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11 - Isabella

Penulis: J.F. Natividade
last update Tanggal publikasi: 2026-04-05 11:00:13

Ainda estava com os olhos fechados, eu tremia. Pelo menos achava que tremia. Tinha sonhado com uma esquina, o vento frio na bochecha machucada, o homem enorme de terno preto, o SUV escuro, a trava clicando…  

Meu coração batia forte. O medo subia pela garganta. Eu não queria abrir os olhos.  Porque, se abrisse, talvez descobrisse que não tinha sido sonho nenhum.

Eu já tinha perdido completamente a noção de tempo. Podiam ter sido vinte minutos ou duas horas. Eu queria estar no meu quarto, mas meu coração me traia. 

A última coisa que me lembro, a sala com todos os móveis pretos. Então eu abri os olhos e meu coração errou uma batida. 

Os sofás de couro escuro ocupavam o centro da sala, largos e pesados. Uma mesa baixa de vidro fumê refletia a iluminação branca do teto. As paredes eram cinzas, lisas, limpas. Não havia quadros, nem prateleiras, nem qualquer objeto que denunciasse personalidade. 

Uma única janela visível. Era enorme, mas não se abria para o mundo lá fora. Nenhuma abertura para o exterior.

Apenas uma luminária de chão alta em um canto agora acessa. O ambiente parecia mais uma caixa elegante do que uma sala de estar.

Pensei em fugir. Pensei em gritar. Pensei em bater na porta. O silêncio daquele lugar parecia devorar tudo. Meus pensamentos começaram a girar lentamente, repetindo as mesmas perguntas sem resposta.

“Por que ele me trouxe aqui? O que ele queria? O que aconteceria agora?”

Nenhuma resposta vinha. Mas bastou levantar o rosto. 

Ele estava lá. Sentado no sofá de frente para mim. As pernas abertas, postura relaxada demais para alguém que irradia tanta tensão e raiva. Um copo de uísque descansava em sua mão. Ele estava sem blusa.

Eu me sentei devagar. O corpo protestou imediatamente. As costas estavam rígidas. O pescoço travado. As pernas formigam depois de tanto tempo na mesma posição. Pisquei várias vezes, tentando ajustar a visão.

O torso forte e musculoso era coberto por tatuagens que subiam pelos braços, atravessavam o peito e desapareciam pelo pescoço. Algumas tinham traços brutos, linhas grossas e agressivas. Caveiras. Serpentes. Punhais. Letras em fontes antigas, quase góticas, e símbolos que eu não reconhecia. 

Uma correntinha fina de ouro pendia no pescoço. A calça de moletom cinza estava baixa na cintura. A borda da cueca preta aparecia discretamente. Ele parecia confortável. Relativamente relaxado.

Mas o rosto… O rosto estava fechado. A mandíbula travada. Os olhos escuros fixos em mim sem piscar.

Não parecia feliz. Parecia perigoso. Pior que isso. Parecia furioso. Uma raiva silenciosa parecia vibrar no ar ao redor dele.

Analisei tudo devagar, com medo de qualquer movimento brusco. Medo de falar. Medo de respirar alto demais. Medo de fazer qualquer coisa que pudesse provocar aquela tensão visível.

Foi ele quem quebrou o silêncio.

— Por que você fugiu? — A voz saiu baixa. Controlada. Quase calma. Mas a tensão estava lá, enrolada nas palavras como uma corda prestes a romper.

— Eu… — comecei. A voz saiu rouca, arranhada pelo choro e pelo sono.

— Você não pode fugir de mim, Isabella. — Ele inclinou a cabeça levemente. — E não vai.

A ameaça era calma. Não precisava de gritos. Não precisava de t***s. Era apenas o tom. O jeito como os dedos apertavam o copo com força suficiente para fazer o vidro ranger.

Meu pai fazia estardalhaço. Quebrava coisas. Berrava. Alessandro era o oposto. Calmo. Controlado. E isso me aterrorizava mais. Porque com o meu pai eu sempre soube o que esperar. Com ele… Não.

Respirei devagar, tentando manter algum controle sobre o meu próprio corpo. Abri a boca para tentar explicar qualquer coisa. Mas ele me interrompeu.

— Agora você pertence a mim.

As palavras caíram no ar como pedras. Pesadas. Definitivas. Meu estômago se contraiu. Instintivamente, virei o rosto, olhando ao redor. E percebi. A sala não estava mais vazia.

Homens de terno preto estavam encostados nas paredes. Sombras silenciosas espalhadas pelo ambiente. Seguranças.

Quando voltei o olhar para Alessandro, algo tinha mudado. Ele estava mais furioso, o maxilar travado com mais força. Os olhos escurecidos, quase negros de raiva.

Não entendi imediatamente. Até que me lembrei do hematoma. A bochecha ainda estava inchada. A marca roxa que o tapa do meu pai havia deixado.

Alessandro viu. Num piscar de olhos, ele se levantou como um furacão. O copo de uísque foi abandonado no ar. E em um estalo caiu no chão.

Ele atravessou a sala em dois passos largos. Agarrou o segurança pela gola do terno e o ergueu contra a parede. Punho fechado.

O primeiro soco foi no estômago. Surdo e violento. Depois veio no rosto. O som seco do impacto ecoou na sala. O homem grunhiu, dobrando-se com o golpe, mas não revidou. Sangue começou a escorrer do nariz.

— PARA! — gritei.

O som saiu desesperado. Rouco.

Eu me levantei cambaleando, as pernas ainda fracas.

Era quase impossível, mas consegui segurar o ombro de Alessandro. Os músculos dele estavam duros como aço sob a pele tatuada.

— Não foi ele! — gritei, a voz tremendo. — Não foi ele quem me bateu!

Alessandro parou. O punho ainda erguido. Os nós dos dedos já vermelhos de sangue alheio.

Ele virou o rosto devagar para mim. O olhar ainda assassino. O peito subia e descia com respirações pesadas. 

O segurança escorregou pela parede, tossindo, machucado, mas vivo. Com um aceno rápido, dois outros homens o retiraram de cena.

Soltei o ombro de Alessandro como se tivesse me queimado. Fiquei parada. 

Olhei para a mão dele. Os nós dos dedos inchados. Manchados. Pingando sangue. Depois para o rosto dele.

A fúria ainda estava lá, crua, viva. Ele ainda queria matar alguém. Ele iria matar alguém. Quem era ele?

Eu recuei um passo. Não queria morrer. Pelo menos não hoje. E percebi, com um frio que subiu lentamente pela espinha, que tinha acabado de salvar a vida de um homem.

Assim, eu esperava.

O foco agora estava totalmente em mim. E eu me sentia como uma ratinha encurralada por um gato.

— Quem foi?

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