Compartir

4 - Isabella

last update Fecha de publicación: 2026-03-24 01:11:02

Desci as escadas com um vestido tubinho marrom que ia até o joelho, o que ele tanto gostava e um salto baixo da mesma cor. Carlos (ou meu pai) já estava na garagem, com o motor ligado, esperando. 

Entrei sem dizer nada e o carro saiu da entrada de casa fazendo o barulhinho no cascalho.  Eu amava esse barulho, já que significava duas coisas: ou eu estava saindo de casa, ou teria um dia tranquilo em casa.

Tentei não pensar muito no celular dentro da minha bolsa. No perfil. Nas DMs. No leilão que continuava crescendo. Pensar demais deixa as pessoas ansiosas. E ansiedade leva a erros. E eu não podia cometer erros.

O carro parou no sinal vermelho. E meu companheiro de viagem resolveu lembrar da minha presença e guardou o telefone no bolso interno do paletó. A mão dele agarrou meu braço com força, os dedos apertando acima do cotovelo. Meu corpo ficou imóvel. Não por medo. Por instinto.

— Antes de entrarmos na empresa — disse ele, voz baixa e cortante — vamos relembrar as regras. Todas elas.

Assenti, olhos baixos. O gesto correto. O suficiente para satisfazer o pequeno teatro de autoridade que ele gostava de encenar.

— Não fale com ninguém além do segurança que vai te acompanhar e de mim. Ninguém. Se alguém tentar conversar, você ignora. Entendeu?

— Sim, senhor.

— Faça os trabalhos que eu repassar. Sem reclamar, sem perguntar por quê. Entregue no prazo. Se errar, corrija na hora. Sem desculpas.

— Sim, senhor.

— Não coma nada que os outros te derem. Só o que eu autorizar. Entendeu?

— Sim, senhor.

— Se precisar sair da sala para ir ao banheiro, água, qualquer coisa, avise. O segurança te acompanha. Você não anda sozinha pelos corredores.

— Sim, senhor.

— Nunca me chame de pai ou Carlos. Sempre senhor Fernandes. Se esquecer, vai se arrepender.

— Sim, senhor Fernandes.

Ele apertou mais forte meu braço. A dor subiu até o ombro. Não reagi. Ele me queria como uma boneca, teria sua boneca. Dor também era útil, às vezes. Ajudava a lembrar exatamente com quem eu estava lidando.

— Se quebrar qualquer uma dessas regras, você sabe o que acontece. Sua mãe também quebrava regras. Sabe o que aconteceu com ela.

A lembrança do sonho apareceu na minha mente por um segundo. Apesar de não reconhecer ela como a minha mãe. Ela era a sua boneca perfeita e a usava para me ameaçar por sumir com ela quando era criança. 

Eu não respondi. Ele soltou meu braço. O sinal abriu e o carro voltou a acelerar como se nada ali tivesse acontecido. 

Quando chegamos à Fer Cosmetics olhei para o prédio de vidro espelhado, a empresa ainda estava crescendo, tínhamos só alguns andares. Mas Carlos se comportava como se comandasse um império. 

“E nada daquilo seria meu. Seria daquele que se casasse comigo.” Como ele sempre ficava satisfeito em reforçar. 

O segurança da portaria abriu passagem assim que o viu. Alto, uniforme preto, rosto neutro. Carlos apontou para mim como quem entrega um objeto. Subimos de elevador e fomos para uma sala de reuniões ampla, mesa de mogno no centro, paredes de vidro fumê. Ele indicou uma cadeira lateral.

Ele jamais me levaria até a sua sala, não era digna, era mulher. 

— Aqui. O laptop está pronto. Trabalhos na pasta “Isabella”. Faça. Sem distração.

Sentei sem falar nada. Bonecas não falam. 

Abri o laptop. Estava cheio de planilhas, relatórios de vendas e propostas de novas coleções.

“Seria eu quem faria o trabalho dele hoje.” 

