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Capítulo 4:

Penulis: Gio Aguiar
last update Tanggal publikasi: 2026-04-25 02:01:04

POV JADE:

Assim que entro no café, o contraste me atinge de imediato. O calor familiar do ambiente, o cheiro de café recém passado e o som constante das xícaras sendo manuseadas criam uma sensação de normalidade que quase me faz esquecer, por alguns segundos, de tudo o que aconteceu desde a noite anterior. Dani não perde tempo; assim que me vê, atravessa o salão e me guia com delicadeza, mas sem dar espaço para fuga, até a sala dos funcionários. O olhar dela está atento demais para que eu tente fingir que está tudo bem.

– O que aconteceu com você?

Fecho a porta atrás de nós e apoio a mochila na cadeira antes de responder. Não quero entrar em detalhes – não porque não confie nela, mas porque dizer em voz alta torna tudo mais real do que eu gostaria.

– Ontem, quando cheguei, Sérgio estava em casa – começo, mantendo a voz controlada. – Ele não estava... apagado como de costume. Eu fiquei com medo e decidi dormir fora. Foi só isso.

Dani me observa por alguns segundos, como se estivesse tentando enxergar além daquilo que estou dizendo, como se soubesse que “só isso” nunca é realmente só isso quando se trata dele.

– Você precisa sair daquele lugar, Jade – ela insiste, aproximando-se um pouco mais. – Por favor. Você pode ficar comigo.

A proposta vem com sinceridade, com preocupação real – e exatamente por isso pesa ainda mais. Por um instante, a imagem surge: a casa dela, segura, acolhedora, distante daquele inferno. Mas logo depois vêm as ameaças. A voz dele. O jeito como ele disse que faria qualquer coisa para me encontrar.

– De jeito nenhum, Dani – respondo, mais firme do que me sinto. – Faltam seis meses. Só seis meses para eu terminar a faculdade. Depois disso, eu vou embora.

Ela franze levemente a testa, como se quisesse acreditar, mas não soubesse se pode.

– Para onde?

Dou de ombros, desviando o olhar.

– Eu não sei. Para o mais longe possível.

O silêncio que se segue não é de concordância – é de resignação. Ela sabe que não vai me convencer agora, assim como eu sei que ela não vai desistir.

– Tudo bem – ela diz por fim, suspirando. – Mas me promete uma coisa? Se ele fizer qualquer coisa... qualquer coisa mesmo... você me conta?

Olho para ela, de verdade dessa vez, e assinto.

– Prometo.

Ela me puxa para um abraço apertado, daqueles que dizem mais do que qualquer palavra. Por um segundo, eu permito me apoiar nisso. Só por um segundo.

Depois, volto ao trabalho.

O dia passa mais rápido do que deveria, ou talvez eu só esteja ocupada demais tentando não pensar. Entre pedidos, bandejas e conversas mecânicas com clientes, consigo empurrar para o fundo da mente tudo o que não consigo resolver. É quase o fim do expediente quando finalmente tenho um momento para mim e sigo até a sala dos funcionários, puxando o celular do bolso com uma ansiedade que eu vinha tentando ignorar.

O resultado das provas.

Minha respiração desacelera por um instante enquanto abro o grupo da faculdade, procurando qualquer atualização. Não há nada ainda, e isso me deixa mais inquieta do que deveria.

– Ei.

A voz da Dani surge atrás de mim, me fazendo erguer o olhar.

– Está tudo bem?

– Está sim – respondo, mostrando a tela do celular. – Só estou esperando liberarem as notas.

Ela sorri levemente, mas antes que diga qualquer coisa, a porta se abre novamente e Emily entra, claramente mais agitada do que o normal.

– Meninas... tem um homem lá fora exigindo ser atendido pela Jade.

Sinto meu corpo reagir antes mesmo de perguntar.

– Quem?

– O senhor Miller.

O nome paira no ar por um segundo, pesado demais.

Dani me olha imediatamente.

– Você quer que eu vá?

Penso por um instante. Parte de mim quer dizer sim, quer evitar esse confronto, quer fingir que nada disso existe. Mas eu sei que não vai desaparecer sozinho.

– Tudo bem... eu vou.

Guardo o celular, ajeito a roupa e caminho até o salão, já me preparando para manter a distância que deveria ter existido desde o começo.

Ele está sentado como sempre, postura impecável, como se nada estivesse fora do lugar. Como se não tivesse virado minha vida de cabeça para baixo em menos de vinte e quatro horas.

– Boa noite – digo, mantendo o tom profissional. – O que o senhor deseja hoje?

– Uma xícara de café. Sem açúcar.

Anoto automaticamente.

– Algo mais?

Ele me encara por um segundo a mais do que o necessário.

– Sim.

Há algo no olhar dele que me deixa em alerta.

– Pode falar.

– Você.

A palavra me atinge com força suficiente para quebrar qualquer tentativa de normalidade.

– Como é?

Ele não se move, não sorri como alguém que está brincando.

– Preciso que venha comigo, Jade.

O tom é leve, mas a intenção não é.

– Acontece, senhor Miller, que eu não estou no menu – respondo, já me virando. – Com licença.

– Você não tem escolha.

Paro.

Lentamente.

Viro-me de volta, sentindo a irritação subir.

– Quem você pensa que é para falar isso?

Ele inclina levemente a cabeça, como se estivesse genuinamente surpreso com a minha reação.

– Seu noivo. Esqueceu?

