로그인CAPÍTULO 5 — Um Marido Conveniente
Vicente Albuquerque não acreditava em coincidências. Acreditava em escolhas, consequências e, principalmente, naquilo que as pessoas faziam quando pensavam que ninguém estava observando. Às quinze horas e quinze minutos, ele consultou o relógio pela terceira vez. Dante Soares estava atrasado. A igreja permanecia iluminada pela luz dourada que atravessava os vitrais. Arranjos de rosas brancas decoravam o corredor central, e o perfume das flores se misturava ao aroma suave das velas. Algumas pessoas ainda conversavam em voz baixa, enquanto outras disfarçavam a impaciência olhando para a entrada. A noiva continuava esperando. Vicente observou Kiraz a alguns metros de distância. O vestido de renda acompanhava sua silhueta com delicadeza, e o véu repousava sobre os cabelos cuidadosamente arrumados. Ela mantinha as mãos unidas diante do corpo, os dedos apertando o buquê com força suficiente para amassar algumas pétalas. Ele conhecia aquela expressão. Não porque tivesse intimidade com Kiraz, mas porque a vira em eventos demais para não reconhecer suas mudanças. Antes, ela entrava nos ambientes como se o mundo fosse grande demais para conter tudo o que tinha a dizer. Ria alto, discordava sem receio e fazia perguntas que deixavam adultos importantes desconfortáveis. Não parecia preocupada em agradar a todos. Agora, mesmo diante de uma humilhação pública, tentava preservar a dignidade de quem a havia colocado naquela situação. Vicente desviou o olhar por um instante. Não gostava de observar algo que não podia corrigir. E gostava menos ainda de perceber que certas pessoas conseguiam destruir a confiança de alguém sem sequer levantar a voz. Seu telefone vibrou. — Descubra onde Dante está — ordenou ao assessor, afastando-se alguns passos da entrada lateral. — Não quero suposições. Quero saber onde ele está, com quem está e por que ainda não chegou. — Imediatamente, senhor. Vicente encerrou a ligação e guardou o aparelho. Não havia motivo para acreditar que Dante tivesse sofrido um acidente. O homem era cuidadoso demais com a própria agenda, calculista demais para ignorar um compromisso daquela dimensão sem alguma razão. A questão era descobrir qual. Os minutos seguintes se arrastaram. Convidados começaram a sair. Primeiro, discretamente; depois, sem se preocupar em esconder a decepção. Os murmúrios se espalharam pelos bancos, e a ausência do noivo deixou de ser um atraso para se transformar em um espetáculo constrangedor. Kiraz não chorou. Pelo menos, não diante de todos. Quando uma mulher se aproximou para oferecer ajuda, ela respondeu com um sorriso pequeno, agradeceu e voltou a olhar para a porta. Vicente conhecia aquele tipo de sorriso. Era o que as pessoas usavam quando já não tinham forças para explicar que estavam sofrendo. Seu telefone vibrou novamente. Dessa vez, era o assessor. — Encontramos o senhor Dante, senhor. Vicente caminhou até uma área mais reservada. — Onde? — Em uma reunião com investidores. O encontro começou há pouco mais de uma hora, em uma sala privada de um hotel. Segundo nossa fonte, ele está participando pessoalmente das negociações. Por alguns segundos, Vicente permaneceu em silêncio. — Confirme que é ele. — Já confirmamos. Também verificamos que a reunião estava prevista na agenda comercial da empresa. Vicente soltou uma respiração lenta, sem qualquer sinal de surpresa. Dante não estava preso no trânsito. Não havia surgido uma emergência. Não existia um imprevisto que justificasse o desaparecimento. Ele simplesmente escolhera estar em outro lugar. — Continue acompanhando a situação — determinou. — Não faça contato com ninguém e não deixe que percebam que estamos investigando. — Sim, senhor. A ligação terminou. Vicente olhou para a tela apagada do telefone. Uma reunião de negócios. Dante havia trocado o próprio casamento por uma mesa de negociações, investidores e números que poderiam esperar algumas horas. Talvez acreditasse que Kiraz compreenderia. Talvez tivesse certeza de que ela encontraria uma justificativa para ele, como tantas vezes fizera. Essa era a parte mais irritante. Dante não precisava pedir que Kiraz esperasse. Ele simplesmente agia como se a espera fosse uma obrigação dela. Vicente guardou o telefone e voltou a olhar para a igreja. Ao longo dos anos, vira os dois em jantares, recepções e eventos empresariais. Nunca parecera existir equilíbrio entre eles. Kiraz procurava Dante com os olhos, iniciava conversas, tentava arrancar dele alguma reação. Dante, por sua vez, oferecia o suficiente para mantê-la por perto, mas nunca tanto a ponto de precisar se comprometer de verdade. Vicente não sabia tudo o que acontecia entre quatro paredes. Não precisava saber. O resultado estava diante dele. A garota que costumava contestar qualquer coisa que considerasse injusta agora parecia preocupada em não incomodar nem mesmo as pessoas que a observavam com