Pensei enquanto fechava os olhos para revirar sem que ele visse. Carlos sentou na cabeceira da mesa e entrou em outra ligação. 

Comecei a trabalhar um tanto distraída. De vez em quando, meus olhos iam para a bolsa no chão. O celular estava lá dentro no silencioso. Mas eu sabia que continuava recebendo mensagens. Sabia que o leilão estava se movendo mesmo enquanto eu estava sentada ali, aparentemente obediente.

Carlos acreditava que controlava tudo. Eu tinha que dar esse gostinho a ele. Depois de algum tempo um tanto impaciente, levantei.

— Preciso ir ao banheiro, senhor Fernandes.

Ele não olhou para mim.

— Vai. Mas que o segurança acompanhe.

O homem me seguiu pelo corredor. A bolsa no meu ombro parecia pesar mais do que devia. O banheiro feminino estava vazio, e agradeci por isso. 

Assim que peguei o celular a tela acendeu com uma explosão de notificações. 

112 novas mensagens. 

O homem que tinha oferecido 20 milhões tinha aumentado a oferta.

“22 milhões agora e você cancela esse leilão.”

Vinte e dois milhões. Respirei devagar um pouco engasgada. A minha mão tremia. Era desproporcional. Muito mais do que pensava. 

“Mantenha a calma. O leilão mal começou. Mas acho que posso aliviar um pouco para você hoje.”

Coloquei o RG sobre a pia e tirei uma foto. Minha mão cobria parte dele, deixando partes de informações incompletas. O insuficiente para provar que era real. 

Tirei uma segunda foto no espelho do banheiro. Nada provocativo, apenas com o rosto escondido atrás do celular. Guardei o celular na bolsa e fingi estar lavando as mãos. Quando saí, o segurança ainda estava esperando. 

Assim que me sentei, Carlos falou sem levantar os olhos:

— Demorou demais. Se fizer de novo, vai ficar sem almoço.

Baixei a cabeça e voltei ao laptop. Por um momento, me permiti pensar que eu gostaria de ter um trabalho. Criar os cosméticos deveria ser divertido. Mas logo em seguida descartei o pensamento.

Não era o tipo de futuro que eu estava planejando. Seria a esposa troféu de quem me comprasse. Carlos saiu da sala em algum momento sem avisar. Esperei um pouco. E quando me dei conta de que ele não voltaria pedi um delivery.

Ousei um pouco mais e pedi comida japonesa. Eu queria comer um desses havia semanas. A vantagem é que seria uma comida rápida.

Fui ao banheiro sempre com aquela sombra atrás. Aproveitei para mandar uma foto bônus para o maior licitante e lavar a boca. Quando voltei, Carlos estava em pé de frente para o computador vendo o que havia feito. 

— Bom trabalho até agora, querida. Mas lembre: sua mãe também era organizada. 

Olhei para a tela do laptop para evitar expressar qualquer coisa. Era sempre um tom de ameaça. Algumas pessoas merecem ódio. E ele era uma delas.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • Virgindade Vendida ao Mafioso    133 - Alessandro

    Ainda estávamos a uma distância considerável da parede de pedras quando o susto veio.A plantação, que de longe parecia apenas um campo de cultivo comum, se revelou muito mais densa e ocupada do que as imagens de satélite tinham mostrado. Homens e mulheres trabalhavam entre as fileiras altas, vestidos com roupas precárias, rasgadas e sujas, que mal protegiam do sol já crescente. Chapéus velhos, camisas esfarrapadas, calças remendadas.Nenhum deles parecia se importar com nossa presença, ou, pelo menos, fingiam não perceber. Continuavam curvados sobre a terra, as mãos calejadas mexendo na plantação, o olhar baixo.Até que um deles se assustou.Um dos meus homens passou perto demais. O trabalhador ergueu a cabeça de repente, os olhos arregalados. Abriu a boca… e parou. Não gritou. Não falou. Apenas abriu. A boca estava quase toda preta. E não havia língua.

