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capítulo 2

Autor: Loba azul
last update Fecha de publicación: 2026-08-06 05:15:43

Capítulo 2: A Chegada da Caipira

A luz do sol que entrava pelas cortinas do meu quarto parecia uma afronta. Com uma ressaca incipiente martelando nas minhas têmporas, desci as escadas da mansão a passos lentos, vestindo apenas uma calça moletom cinza e com o cabelo desgrenhado. Minha intenção era pegar um xícara de café preto bem forte e ignorar o mundo até o meio-dia.

Pisei no último degrau e parei.

A mala de rodinhas surrada e puída no canto do hall de entrada parecia um peixe fora d'água entre as esculturas de mármore e os móveis assinados. Ao lado dela, de costas para mim, estava a nova moradora.

— Mel, querida, você precisa experimentar esse suco de laranja — ouvi a voz da minha mãe, Ana, vindo da sala de jantar. — A viagem deve ter sido exaustiva.

— Estava tudo ótimo, tia Ana, muito obrigada — respondeu uma voz suave, limpa, sem qualquer vestígio do barulho urbano a que eu estava acostumado.

Quando ela se virou para pegar a bolsa sobre a mesa, nossos olhos se cruzaram.

Por meio segundo, o sarcasmo automático na minha mente deu uma vacilada.

Ela era bonita. Bonita demais, para ser honesto. Não o tipo de beleza fabricada que eu via toda noite nas boates da elite, com maquiagem pesada e roupas de marca. Ela tinha lábios desenhados, uma pele impecável e olhos expressivos que pareciam ver através de mim. Os cabelos caíam em ondas simples pelos ombros, e o vestido florido modesto acentuava curvas que ela claramente não fazia questão de ostentar.

Uma caipira linda, pensei, recuperando o controle da minha postura em menos de um piscar de olhos. Uma pena que continue sendo só uma caipira.

Caminhei em direção à mesa com as mãos nos bolsos, fazendo questão de arrastar o olhar por ela de cima a baixo com o deboche mais frio que consegui formular.

— Então essa é a garota do interior? — soltei, com a voz rouca de sono e carregada de ironia. — Achei que viria acompanhada de um berrante.

Minha mãe disparou um olhar que poderia perfurar concreto.

— Vinícius! Tenha modos. Essa é a Mel, sua prima.

Mel não encolheu os ombros. Não baixou a cabeça. Em vez disso, ela sustentou meu olhar. Havia uma calma irritante no rosto dela, um orgulho velado que me pegou de surpresa.

— Prazer, Vinícius — ela disse, mantendo a voz firme e um sorriso educado, mas totalmente frio. — E não se preocupe, deixei o berrante na mala. Não achei que a elite da TI precisasse de mais barulho do que o seu mau humor de manhã.

Soltei uma risada seca, encarando-a com os olhos semicerrados.

— Espirituosa. Gostei — me aproximei da mesa, servindo-me de café sem tirar os olhos dela. — Só um aviso amigável, prima: a capital não é o seu vilarejo. As pessoas aqui não têm paciência para ingenuidade. Não cruze o meu caminho, não mexa nas minhas coisas e, principalmente, não ache que morar sob o mesmo teto faz de nós amigos.

— Vinícius Albuquerque, chega! — minha mãe alterou o tom, batendo a xícara na mesa.

Mas Mel nem piscou. Ela deu um passo à frente, olhando no fundo dos meus olhos.

— Não se preocupe, Vinícius. Eu vim para a capital para estudar e construir o meu futuro, não para procurar amigos. Muito menos do seu tipo.

Aquele olhar desafiador me irritou mais do que devia. A garota era um espetáculo visual, sem dúvida. Tinha uma beleza que atrairia olhares em qualquer lugar que pisasse. Mas a audácia dela de não se curvar à minha presença me deu uma certeza: a convivência naquela casa seria um inferno.

E eu faria questão de garantir que ela pedisse para voltar para a roça antes do fim do semestre.

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