pena. Ela havia diminuído a própria voz para caber no silêncio de um homem. E, pelo que Vicente acabara de descobrir, nem isso tinha sido suficiente. Quando a igreja começou a esvaziar de verdade, Vicente permaneceu próximo à entrada lateral. Os familiares de Kiraz já haviam partido. Alguns convidados tentaram convencê-la a ir embora, mas ela agradeceu a preocupação e pediu alguns minutos. A equipe responsável pela cerimônia recolhia discretamente os últimos objetos, evitando olhar diretamente para a noiva. A música havia cessado. Sem os convidados, sem as conversas e sem o movimento dos fotógrafos, a igreja parecia grande demais. Kiraz estava sozinha diante do altar. Vicente observou quando ela retirou o véu da cabeça e o dobrou cuidadosamente sobre o braço. O gesto foi tão metódico que quase pareceu ensaiado. Ela não estava tentando salvar o casamento. Estava tentando salvar o que restava de si mesma. Ele conhecia a reputação de Dante. Conhecia também a própria rivalidade entre as famílias, os negócios que disputavam e os ambientes em que os dois homens precisavam medir cada palavra. Não era ingenuidade pensar que Dante pudesse ser frio. O que Vicente nunca compreendera era como alguém tão inteligente conseguia confundir a certeza de ser amado com o direito de não fazer esforço algum. Talvez porque, para Dante, Kiraz sempre tivesse sido uma escolha garantida. E escolhas garantidas raramente recebiam o cuidado reservado àquilo que se teme perder. Vicente ajustou os punhos da camisa. Poderia ir embora. Não tinha obrigação de permanecer naquela igreja, muito menos de interferir em um assunto que dizia respeito a duas pessoas com as quais mantinha relações essencialmente sociais. Seria a decisão mais simples. Também seria a decisão que todos esperariam dele. Vicente nunca teve o hábito de agir apenas porque determinada atitude parecia conveniente aos olhos dos outros. Seus olhos voltaram a encontrar Kiraz. Ela finalmente se sentou na primeira fileira, segurando o buquê sobre o colo. Por um instante, deixou a cabeça pender para a frente. Os ombros se curvaram, e toda a compostura que sustentara diante dos convidados pareceu escapar de uma só vez. Foi rápido. Quando ouviu alguém se aproximar, ela se endireitou imediatamente. Vicente parou antes de entrar em seu campo de visão. Aquela reação o incomodou mais do que deveria: Kiraz ainda se preparava para parecer bem diante dos outros, mesmo quando já não havia ninguém de quem precisasse se defender. Ele poderia oferecer palavras de consolo. Dizer que Dante não a merecia, que ela não deveria se culpar, que tudo aquilo passaria. Não diria nenhuma dessas coisas. Kiraz não precisava de mais um homem explicando o que deveria sentir. E Vicente desconfiava que ela já tivesse ouvido conselhos suficientes para uma vida inteira. O que ela precisava fazer com aquela dor era uma decisão que cabia somente a ela. Mas havia uma diferença entre respeitar a escolha de alguém e deixá-la acreditar que não possuía nenhuma outra. Vicente olhou uma última vez para a porta por onde Dante deveria ter entrado. Depois, voltou-se para Kiraz. Tomou a decisão sem pressa, como fazia com tudo o que considerava importante. Não porque tivesse certeza de como ela reagiria, mas porque, pela primeira vez naquela tarde, permanecer em silêncio lhe pareceu uma escolha muito pior do que correr o risco de ser recusado. Ele atravessou o corredor. Kiraz ouviu os passos e ergueu o rosto. Quando reconheceu Vicente Albuquerque, sua expressão mudou: primeiro, surpresa; depois, uma cautela imediata, como se já não soubesse o que esperar de ninguém naquele dia. Vicente parou a uma distância respeitosa. Não ofereceu a mão. Não tentou tocar nela. Tampouco lançou um olhar de pena ao vestido, ao buquê amassado ou à igreja vazia. Apenas a encarou com a serenidade de quem não pretendia desperdiçar o tempo dela com frases inúteis.Capítulo — Quando o mundo souberÀs duas e quarenta da tarde, a sala de imprensa já estava praticamente preparada.O espaço escolhido pela equipe de comunicação de Vicente ocupava o auditório principal da sede da empresa, no alto de um edifício envidraçado que dominava parte do centro financeiro da cidade. Pelas paredes de vidro, era possível observar o movimento dos carros nas avenidas, o reflexo dos prédios vizinhos e o céu claro que começava a perder a intensidade do meio-dia.Lá dentro, porém, toda a atenção estava concentrada no palco.O painel com o nome da empresa ocupava a parede central. À direita, uma tela exibia as primeiras imagens do novo empreendimento imobiliário: construções baixas, madeira, vegetação abundante, caminhos de areia clara e pequenas estruturas distribuídas ao longo da costa. O projeto havia sido concebido para oferecer uma experiência de vila à beira-mar, com bangalôs, cafés, restaurantes e espaços de convivência integrados à paisagem.As primeiras fileir