  • Virgindade Vendida ao Mafioso    132 - Isabella

    Eu entrei no carro e bati a porta com mais força do que deveria. A revolta queimava no peito como se fosse fogo vivo.Eu amava aquele homem mas odiava ficar para trás. Odiava a sensação de inutilidade enquanto Alessandro e os homens entravam na plantação em direção ao nosso filho.Eu queria estar andando ao lado dele, sentindo o orvalho nas botas, escalando aquelas pedras, entrando na casa. Queria ser a primeira a segurar o bebê. Queria proteger, lutar, fazer alguma coisa além de esperar.Mesmo que eu pudesse correr e seguir atrás deles, eu sabia que a cabeça de Enzo estaria a preço. Alessandro não perdoaria. Nem se tudo desse certo no final. Ele cobraria. E Enzo, por mais leal que fosse, não merecia pagar por minha teimosia.Então eu fiquei. Revoltada.Com as mãos fechadas com tanta força que as unhas marcavam as palmas.

  • Virgindade Vendida ao Mafioso    131 - Alessandro

    Estávamos parados na beira de uma estrada secundária, a uma distância segura da propriedade. Eu estava confiando inteiramente e cegamente no plano de Marco.O terreno se dividia de forma estranha: de um lado a plantação rural, densa e úmida e do outro, a casa propriamente dita. Não era exatamente um muro o que separava os dois espaços, mas um terreno elevado, coberto de pedras irregulares, que obrigaria qualquer um a escalar com cuidado se quisesse entrar de forma sorrateira.Era o tipo de obstáculo que forçava lentidão e silêncio absoluto.Qualquer passo em falso, qualquer pedra solta, poderia alertar quem estivesse do outro lado.Diferente de outras operações, desta vez estávamos fazendo tudo durante o dia. Quer dizer, o sol começava a se levantar no horizonte, pinta

  • Virgindade Vendida ao Mafioso    130 - Alessandro

    Quatro horas se passaram, e foram voando. Minha percepção de tempo tinha ido para o brejo em meio à ansiedade de recuperar o nosso filho, de conhecê-lo de verdade e finalmente tê-lo nos braços.Cada minuto parecia uma eternidade e, ao mesmo tempo, desaparecia sem eu perceber.Todos nós estávamos nos preparando a cada segundo que passava. Eu desmontava, limpava e deixava pronto cada arma que tinha disponível dentro de casa. A maioria delas estava exatamente no mesmo lugar em que eu guardava, mas Isabella tinha adquirido um pequeno gosto em esconder algumas daquelas que eu acabava me esquecendo de guardar depois de dormir com ela. Ela com certeza achava que eu não sabia. E até mesmo essas eu estava limpando.Eu fingia não saber desse pequeno segredinho dela. Assim que Enzo voltasse com as informações, nós

  • Virgindade Vendida ao Mafioso    129 - Alessandro

    A porta da sala de estar se abriu com um estrondo.Enzo entrou quase correndo,o rostoestavavermelho, a respiração curtapor estar claramente correndo, segurando um maço grosso de fotos impressas nas mãos. Ele não disse uma palavra de cumprimento. Apenas caminhou direto até a mesa de centro e começou a espalhar as imagens sobre a madeira, uma após a outra, com movimentos rápidos e precisos.— Olhem isso — falou, a voz carregada de urgência. — Agora.Eu me levantei do so

  • Virgindade Vendida ao Mafioso    128 - Alessandro

    Três dias se passaram desde a reunião. Três dias de tensão, sono interrompido e uma raiva constante que eu mal conseguia conter.Eu só me controlava por Isabella.Eu estava na sala novamente, andando de um lado para o outro, quando Enzo entrou com o laptop debaixo do braço e uma expressão que misturava cansaço e esperança.— Consegui uma localizaçãoexata— disse ele, sem rodeios.Todos se endireitaram. Isabella, ao meu lado, apertou minha coxa por baixo da mesa. Marco e Lucca parar

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status