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Capítulo 3:

Penulis: Gio Aguiar
last update Tanggal publikasi: 2026-04-25 01:59:59

POV GUSTAVO:

Estou parado dentro do carro há tempo demais.

O motor ainda está ligado, o ponteiro do relógio no painel avança de forma irritantemente constante e, mesmo assim, eu não me movo. Meus olhos permanecem fixos no portão da casa da minha mãe, como se, a qualquer momento, ela fosse surgir do nada e tornar toda essa situação menos absurda.

Mas Jade não aparece.

E, quanto mais o tempo passa, mais evidente se torna que ela não virá.

Solto o ar lentamente, apoiando a cabeça no encosto do banco. Não era exatamente uma surpresa. Na verdade, a ausência dela é o desfecho mais lógico para tudo o que aconteceu naquela manhã. Ainda assim, existe uma parte de mim – uma parte inconveniente e insistente – que esperava que ela aparecesse.

Talvez por curiosidade.

Talvez por desespero.

Ou talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, algo saiu completamente do meu controle.

– Até quando você pretende ficar aí dentro?

A voz me arranca dos pensamentos com um leve sobressalto. Viro o rosto e encontro Guilherme encostado no carro, observando-me com um sorriso que mistura diversão e interesse genuíno.

– Boa noite para você também – respondo, abrindo a porta e saindo.

Ele solta uma risada baixa, cruzando os braços.

– Boa noite, irmão. Agora responde: o que você está esperando?

Passo a mão pelo rosto, cansado.

– Como se você não soubesse.

O olhar dele muda de imediato. Não surpreso – apenas mais atento.

– Ela não vem?

Hesito por um segundo mínimo, mas o suficiente para que ele perceba.

– Não sei – minto, desviando o olhar para o portão. – Ela não atende minhas ligações.

Guilherme inclina levemente a cabeça, analisando a situação com a calma irritante de quem observa de fora.

– Não me parece o tipo de coisa que você deixaria em aberto.

Ele está certo.

Eu não deixaria.

Nunca deixei.

Mas hoje foi diferente.

– Ela deve estar assustada – ele continua, dando de ombros. – Mamãe as vezes tem esse efeito nas pessoas.

Solto um leve sorriso, sem humor.

– “Às vezes” é uma forma gentil de dizer.

Ficamos em silêncio por alguns segundos, e eu sei que, se continuar ali, vou acabar fazendo algo impulsivo. Algo que não combina comigo.

– Vamos entrar – digo por fim.

A casa está exatamente como sempre: impecável, silenciosa, imponente. Cada detalhe no lugar certo, cada objeto escolhido com precisão. Um ambiente que transmite poder antes mesmo de qualquer palavra ser dita.

Minha mãe surge quase imediatamente, como se já estivesse à espera.

– Querido – ela diz, me abraçando com elegância contida. – Onde está Jade?

Direto ao ponto.

Como sempre.

– Ela não vem – respondo, mantendo o tom neutro. – Não está se sentindo bem.

Os olhos dela se fixam nos meus com atenção redobrada. Ela não acredita facilmente em respostas simples, e nós dois sabemos disso.

– Será mesmo?

– Sim, mamãe.

Não acrescento nada. Não explico.

E isso, por si só, já diz muito.

Ela me observa por mais um instante, avaliando, cruzando informações, buscando inconsistências. É o que ela faz de melhor.

Antes que possa insistir, meu pai entra na sala, quebrando a tensão.

– Então não conheceremos minha futura nora hoje? – diz, com um leve tom de humor, me envolvendo em um abraço firme.

– Ao que tudo indica, não.

– Uma pena.

Mas o olhar dele também é curioso. Interessado. Nada passa despercebido nessa casa.

– Vamos jantar – Guilherme intervém, com naturalidade, conduzindo todos para a mesa.

Lanço um olhar rápido para ele, em silencioso agradecimento.

O jantar segue dentro do esperado: conversas calculadas, comentários sutis, perguntas que parecem casuais, mas que claramente não são. Minha mãe volta ao assunto algumas vezes, sempre por caminhos diferentes, tentando obter mais do que eu estou disposto a dar.

Eu respondo o suficiente.

Mas não tudo.

E isso me incomoda mais do que deveria.

Assim que o jantar termina, não me demoro. Despeço-me com a formalidade habitual e saio antes que novas perguntas surjam. O ar do lado de fora parece mais leve, embora eu saiba que isso é apenas uma ilusão momentânea.

Dirijo sem destino por alguns minutos antes de seguir para casa.

E, ainda assim, ela não sai da minha cabeça.

Na manhã seguinte, acordo antes do despertador.

Isso, por si só, já é um sinal de que algo não está em ordem.

Minha rotina costuma ser precisa, previsível. Cada horário definido, cada compromisso alinhado. Mas hoje há uma inquietação que não consigo ignorar.

Durante o trajeto até o trabalho, faço um desvio.

Não penso muito a respeito.

Apenas faço.

Quando percebo, já estou parado no semáforo em frente à cafeteria.

O sinal está vermelho.

E é então que eu a vejo.

Jade.

Ela surge na calçada, caminhando rápido, os passos apressados como se estivesse atrasada. O cabelo preso de forma simples, algumas mechas soltas ao redor do rosto, o uniforme que eu já reconheço... tudo exatamente como no dia anterior.

Exceto por um detalhe.

Ela está saindo de um prédio ao lado.

Um daqueles hotéis de fachada discreta, com entrada estreita e janelas fechadas demais para um lugar que deveria receber hóspedes comuns.

Eu conheço aquele tipo de lugar.

Todo mundo conhece.

Minha primeira reação é imediata.

Meu olhar se fixa nela enquanto ela se afasta do prédio e segue em direção à cafeteria, que fica a poucos metros dali. O movimento é rápido, quase automático, como se fosse parte de uma rotina que ela já conhece bem.

Desvio os olhos por um instante, encarando o relógio no painel.

Oito e vinte.

A cafeteria abre às sete e meia.

Ela deveria estar lá.

Uma série de conclusões se forma na minha mente com rapidez demais. Nenhuma delas realmente fundamentada. Todas convenientes.

E, ainda assim, algo não encaixa.

Se fosse tão simples assim... ela teria aceitado minha proposta. Teria sido muito mais fácil. Muito mais lucrativo. Sem riscos aparentes. Sem exposição. Sem... sexo.

Aperto o volante com mais força do que o necessário.

Você está sendo precipitado.

A constatação surge clara, incômoda.

Eu não a conheço.

Não sei absolutamente nada sobre ela além do que vi – e do que presumi. E, ainda assim, minha mente já construiu uma narrativa inteira.

Exalo o ar lentamente, forçando-me a recuar.

Analisar.

Pensar.

Há algo ali.

Algo que não é tão óbvio quanto parece.

E é exatamente isso que me incomoda.

Pego o celular no console central e deslizo o dedo pela tela até encontrar o contato. A ligação é atendida no segundo toque.

– Sim, senhor Miller.

– Thomas – digo, mantendo o tom firme. – Preciso que investigue alguém para mim.

Há uma breve pausa do outro lado da linha.

– Claro, senhor. Alguma prioridade específica?

Olho novamente para a cafeteria, para a porta por onde ela entrou segundos atrás.

– Todas.

Desligo sem acrescentar mais nada. Mas, pela primeira vez em muito tempo, não é apenas uma questão de negócios. E isso, por si só, já é um problema.

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