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Celina

작가: Stela
last update 게시일: 2026-09-04 21:39:30

A vibração abafada do alarme cortou o silêncio do quarto. Estiquei o braço tateando o criado-mudo até encontrar o celular, desligando o toque insistente. O cansaço colava meus olhos, um peso físico acumulado da viagem. Fiquei deitada por mais alguns minutos fitando o teto de gesso trabalhado, desejando apenas afundar no travesseiro, mas a noite exigia presença.

​Levantei-me arrastando os pés até o banheiro. Deixei a água morna cair sobre os ombros, tentando lavar a exaustão, embora soubesse que nenhum banho seria capaz de apagar o nó de ansiedade no meu estômago. Na penteadeira, encarei meu reflexo sob a luz fria do espelho. O plano original era uma produção elaborada, mas a preguiça venceu.

​— Quer saber? Um delineado firme e batom vermelho resolvem qualquer coisa — murmurei para mim mesma, prendendo o cabelo em um rabo de cavalo alto e polido.

​Enquanto aplicava o batom, meus dedos deslizaram pelo tecido do vestido preto da Versace estendido na arara. Foi um presente da tia Marie, cuja elegância nata a fazia parecer fora de lugar na nossa família — a parentela que os círculos tradicionais da capital insistia em rotular como caipiras , ignorando o peso do sobrenome.

​O interfone tocou na portaria, cortando o fluxo dos meus pensamentos.

​— Liberada a subida da senhorita Celina — avisei no aparelho, antes de borrifar o perfume e puxar a bolsa de couro macio.

​Celina invadiu o apartamento com a energia de quem não conhecia o significado de dias difíceis, os saltos batendo ritmicamente no piso de madeira.

​— Amélie, pelo amor de Deus, você ainda está retocando o batom? — perguntou, jogando a bolsa sobre o sofá.

​— Quase pronta, falta só o sapato — respondi, fechando o zíper da nécessaire.

​Antes que eu pudesse abrir o armário, Celina já havia localizado a sandália Versace de tiras prateadas que eu havia deixado separada.

​— Toma, Amélie, não tem erro: clássico, preto e prata. Vai combinar perfeitamente com o vestido.

​— Combinado. Vamos? — Peguei alguns anéis de prata para arrematar o visual e seguimos para o elevador.

​O trajeto até o evento foi feito no banco traseiro do sedã executivo de Celina, o motorista deslizando silenciosamente pelo tráfego da noite. Enquanto eu ajustava os anéis nos dedos, Celina virou-se no banco, os olhos brilhando de curiosidade.

​— Afinal, como é que foi aquele jantar arranjado pela sua avó?

​Soltei um suspiro pesado, encostando a cabeça no vidro frio do carro.

​— Um desastre completo. Fizeram questão de me apagar de tudo, me transformaram em uma bastarda interesseira que apareceu só para tumultuar. Mas eu não quero estragar a noite falando disso. Me conta, como estão as coisas na faculdade?

​— Eu tô amando cada segundo! Embora minha mãe faça um escândalo toda vez que abro o caderno — Celina desabafou, gesticulando com as mãos. — Ela quer que eu case com algum herdeiro engomado igual à minha irmã. Segundo ela, mulheres da nossa classe não escolhem carreira; nossa única função é assinar contratos de casamento e ostentar um sobrenome limpo.

​— Eu entendo perfeitamente o drama — respondi, fitando o reflexo das luzes da cidade passando rápido lá fora. — É como se nascêssemos com uma dívida impagável atrelada ao registro de nascimento. O pior é que tem gente disputando a ferro e fogo para ocupar meu lugar, sem fazer ideia do peso real dessa coroa de espinhos. Se dependesse exclusivamente de mim, eu pegava o primeiro voo de volta para os Estados Unidos e deixava tudo para a Amanda administrar sozinha. Só que eu não posso.

​— Por que não, Amélie?

​— Porque a holding da minha mãe está afundando em dívidas. Eu quero honrar o legado dela através da gestão técnica, reestruturar o plano de negócios e salvar a empresa do buraco.

​— Mas você tem direito legal à herança, não precisa se curvar a ninguém para isso.

​— Não tenho, essa é a tragédia. As ações originais ficaram divididas meio a meio entre minha avó e meu pai. Meu pai repassou 25% para a Amanda e 25% para o Endrick. Os outros 50% da minha avó iriam integralmente para o Lionel. Para mim, restaram apenas o apartamento, um fundo de investimentos menor e a promessa de partilha dos bens residuais. Eu preciso exatamente dos 25% dos 50% que estão nas mãos da minha avó, e nós duas sabemos muito bem qual é a condição absurda que ela impôs para fazer a divisão entre eu e Lionel .

