma única linha, enquanto a casa apagava as próprias luzes ao redor dela. Monteluz tinha uma forma cruel de dormir: não descansava, apenas se recolhia para dentro de si mesma. Os passos dos criados desapareciam, as portas eram fechadas com cuidado, o relógio atrasado no corredor insistia em marcar uma hora que ninguém corrigia, e cada pequeno ruído parecia pertencer a alguém que talvez viesse, mas não vinha. Clara odiou esperar. Odiou mais ainda saber que esperava. Desde a discussão no jardim, repetia para si mesma que Gabriel tinha o direito de não retirar a máscara. Tinha, sim. A dor era dele, o rosto era dele. O tempo também deveria ser. Mas o direito dele não apagava a ferida dela. Porque, quando ele recuava, não parecia apenas preservar um limite, parecia condenar tudo que ha

  • Vendida à Fera de Monteluz   31. A segunda exigência

    Clara escolheu a tarde errada para pedir. Percebeu isso depois, quando já era tarde demais para retirar a frase do ar e devolvê-la ao lugar inseguro de onde viera. Mas, no momento, pareceu inevitável. Havia dias em que a ausência de Gabriel doía mais do que sua presença, e havia dias em que sua presença carregava uma ausência ainda pior. Ele estava ali no jardim, na biblioteca, no quarto dela à noite. Sentava-se perto, conversava no escuro, beijava-a com uma contenção que às vezes parecia cuidado e às vezes parecia castigo. Tocava sua nuca como se segurasse algo precioso e proibido. Dizia seu nome de um modo que ela continuava ouvindo muito depois que ele saía. E, ainda assim, metade dele permanecia inacessível. Não apenas o rosto. A máscara já não era um objeto, era uma fronteira. Uma lembrança visível de tudo que Gabriel permitia até certo ponto e depois arrancava de volta. Clara podia saber sobre Miguel em pedaços. Podia conhecer o jardim de lady Helena. Podia sentir os ded

  • Vendida à Fera de Monteluz   30. Conversas no escuro

    As visitas de Gabriel ao quarto de Clara tornaram-se frequentes antes que qualquer um dos dois admitisse que haviam se tornado. No começo, havia sempre uma desculpa. Ele vinha perguntar se os pesadelos tinham voltado. Ela dizia que não, mesmo quando a resposta não era tão simples, e ele aceitava a mentira parcial com a discrição de quem também vivia de verdades incompletas. Depois vinha trazer algum livro esquecido na biblioteca, uma anotação sobre as camélias, um aviso sobre Teodoro circulando pela vila, uma informação de Dona Beatriz a respeito de visitas que Clara não pretendia receber. Sempre havia um motivo pequeno, razoável, insuficiente. Depois de algum tempo, os motivos começaram a faltar. Gabriel ainda vinha, Clara ainda dizia entre. A porta ficava entreaberta quase sempre. Às vezes, quando a noite estava fria demais ou quando Inês já havia se recolhido, Clara permitia que ele a fechasse, mas nunca com a chave. Esse detalhe importava, ainda que nenhum dos dois

  • Vendida à Fera de Monteluz   29. Durante a noite

    Clara levou dias para chamá-lo. Não porque tivesse se arrependido. Essa descoberta, sozinha, já bastaria para mantê-la acordada mais de uma noite. O beijo na biblioteca não se desfizera com o silêncio de Gabriel, nem com a rotina cautelosa que veio depois. Ele continuava aparecendo no jardim, continuava deixando livros no banco de pedra, continuava perguntando sobre o sono dela sem transformar a pergunta em interrogatório. Clara continuava respondendo, continuava aceitando sua presença, continuava fingindo que não reparava quando os olhos dele demoravam um segundo a mais em sua boca antes de recuar. Nada avançava. Nada voltava ao lugar. Era uma forma particular de tortura. Gabriel parecia ter decidido que a conversa da porta destrancada bastava para ordenar o mundo: ela não se arrependera, ele não a tocaria por contrato, talvez um dia ela quisesse, talvez não. Tudo muito honesto, muito correto, muito impossível de suportar. Clara começou a perceber que a delicadeza dele, q

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