O sarcasmo me irrita ainda mais.

– Você só pode estar louco.

Dou as costas novamente, decidida a encerrar aquilo.

– Eu sei sobre o seu padrasto.

O mundo para.

Sinto um frio percorrer minha espinha, lento e cortante, enquanto viro o rosto de volta para ele, desta vez sem conseguir disfarçar.

– O quê?

– Foi por isso que você dormiu em um motel ontem?

Olho ao redor imediatamente, verificando se alguém ouviu. O simples fato de aquela palavra sair da boca dele em voz alta já é suficiente para me fazer querer desaparecer.

– Como você sabe disso? – minha voz sai mais baixa, mas carregada.

– Eu investiguei.

Por um segundo, não consigo responder.

– Você o quê?

Minha reação sai mais alta do que deveria, mas não consigo evitar. Ele, no entanto, permanece calmo.

– Eu posso te oferecer uma vida melhor.

– Eu não preciso de dinheiro.

– Eu não estou falando de dinheiro.

Há uma pausa breve.

– Estou falando de segurança.

A palavra pesa de um jeito diferente agora.

– Você não entende – respondo, tentando manter alguma barreira entre nós.

– Então me explica.

Abro a boca.

Fecho.

Porque não dá.

Não é algo que eu possa simplesmente colocar em palavras para alguém como ele.

– Eu... não posso.

– Aqui está seu café, senhor Miller.

A voz da Dani surge no momento exato, como um respiro que eu nem sabia que precisava. Ela coloca a xícara na mesa com um sorriso educado, mas firme.

– Não quero ser indelicada, mas estamos prestes a fechar.

Ele a encara por um segundo, avaliando, e então apenas sorri.

– Sem problemas.

– Vá se trocar, Jade – Dani diz, olhando para mim de forma significativa.

Assinto.

– Obrigada.

Saio dali antes que ele diga mais alguma coisa, sentindo o peso do olhar dele me acompanhar até desaparecer.

No vestiário, enquanto troco de roupa, minha mente não para. A forma como ele disse aquilo, a facilidade com que descobriu coisas que eu escondi por anos... tudo isso deveria me assustar mais do que assusta. Mas, no fundo, o que mais me incomoda é outra coisa.

Por que eu?

Ele poderia ter escolhido qualquer pessoa. Alguém do mundo dele. Alguém que não fosse... eu.

Abro novamente o site da faculdade, mais por necessidade de me distrair do que por esperança real, e então vejo.

Aprovada.

Em todas.

Inclusive na prova de ontem.

Um alívio imediato percorre meu corpo, quase físico. Por um instante, todo o resto perde força.

– Já dispensei o senhor Miller e fechei a loja – Dani diz ao entrar. – Emily também foi embora.

– Obrigada.

– Vai para a faculdade?

Balanço a cabeça.

– Não hoje. Já saíram as notas. Passei em tudo.

O sorriso dela se abre de verdade dessa vez.

– Que maravilha! Eu sabia!

Ela me abraça com força, e eu sorrio pela primeira vez no dia sem esforço.

– Obrigada.

– Vamos?

– Vamos.

Saímos pelos fundos, conversando baixo, quando o vejo. Encostado no carro. Braços cruzados.

Esperando.

Meu estômago aperta imediatamente.

– Ele não desiste – Dani murmura. – Quer ajuda?

Respiro fundo.

– Está tudo bem. Pode ir.

Ela hesita.

– Você vai ficar bem?

– Vou.

Não sei se é verdade. Mas digo mesmo assim.

Ela concorda, ainda relutante, e segue para o carro. Eu espero até vê-la sair antes de me aproximar.

– Você não desiste? – pergunto.

Ele ergue a cabeça e me encara com uma calma que me irrita.

– Não.

Cruzo os braços, criando uma barreira que sei que não funciona de verdade.

– Eu não posso me casar com você.

– Por quê?

A pergunta vem simples demais para algo tão complicado.

– Porque a minha vida é... complicada.

Ele dá um pequeno passo à frente.

– Eu já disse. Posso te oferecer proteção.

Respiro fundo, pensando em tudo o que isso envolveria. Em Dani. Nas ameaças. Em tudo que pode dar errado.

– Não é só isso.

– Então me diz o que é.

Desvio o olhar por um segundo.

– É melhor você não se envolver.

Ele me observa em silêncio, como se estivesse medindo o quanto está disposto a insistir.

– Tudo bem – diz por fim. – Mas me deixa pelo menos te levar em casa.

– Senhor Mi...

– Eu prometo que não falo mais disso se você aceitar a carona.

Hesito.

Não deveria.

Mas estou cansada demais para discutir mais.

– Tudo bem.

Ele abre a porta para mim, e eu entro, sentindo o peso daquela decisão simples demais para o que ela pode significar. Durante o trajeto, ele me pede o endereço, e eu digito algumas ruas antes da minha casa, por precaução. Não confio o suficiente para mais do que isso.

– Chegamos.

– Obrigada pela carona.

– Esse é meu cartão – ele diz, me entregando. – Caso mude de ideia.

Seguro o papel por um segundo antes de responder.

– Boa noite.

– Boa noite, Jade.

Saio do carro e o vejo partir, desaparecendo na esquina. Só então começo a caminhar, completando o trajeto até em casa sozinha.

Quando entro, o silêncio me envolve imediatamente.

Sérgio não está ali e eu respiro aliviada.

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