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Capítulo 5

Author: Clara Monteiro
Ouvi Felipe tentar se explicar, com a culpa evidente na voz:

— Renata, não me entenda mal. Não te contei porque sei que você tem medo de água. Não foi porque eu quisesse te deixar de fora. Afinal, todos nós vamos estudar na Universidade de Nova Esperança. Quando chegarem as férias, vou com você para onde quiser. Podemos até viajar sem a Carolina.

Ergui os olhos para Felipe. Seus olhos brilhavam, como se ele já estivesse ansioso pelo futuro que acabara de descrever.

As palavras que eu vinha guardando havia tanto tempo finalmente escaparam:

— Felipe, eu não vou estudar na...

— Felipe, você viu as fotos que tiramos na cabine? Será que deixamos com o segurança quando mostramos para ele...?

A voz de Carolina me interrompeu.

Antes que eu pudesse pegar as fotos da cabine na bolsa para entregá-las a ela, Carolina já havia puxado Felipe pelo braço e saído às pressas com ele.

Pouco depois, Felipe me mandou duas mensagens pelo WhatsApp:

[A Carolina me chamou para tirar aquelas fotos na cabine enquanto eu esperava por você. Depois podemos tirar outras, só nós dois.]

[Já está muito tarde. Pedi um carro para você. Esta é a placa. Me avise quando entrar.]

Depois de muito hesitar, entreguei as fotos da cabine a Guilherme e pedi que ele as entregasse a Felipe.

Em seguida, bloqueei Felipe. No táxi, a caminho de casa, comprei uma passagem para Serra da Lua.

No primeiro ano do ensino médio, Felipe e eu havíamos combinado que, se conseguíssemos entrar nas universidades dos nossos sonhos, aproveitaríamos as férias para escalar uma montanha.

Ele havia se esquecido, mas eu não. Se ele não ia cumprir nossa promessa, eu a cumpriria sozinha.

Achei que conseguiria lidar com tudo aquilo sem maiores problemas. Mas, enquanto arrumava a mala, meus olhos encontraram o chaveirinho de coelho que Felipe havia me dado, pendurado nela, e as lágrimas começaram a escorrer sem que eu conseguisse contê-las.

Felipe havia me dado aquele chaveirinho no primeiro ano do ensino fundamental.

Nas férias daquele ano, nossas famílias viajaram juntas para a praia. Enquanto corria atrás das ondas, Felipe caiu no mar, e não havia nenhum adulto por perto.

Tentei salvá-lo, mas acabei sofrendo uma lesão cerebral por falta de oxigênio. Os médicos lutaram durante três dias para salvar minha vida, até que finalmente consegui sobreviver.

No entanto, o médico alertou que, dali em diante, meu desenvolvimento seria um pouco mais lento que o das outras crianças. Na época, nem eu nem Felipe entendíamos o que significava aquele "mais lento".

Na nossa inocência, achávamos que aquilo só significava que eu passaria a andar mais devagar. Então, Felipe segurou minha mão e disse:

— Renata, não precisa ter medo. Se você andar mais devagar, eu espero por você.

E não se podia dizer que Felipe não havia cumprido sua palavra. Ele me esperou durante anos, desde o primeiro ano do ensino fundamental até o primeiro ano do ensino médio.

No dia em que começamos o ensino médio, cheguei à escola antes dele pela primeira vez. Felipe apareceu cinco minutos atrasado, com Carolina sentada no banco de trás.

Ele explicou que havia encontrado Carolina no caminho, depois que ela perdeu o ônibus. Como os dois estudavam na mesma escola, resolveu lhe dar uma carona.

A partir daquele dia, ele nunca mais me esperou. Passei a ser eu quem precisava se esforçar para acompanhá-lo.

Mesmo depois de ter caído no mar, Felipe continuava apaixonado pelo oceano. Por isso, apesar de todo o medo que sentia, me obriguei a aprender a nadar.

Mas, quando eu estava prestes a me afogar, ele foi embora com Carolina. Foi naquele dia que decidi que nunca mais correria atrás dele.

Passei a noite em claro. Quando saí de casa na manhã seguinte, encontrei Felipe me esperando à porta.

Ele estava com os olhos avermelhados e falou em um tom magoado:

— Renata, você me bloqueou. Ontem à noite, comprei uma passagem para Porto das Brisas especialmente para você. Pensei que, mesmo tendo medo de água, você poderia aproveitar muitas outras coisas legais por lá.

Por um instante, fiquei sem saber o que dizer. Resignada, levantei o celular e mostrei a ele uma captura de tela da minha passagem.

O rosto de Felipe se contraiu. Ele devia ter se lembrado da promessa que havíamos feito um ao outro.

Depois de hesitar por um longo momento, cerrou os dentes e disse:

— Eu vou com você. Me desbloqueia. Nós nos encontramos na estação daqui a pouco. — Sem esperar minha resposta, ele saiu apressado.

Talvez tenha sido a determinação estampada em seu rosto que me convenceu.

Mais uma vez, acreditei nele. Desbloqueei Felipe e esperei por ele durante uma hora e meia na entrada da área de inspeção de segurança.

Mas, em vez de Felipe, o que apareceu foi uma publicação de Carolina no Instagram. Nela, vi os dois embarcando juntos em um avião com destino a Porto das Brisas.

Naquele instante, desapareceu de vez o último resquício de apego que eu ainda sentia por Felipe.

Dei meia-volta e segui para o portão de embarque. Dali em diante, eu escalaria minhas montanhas, enquanto ele ficaria com seu mar.

...

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