Naquela noite, nenhum dos dois dormiu direito.Kiraz entrou no quarto, fechou a porta e permaneceu alguns segundos encostada nela.O silêncio do ambiente parecia diferente.Ela já havia tomado banho, trocado de roupa, prendido parte dos cabelos ainda úmidos e organizado algumas coisas sobre a penteadeira. Tudo estava no lugar.Menos seus pensamentos.Ela se sentou na beirada da cama.Por alguns segundos, tentou pensar apenas no dia seguinte.A coletiva.A família.O anúncio.As perguntas que certamente surgiriam.O casamento que, até então, existia apenas dentro de uma pequena bolha protegida dos olhos do mundo.Mas seus pensamentos insistiam em voltar para o escritório.Para o momento em que Vicente havia lido o cartão.Kiraz fechou os olhos.Ela tinha visto.Não precisava que ele dissesse.A mudança havia acontecido diante dela.A mão apertando o papel.Os nós dos dedos embranquecendo.A mandíbula rígida.Aquele olhar que não era exatamente raiva, mas também estava muito distante da
Dante ainda estava parado diante da mesa de Kiraz.Os olhos continuavam presos à mão dela.Ao anel.Era pequeno.Discreto. Elegante.E, justamente por isso, parecia ainda mais difícil acreditar nele.Dante tentou afastar o olhar, mas não conseguiu.Talvez fosse uma encenação.Era a primeira explicação que sua mente conseguia encontrar.Talvez Kiraz tivesse colocado aquele anel justamente para fazê-lo parar. Talvez tivesse sido uma decisão tomada no impulso, uma forma de estabelecer uma barreira que ela sabia que ele não conseguiria ignorar.Talvez Vicente tivesse comprado aquilo apenas para sustentar uma aparência.Um casamento.Uma história conveniente.Uma maneira de encerrar perguntas.Dante agarrou-se a essas possibilidades como alguém que se recusa a aceitar a porta fechada diante de si.Porque, se aquilo fosse realmente um casamento, então significava que ele havia perdido Kiraz.Não apenas perdido a oportunidade de recuperá-la.Perdido a mulher que, por tanto tempo, ele acredi
A manhã avançava na empresa de Kiraz com a normalidade possível.Reuniões.Documentos.Telefonemas.Pessoas entrando e saindo de sua sala.O trabalho não tinha diminuído apenas porque sua vida pessoal parecia ter decidido concentrar acontecimentos demais em um único período.Kiraz estava inclinada sobre alguns relatórios quando sua secretária apareceu.— Kiraz, chegou uma entrega para você.Dante entrou na sala de Kiraz sem saber que aquele dia seria diferente de todos os outros.Tinha ido até ali porque precisava vê-la.Não sabia exatamente o que esperava encontrar.Talvez a mesma mulher que, apesar de tudo, ainda guardava algum espaço para ele. Talvez uma brecha em alguma conversa. Talvez apenas um olhar que confirmasse aquilo que ele insistia em acreditar: que a história dos dois ainda não tinha terminado completamente.Então viu as flores.O buquê estava sobre a mesa.Não era pequeno.Era cuidadosamente montado, elegante, com rosas em tons claros, flores brancas de pétalas delicad
A noite estava fresca quando o carro de Vicente entrou pelo portão da casa de seus pais.Kiraz observou a fachada pela janela.A casa era grande, mas não tinha a imponência fria que ela esperava. Havia árvores antigas ao redor do jardim, vasos de flores espalhados perto da entrada e pequenas luminárias iluminando o caminho até a porta. As janelas do térreo deixavam escapar uma luz quente, e, de algum lugar, vinha o aroma de comida recém-preparada.Ela respirou fundo.Vicente percebeu.— Você está nervosa.— Um pouco.— Não precisa.— Você fala isso porque está chegando na casa dos seus pais. Eu estou entrando pela primeira vez na casa dos meus sogros.Ele desligou o motor e virou o rosto para ela.— Minha mãe não está esperando uma apresentação formal.— Eu sei.— Ela quer conhecê-la.Kiraz sorriu.— Isso me deixa mais nervosa ainda.— Por quê?— Porque quando alguém quer realmente conhecer a gente, não adianta escolher uma roupa bonita e responder educadamente às perguntas. Em algum
A noite já havia tomado conta da casa dos pais de Kiraz quando os dois finalmente se despediram. As luzes do jardim permaneciam acesas, espalhando pequenos círculos dourados pelo caminho de pedras. O ar estava fresco, e uma brisa leve fazia as folhas das árvores se movimentarem acima deles. Da cozinha ainda vinha um cheiro discreto de café e canela, lembrança do jantar que havia terminado alguns minutos antes. Kiraz estava junto à porta, abraçada à mãe. — Agora eu realmente vou — disse, rindo. Catarina segurou os braços da filha antes de soltá-la. — Você falou isso há cinco minutos. — Porque você continua arranjando assunto. — Sou sua mãe. Tenho esse direito. — Direito a cinco minutos extras? — No mínimo. Kiraz riu. — Está bem. Mas agora eu vou mesmo. Catarina ajeitou uma mecha do cabelo da filha. — Me avisa quando chegar. — Mãe, é tarde. Você não precisa ficar esperando. — Eu não disse que vou ficar esperando acordada. Disse para me avisar. — Está bem. — E se estive







