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Fantasmas

Penulis: Stela
last update Tanggal publikasi: 2026-09-04 20:26:48

O som daquela voz no saguão me fez paralisar por um segundo antes de eu me virar. Lionel estava ali, parado perto da portaria, com o mesmo terno impecável e o olhar cortante que eu lembrava de nossas raras videochamadas nos últimos anos. Ele me mediu de cima a baixo, avaliando o vestido preto, os scarpins e a minha postura erguida.

​— Amélie — disse ele, dando alguns passos em minha direção, sem demonstrar qualquer calor ou saudade genuína. — Sabia que você apareceria por aqui mais cedo ou mais tarde. Vejo que não perdeu tempo em vir direto para o apartamento da nossa mãe.

​O elevador chegou com um suave sinal sonoro, mas eu mantive o botão de "abrir portas" pressionado, encarando meu irmão.

​— O apartamento está no meu nome, Lionel — respondi com a voz firme, sem abaixar a guarda. — Acredito que eu não precise pedir permissão para entrar na minha própria casa.

​Lionel soltou um riso irônico, cruzando os braços.

​— Você acha que é dona de tudo só porque a mamãe te mimava, Amélie? A vovó já deixou claro que as regras do jogo mudaram. E pelo visto você já teve o prazer de conhecer o Augusto. Sabe que aquele casamento arranjado não vai durar um mês, não é? Amanda não vai deixar barato, e eu tampouco vou ficar assistindo você levar a herança da nossa família de bandeja.

​Antes que eu pudesse responder à altura, a porta do elevador começou a se fechar lentamente. Soltei o botão, entrei sem hesitar e encarei Lionel através do vão que se estreitava.

​— Guarda suas advertências para o jantar de boas-vindas, Lionel, Aliás avise pare mudarem para amanhã — falei, mantendo a calma enquanto as portas se fechavam diante de seu rosto furioso. — Vamos precisar de muito mais do que ameaças para resolver isso.

​Assim que cheguei ao último andar, a imensidão da cobertura me envolveu. O silêncio era pesado, cortado apenas pelo eco dos meus passos no piso de madeira. Caminhei até a imensa janela de vidro que dava para o horizonte de São Paulo, agora iluminado pelo sol forte do meio-dia. O cansaço da viagem finalmente despencava sobre os meus ombros, misturado à adrenalina do encontro com Augusto e o confronto com Lionel.

​Joguei a bolsa sobre o sofá e fechei os olhos por um instante, respirando fundo. Eu havia passado doze anos me preparando mentalmente para este retorno, mas a realidade estava se mostrando muito mais agressiva do que eu imaginava. Eles achavam que encontrariam uma garota indefesa, moldada pela simplicidade e pelo afastamento da alta sociedade. Mal sabiam eles que a distância só havia me dado a casca grossa necessária para jogar o jogo deles — e vencer.

​O meu celular vibrou na mesa de centro, quebrando o silêncio. Era uma mensagem de um número desconhecido, mas a assinatura no final dispensava apresentações: “O contrato está pronto. Meu assistente enviará os termos em breve. Espero que esteja pronta para o circo da sua avó nesse jantar. — A.”

​Dei um sorriso de canto de boca, joguei o aparelho de volta no sofá e caminhei em direção ao corredor para tomar um longo banho. O tabuleiro estava montado, as peças já se moviam, e eu não pretendia ser apenas a espectadora da minha própria história.

O apartamento parecia sufocante com as novas molduras espalhadas pelas paredes, como se estivessem apagando o passado a cada centímetro. Ao sair do banho, Amélie secou o cabelo distraidamente com a toalha e parou diante do espelho do corredor, encarando os próprios traços. Aquele reflexo — a boca carnuda, o formato redondo do rosto, os olhos escuros, uma delicadeza única — era uma herança viva que incomodava a madrasta todos os dias. O oposto de Amanda sua filha, que exibia uma estampa nórdica e fios de cabelos claros, ter sob o mesmo teto uma garota que escancarava a imagem da primeira esposa devia ser uma tortura silenciosa. Foi exatamente por isso que, três meses após o enterro, a porta se fechou para ela e se abriu para a passagem de ida aos Estados Unidos.

​Ela respirou fundo, pegando o aparelho para resolver o que ainda estava ao seu alcance. A ligação para a recepção do prédio foi seca, exigindo que o passado voltasse para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Mas o alívio de recolocar as coisas nos trilhos durou pouco tempo, logo interrompido pela mensagem insistente de Celina na tela do celular: "Às 20h esteja arrumada".

​Amélie deu um suspiro cansado, esfregando os olhos ardidos pelo fuso horário e pela exaustão da viagem. Não havia margem para negociação com a amiga de infância.

— Olá, Celina! Cheguei hoje de manhã, mas a correria foi tanta que só agora consegui respirar. A vovó já inventou um encontro forçado com o Augusto Martinelli... Mal pus os pés de volta e a vontade é pegar o primeiro voo de novo, kkkk.

​— Amélie! Não acredito que você finalmente voltou! Passei o dia inteiro na expectativa de ver sua mensagem. Nem ouse recusar: às 20h passo para te pegar, temos uma festa e uma montanha de coisas para colocar em dia.

​— Amiga, sério, eu estou destruída pelo fuso. Recusei até o jantar da vovó, imagine encarrar uma festa agora. Deixa para amanhã, por favor.

​— Às 20h esteja pronta.

​Olho para a tela e solto um suspiro pesado, percebendo que discutir com Celina era perda de tempo. O relógio na mesinha de cabeceira marcava dezessete horas, e o corpo pesava como chumbo. Ajustei o alarme para as 19h e, antes de me render ao sono que implorava, disquei o número da avó com o coração apertado.

​— Olá, vovó. Acabei de chegar e... — (Antes que eu pudesse terminar, a voz dela explodiu no alto-falante, atropelando minhas palavras:)

​— Meu Deus, Amélie, que saudades! Desde o dia em que te mandamos para a casa da Marie, eu contava cada segundo para o seu retorno. Os dias aqui foram intermináveis sem você, mas era insuportável vê-la no meio de tanta falta de respeito com a memória da sua mãe. Eu engoli muita coisa por você, só não podia deixar você definhar aqui. Sobre o seu casamento com o Augusto... eu sei que é um peso, mas precisamos conversar cara a cara sobre isso. Um jantar hoje às 20h, o que me diz, querida?

​— Vovó, me perdoe, mas eu estou fisicamente esgotada e não tenho cabeça para ver ninguém hoje. Prometo que amanhã conversamos. Inclusive, combinei de ver a Celina logo mais à noite, e como a senhora sabe, são duas horas e meia de estrada até aí. Se não se importar, chego por volta das 15h amanhã, pode ser?

​— Está bem, minha neta, compreendo. Vou mandar prepararem o seu quarto; quero você hospedada aqui comigo durante esses dias.

​— Tá bom, vovó, obrigada por tudo. Preciso fechar os olhos um pouco, nos vemos amanhã.

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