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CAPÍTULO 4

작가: Ouverney
last update 게시일: 2026-10-01 23:15:20

Kiraz não respondeu à mensagem de Dante.

Mas passou o resto da noite pensando nela.

Não porque sentisse vontade de voltar.

Pelo menos era isso que repetia para si mesma.

O problema era que algumas pessoas não desapareciam da nossa cabeça simplesmente porque decidíamos tirá-las da nossa vida.

Dante havia ocupado espaço demais.

Durante anos.

Ela conhecia o silêncio dele.

Conhecia os olhares que significavam desaprovação.

Conhecia o jeito como ele dizia seu nome quando queria que ela reconsiderasse alguma coisa.

E, principalmente, conhecia a maneira como ele fazia parecer que todas as escolhas eram dela.

Quando, na verdade, quase sempre já havia decidido o que considerava certo.

No começo, Kiraz havia confundido aquilo com maturidade.

Dante era diferente dos homens que conhecia.

Enquanto ela falava demais, ele falava pouco.

Enquanto ela demonstrava, ele observava.

Enquanto ela queria saber o que ele sentia, ele parecia considerar sentimentos uma coisa que deveria ser compreendida sem precisar ser explicada.

Kiraz achava fascinante.

Ela se apaixonou primeiro.

Muito antes de Dante admitir que havia alguma coisa entre eles.

Foi ela quem começou as conversas.

Quem mandava mensagens.

Quem inventava desculpas para encontrá-lo.

Quem aparecia nos eventos onde sabia que ele estaria.

Quem insistia quando ele respondia apenas horas depois.

Naquela época, ela achava que estava conquistando um homem difícil.

Não percebeu que estava aprendendo a correr atrás de alguém que nunca havia decidido correr atrás dela.

— Você vai ao jantar hoje? — perguntou Kiraz certa vez.

Dante continuou lendo um documento.

— Provavelmente.

— Provavelmente não é resposta.

— É a resposta que tenho.

— Então eu vou.

Ele levantou os olhos.

— Por quê?

— Porque quero ficar com você.

Dante voltou ao documento.

— Faça o que quiser.

Kiraz sorriu.

Na época, aquilo parecia liberdade.

Anos depois, ela entenderia que aquela frase tinha sido repetida tantas vezes que se transformara em uma maneira silenciosa de fazê-la escolher exatamente aquilo que ele esperava.

Se ela queria sair, ele dizia:

— Faça o que quiser.

Se ela queria conversar:

— Se isso é importante para você, podemos conversar.

Se ela queria que ele assumisse o relacionamento:

— Não gosto de colocar rótulos nas coisas antes de ter certeza.

E Kiraz esperava.

Sempre esperava.

Porque acreditava que, se fosse paciente o suficiente, Dante finalmente faria aquilo que ela queria.

Assumiria.

Escolheria.

Demonstraria.

Certa noite, depois de quase dois anos juntos, Kiraz finalmente perdeu a paciência.

Estavam em um restaurante reservado, longe dos fotógrafos e dos conhecidos das duas famílias.

Ela havia esperado o jantar inteiro.

Quando terminaram a sobremesa, colocou os talheres sobre o prato.

— Dante, eu quero saber o que nós somos.

Ele ergueu os olhos.

— Você sabe.

— Não. Eu sei o que sinto. Estou perguntando o que você decidiu que nós somos.

Dante ficou alguns segundos em silêncio.

— Por que isso importa tanto?

Kiraz riu sem humor.

— Porque eu estou cansada de ser apresentada como “uma amiga” quando você sabe perfeitamente que não somos amigos.

— Eu nunca disse que você era apenas uma amiga.

— Também nunca disse que sou sua namorada.

Ele recostou-se na cadeira.

— Você quer mesmo transformar isso em uma discussão?

— Não quero discutir. Quero uma resposta.

— E se eu disser que ainda não é o momento?

Kiraz ficou em silêncio.

— Então você espera que eu continue esperando?

— Eu não pedi que você esperasse.

Ela sentiu a velha irritação.

— É exatamente isso que você faz, Dante.

— O quê?

— Nunca pede nada. Nunca diz para eu ficar. Nunca diz para eu ir embora. Você simplesmente coloca a decisão na minha frente e espera que eu escolha aquilo que você já considera certo.

Ele a observou com uma calma que a deixou ainda mais irritada.

— E você sempre escolhe.

Kiraz sentiu o golpe.

— Porque eu amo você.

Dante não respondeu.

Ela esperou.

Talvez fosse aquele o momento.

Talvez finalmente dissesse alguma coisa.

Qualquer coisa.

Ele apenas pegou a taça.

— Então não vejo por que estamos discutindo.

Foi assim que Dante funcionava.

Ele nunca precisava dizer “não”.

Bastava não dizer “sim”.

E Kiraz, apaixonada, fazia o resto.

Anos depois, ela ainda conseguia lembrar de todas as vezes em que havia tentado transformar aquela relação em alguma coisa concreta.

— Você vai comigo ao aniversário da minha mãe?

— Tenho uma reunião.

— Pode remarcar?

— Não.

— Então eu vou sozinha?

— Se quiser.

— Você não quer ir?