​— É burocracia demais para o meu cérebro processar a essa hora da noite — Celina riu levemente, endireitando-se no banco ao ver o carro desacelerar. — Olha só, chegamos. Hora do show.

​O veículo parou diante da fachada imponente do clube privativo, onde dezenas de fotógrafos e curiosos se aglomeravam atrás das grades de contensão. Abri a porta e respirei fundo, preparando a postura antes de colocar o primeiro pé na calçada.

​No segundo exato em que atravessei o perímetro da entrada, meus olhos bateram no veículo estacionado na vaga exclusiva: um esportivo no tom de azul inconfundível.

​— Celina... o Augusto está aqui. Eu reconheçeria seu carro em qualquer lugar — sussurrei, travando o passo.

​— A festa é gigantesca, Amélie. O clube tem três andares, não vamos nos esbarrar em lugar nenhum, relaxa. Nós vamos direto para a área VIP — argumentou ela, laçando seu braço no meu e me puxando para dentro do saguão.

​O contraste de luzes e o grave pesado das caixas de som nos atingiu com força. Conforme avançávamos pelo salão principal, o burburinho ao redor parecia diminuir por frações de segundo. Os olhares se voltavam para mim, carregados de um misto de surpresa e julgamento silencioso. A sensação de ser uma intrusa indesejada pesava nos meus ombros como chumbo.

​Caminhamos diretamente até o bar reservado e pedimos duas taças de espumante. O álcool leve, porém, parecia pouco para anestesiar o nó na garganta; pedi rapidamente uma dose pura de uísque para queimar o nervosismo inicial.

​Poucos minutos depois, um grupo de conhecidos de Celina se aproximou. Um deles disparou:

​— Olha só quem é viva e decide dar as caras por aqui! — disparou, com um sorriso debochado que alcançava os olhos. — Sua presença tem dado o que falar, Amanda está furiosa com a sua audácia. Você nem imagina o quanto tem incomodado.

​Forcei um sorriso gélido, erguendo o queixo.

​— Estou no meu próprio território, não devo satisfação a ninguém.

​— Se eu fosse você, baixaria a bola e tomaria muito cuidado com os próximos passos — ameaçou ele, cruzando os braços com desdém.

​Encarei-o fixamente, sem desviar o olhar por um segundo sequer.

​— Eu não tenho medo de blefes.

​Deixei a taça sobre o balcão e virei as costas, sentindo o sangue pulsar quente nas têmporas. Celina se desvencilhou rapidamente do grupo e veio atrás de mim.

​— Amélie, calma. Não dá ouvido a esses imbecis; eles só repetem o que mandam porque não passam de fantoches sem relevância.

​— Tudo bem, Celina. — Uma lágrima teimosa escapou, traçando um caminho rápido pela minha bochecha antes que eu pudesse enxugar. — Eu realmente não pertenço a este lugar. Eu cresci longe dessa hipocrisia. Voltei apenas para resgatar o legado da minha mãe, mas a cada dia que passa percebo que a estrutura inteira está podre por dentro. Talvez não valha o esforço...

​— Não fala besteira, Amélie! — Celina segurou meus ombros, firme. — Você não está usurpando o lugar de ninguém; você está exatamente onde deveria estar por direito de sangue. Aquele império foi construído pela única pessoa que você amou nesta família, e ela estaria decepcionada se visse você desistindo assim.

​Enquanto caminhávamos em meio à multidão sufocante — pessoas vestidas com grifes milionárias que se espremiam para conseguir a atenção de executivos influentes —, a atmosfera sufocante me acendeu um alerta.

​— Celina, vamos embora agora. Se mais alguém me reconhecer e começar um escândalo, eu não vou ter o controle emocional necessário para aguentar — sussurrei, virando-me para achar a saída lateral.

​Foi tarde demais.

​Uma voz amplificada pelo eco do salão cortou o barulho da música, atraindo de imediato dezenas de olhares curiosos.

​— Ora, ora... vejam só quem resolveu aparecer para tentar se enturmar! — Rony surgiu bloqueando nosso caminho, rindo alto. — O que foi, Amélie? Esqueceu que bastardas não têm livre-trânsito por aqui?

​Dei um passo à frente, erguendo o braço esquerdo para exibir a pulseira prateada que brilhava sob a luz negra.

​— Caso você não saiba ler ou tenha problemas de visão, eu estou na área VIP. A segurança não tem ordens para me retirar daqui.

​— Pulseira nenhuma compra classe, Amélie — sibilou ele, perdendo o tom de zombaria e avançando com o rosto contraído de raiva.

​Antes que eu pudesse recuar, Rony desferiu um empurrão violento no meu ombro. Perdi o equilíbrio e caí pesadamente sobre o piso de mármore polido. Ele deu dois passos rápidos, agachou-se na minha frente e cravou os dedos no meu queixo com força, forçando-me a encará-lo.

​— Uma bastarda continua sendo uma desgraçada, com ou sem pulseira de mentira. Se você tivesse ficado onde estava, ninguém teria dado a mínima para a sua ausência.

​O gosto metálico de sangue brotou no canto da minha boca devido à força que apertava meu rosto, mas mantive o olhar fixo e cortante nos olhos dele, sem demonstrar pânico.

​— Com toda a certeza eu não faria falta para parasitas como você — respondi com voz firme, sibilada entre os dentes —, mas continuo incomodando exatamente porque represento tudo o que vocês nunca conseguirão comprar.

​— O que está acontecendo aqui, Rony? — A voz firme e conhecida cortou o ar, fazendo o círculo de Curiosos abrir espaço instantaneamente.

​Rony soltou meu rosto sobressaltado e virou-se para encarar Augusto, que atravessava o corredor com o maxilar trancado em uma expressão severa.

​— Nada demais, Augusto. Só estava lembrando a nossa querida Amélie qual é o verdadeiro tamanho dela neste salão — justificou-se Rony, tentando recuperar a pose de superioridade.

​Levantei-me do chão com a ajuda discreta de Celina, ajeitei o tecido do vestido e parei erguida bem diante dos dois.

​— Se o espetáculo de mau gosto já encerrou, agradeço o carinho das palavras — falei, com o veneno escorrendo em cada sílaba. — Eu não voltei para disputar migalhas com ninguém, mas se a sua patroa quer guerra, ela vai ter.

​Puxei Celina pelo braço, disposta a desaparecer dali, quando passos apressados ecoaram atrás de nós.

​— Amélie, espera! Por favor, venha tomar um drinque comigo, vamos conversar a sós — pediu Augusto, estendendo a mão num gesto de apelo.

​— Não, muito obrigada, dispenso a companhia — respondi friamente, virando as costas.

​— Amélie, por favor, não seja infantil — insistiu ele, dando mais um passo.

​— Deixa ela para lá, Augusto! — Rony interveio, puxando o braço do herdeiro. — Essa aí só quer chamar atenção. A Amanda já está chegando com o restante do grupo, não vamos perder tempo com essa bastarda.

​Augusto ignorou o comentário de Rony, fixando os olhos em mim com uma urgência silenciosa.

​— Por favor, Amélie...

​— Chega. Eu não quero causar mais nenhum tipo de circo — falei, com a exaustão finalmente vencendo a adrenalina.

​Virei-me em definitivo, puxando Celina através do mar de corpos até avistar a sinalização da saída de emergência lateral. Antes que eu pudesse alcançar a porta pesada, senti uma mão firme fechar-se ao redor do meu pulso.

​— Por aqui, o caminho é mais rápido e reservado — disse Augusto, que havia nos seguido em passos largos.

​Ele abriu a porta corta-fogo que dava acesso ao corredor privativo dos fundos, o mesmo utilizado apenas pelos proprietários e convidados de honra para evitar o assédio da imprensa.

​Assim que pisamos na calçada fresca da madrugada, o vento frio bateu no meu rosto, trazendo o alívio imediato do ar puro. Voltei-me para ele, com a vergonha ainda queimando minhas bochechas e a mente atordoada pelos acontecimentos da noite.

​— Obrigada pela saída, Augusto. Já posso seguir com a Celina.

​— Eu faço questão de te levar em segurança para casa. Espere só um minuto, vou pedir para os seguranças buscarem meus pertences na sala VIP e fecharem meu camarote.

​Olhei para Celina, buscando apoio visual, mas ela evitou o contato por um segundo antes de murmurar:

​— Quer saber? Eu realmente preciso ir para casa, mas você pode esperar o Augusto te dar uma carona segura.

​Encarei Augusto diretamente, percebendo a hesitação e o pedido mudo em seus olhos.

​— Tudo bem... Eu espero você aqui fora — concordei baixinho, abaixando o olhar para o asfalto enquanto o barulho abafado da festa continuava lá dentro.

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