Dante olhava para ela.

— Não disse isso.

— Então o que você está dizendo?

— Estou dizendo que você pode decidir.

E ela decidia.

Quase sempre de acordo com o que ele queria.

Se cancelava um compromisso para acompanhá-lo, ele nunca agradecia.

Se insistia para que ele fosse com ela, ele aparecia como se estivesse fazendo um favor.

Se reclamava, ele dizia:

— Você sabia como eu era.

E Kiraz aceitava.

Porque acreditava que amar alguém significava aprender a lidar com seus defeitos.

Só não percebeu quando começou a chamar de defeito aquilo que, na verdade, era falta de reciprocidade.

Naquela noite, na mansão Albuquerque, Kiraz estava sentada no sofá da sala quando Vicente entrou.

Ela tinha um livro aberto no colo.

Mas não havia lido uma única página nos últimos vinte minutos.

— Você está lendo a mesma página há bastante tempo — comentou ele.

Kiraz fechou o livro.

— Eu estava pensando.

— Percebi.

— Em Dante.

Vicente parou.

Não demonstrou surpresa.

— Imagino.

Ela o encarou.

— Você não vai perguntar?

— Você acabou de me contar.

— Eu poderia estar esperando que você perguntasse.

— E eu poderia estar esperando que você percebesse que não precisa de uma pergunta para dizer o que quer.

Kiraz ficou alguns segundos em silêncio.

— Você faz isso de propósito.

— O quê?

— Me deixa falar.

— Você parece ter passado tempo demais ao lado de alguém que fazia você implorar para ser ouvida.

A frase atingiu um ponto que ela não esperava.

Kiraz baixou os olhos.

— Você não conhece meu relacionamento.

— Não.

— Então não fale como se conhecesse.

Vicente se aproximou, mas não sentou.

— Não preciso conhecer todos os detalhes para perceber quando alguém aprendeu a duvidar da própria vontade.

Ela levantou os olhos.

— Eu não duvido da minha vontade.

— Não?

— Não.

— Então por que você passou anos tentando descobrir o que Dante queria antes de decidir o que você queria?

Kiraz ficou imóvel.

Não havia ironia naquela pergunta.

Era justamente isso que a incomodava.

Vicente não estava provocando.

Estava observando.

— Você sempre foi assim? — ela perguntou.

— Assim como?

— Tão... direto.

— Você prefere que eu minta para ser gentil?

— Às vezes.

— Então não somos muito compatíveis.

Kiraz quase sorriu.

— Você está começando a perceber isso?

— Eu já sabia.

Ela levantou uma sobrancelha.

— E ainda assim se casou comigo.

Vicente sustentou o olhar dela.

— Algumas incompatibilidades são interessantes.

O coração dela bateu um pouco mais rápido.

Kiraz desviou os olhos.

— Dante dizia que eu complicava tudo.

— Talvez você apenas perguntasse demais.

— Ele dizia que eu precisava aprender a confiar.

Vicente ficou em silêncio por um instante.

— Confiar em alguém não significa deixar essa pessoa decidir por você.

Kiraz não respondeu.

Porque aquela frase encontrou um lugar dentro dela que ainda doía.

Ela se lembrou de uma noite específica.

A noite em que finalmente perguntou a Dante se ele pretendia casar com ela.

Estavam no apartamento dele.

Kiraz estava sentada no sofá, nervosa.

— Você pensa em casamento?

Dante tirou o relógio.

— Algum dia.

— Comigo?

Ele olhou para ela.

— Você gostaria que fosse comigo?

Ela quase riu.

— Você nunca responde diretamente.

— Porque você está perguntando como se eu tivesse obrigação de escolher uma resposta que agrade você.

— Eu só quero saber se existe um futuro para nós.

Dante caminhou até a janela.

— Existe, se você quiser.

Kiraz levantou-se.

— Se eu quiser?

— Sim.

— E você?

Ele virou-se.

— Eu estou aqui, não estou?

Na época, aquilo bastou.

Ela sorriu.

E ficou.

Mais uma vez.

Agora, lembrando daquela conversa, Kiraz percebeu algo que nunca havia conseguido enxergar.

Dante nunca tinha realmente escolhido ficar.

Ele apenas nunca a mandara embora.

E havia uma diferença enorme entre as duas coisas.

Kiraz fechou os olhos.

Quando os abriu, Vicente ainda estava ali.

— O que foi? — perguntou ele.

Ela respirou fundo.

— Acho que passei muito tempo tentando ser escolhida por alguém que nunca precisou decidir.

Vicente não respondeu imediatamente.

Apenas se sentou na poltrona diante dela.

— Talvez você não precise mais ser escolhida.

Kiraz olhou para ele.

— E o que eu faço agora?

Vicente inclinou-se ligeiramente para frente.

— Escolhe.

Ela ficou em silêncio.

Pela primeira vez, aquela palavra não parecia uma ordem.

Parecia uma possibilidade.

E, naquela noite, Kiraz começou a entender que talvez o preço daquele casamento não fosse aprender a viver com Vicente.

Talvez fosse descobrir quem ela era depois de passar tanto tempo tentando caber nas escolhas de outro homem.

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