LOGINE eu fiquei mesmo acordada a noite inteira pensando nela, exatamente como ela queria que eu ficasse.
Fiquei uns dez minutos sentada no chão frio do dormitório, com as costas encostadas na parede, com as pernas moles, sem força nenhuma pra levantar. Minha blusa larguinha de dormir estava toda amassada de tanto que eu apertei o tecido com força na hora que ela chegou tão perto da minha boca. Minha perna não parava de tremer. Eu estava com uma mistura de sentimentos que eu nunca senti antes. Raiva, vergonha, vontade, calor, frio na barriga, tudo ao mesmo tempo por causa de uma menina. Da Ketlin. Eu passei a mão na minha boca de novo. Ainda formigando. Ainda sentindo o hálito quente dela de menta tão perto, quase me beijando. Ainda sentindo o perfume doce dela de baunilha com morango impregnado na minha blusa, no meu pescoço, no meu cabelo. Até o ar do quarto ainda estava quente e abafado por causa da proximidade dela, por causa do corpo dela tão perto do meu, por causa da respiração acelerada que a gente teve ali na parede. Levantei com muita dificuldade, porque minha perna ainda estava tremendo muito, e fui me jogar na minha cama de qualquer jeito, de bruços, sem nem arrumar o lençol. Abracei meu travesseiro com muita força, como se fosse ela. E o travesseiro também estava com o cheirinho dela, porque ontem, pra me provocar, ela tinha deitado nele quando eu estava na aula e deixou o perfume dela de propósito pra eu sentir quando chegasse. Que ódio dela. Tudo nesse quarto tinha cheiro dela agora. Tudo me lembrava ela. Até a parede onde ela colocou a mão do lado da minha cabeça ainda parecia ter a marca quente da mão dela. Fiquei ali, revirando pra um lado e pro outro na cama pequena, olhando pro teto branco com aquela mancha de umidade que parece um coração, olhando pra porta entreaberta que ela deixou de propósito com a luz amarela do corredor entrando. Ela tinha saído pro corredor e não voltou mais. Eu ouvi a porta do banheiro lá no final do corredor bater com força. Ela devia estar lá dentro, se olhando no espelho grande, toda confiante, toda linda, rindo da minha cara de boba que ficou ali no chão com a boca entreaberta esperando o beijo que nunca veio. Vinte minutos se passaram e nada dela voltar. Eu já estava começando a ficar com mais raiva ainda, mas agora com um aperto no peito, com uma pontada de ciúme que eu nunca tinha sentido antes, achando que ela ia me deixar ali a noite inteira sozinha depois de fazer aquilo comigo, depois de me deixar daquele jeito. Achando que ela tinha ido falar com alguma outra menina do corredor, alguma veterana. Foi quando eu ouvi passos descalços voltando no corredor de cerâmica fria. Passos leves, mas confiantes. Eu já aprendi a reconhecer o barulho do pé dela no chão, porque eu presto atenção em tudo que é dela. A porta do nosso quarto abriu bem devagar, fazendo aquele barulhinho que a nossa porta sempre faz quando abre. Era ela. De pijama agora. Aquela blusinha curta branca que deixa a barriga toda de fora e aquele shortinho curto preto que ela sempre dorme e que me deixa louca. Cabelo solto, ainda molhado do banho que ela tomou, com umas gotinhas caindo no ombro. Ela me viu deitada, acordada, virada pra parede, abraçada no travesseiro, e parou na porta, com a mão ainda na maçaneta. "Você ainda tá acordada, caloura?", ela sussurrou, fechando a porta atrás dela bem devagar, mas sem trancar com a chave dessa vez, deixando só encostada. "Você acha que eu ia conseguir dormir depois do que você fez comigo hoje? Você me deixou ali no chão que nem uma boba, com a boca formigando, morrendo de vontade", eu falei, com a voz embargada, com a raiva doce entalada na garganta, sem nem virar pra olhar pra ela, de tanta vergonha que eu estava. Ela não pediu desculpa. Ela sorriu. Eu ouvi ela rindo baixinho. Aquele sorriso de canto que me desmonta inteira mesmo sem eu ver. Ela veio andando devagar até a beira da minha cama e sentou. Não na cama dela, que estava vazia e arrumada do outro lado do quarto. Na minha cama. Bem na beiradinha, com o peso dela afundando meu colchão de solteiro, olhando pra mim deitada de bruços. "Eu te falei que hoje eu só ia te deixar com vontade de mim. Igual você me deixou ontem a noite inteira sem dormir, revirando na cama, pensando em você do outro lado do quarto, com esse shortinho curto, dormindo tão linda. Agora você sabe exatamente como eu me senti ontem. Com raiva boa e com vontade." "Você é cruel, Ketlin. Muito cruel comigo", eu falei, mas sem força nenhuma pra brigar de verdade, com a voz manhosa, de quem estava com raiva mas queria ela perto. "Eu sei que eu sou cruel. Mas admite que você gostou. Admite que você gostou de ficar ali com o corpo quente, com o coração acelerado, com a boca formigando, pensando em mim. Admite, caloura." Eu fiquei vermelha no escuro, queimando de vergonha. Ela viu, porque ela chegou mais perto, se inclinou por cima de mim, com o cabelo molhado dela caindo e encostando nas minhas costas, me arrepiando inteira. "Você ficou, né? Com a boca formigando, com o coração acelerado, com raiva de mim porque eu não te beijei quando você estava me pedindo com os olhos." Eu balancei a cabeça que sim, morrendo de vergonha, escondendo o rosto no travesseiro pra ela não ver o quanto eu estava vermelha. Foi aí que ela fez uma coisa que eu não esperava dela, que sempre é tão confiante e provocante. Ela deitou do meu lado. Por cima da coberta, de lado, me olhando, com o rosto muito perto do meu. Ficou a um palmo de mim, sem me tocar no começo, só me olhando com carinho. "Posso ficar aqui um pouquinho? Só até você dormir? Eu prometo que eu não vou fazer nada hoje. Eu juro por tudo que eu não vou fazer nada. Só quero ficar aqui do seu lado, porque lá na minha cama tá muito frio sem você me olhando e sem o seu cheirinho. E eu também não vou conseguir dormir se eu ficar longe de você hoje." Eu não respondi com palavras. Eu não consegui falar. Eu só abri um espacinho na minha cama, puxando a coberta de lado, deixando ela entrar. Ela deitou. Ficou me olhando no escuro, só com a luzinha amarela fraca do corredor entrando por baixo da porta. A gente ficou em silêncio por um tempo, só se olhando, só ouvindo a respiração uma da outra, acelerada. "Você tá com raiva de mim ainda?", ela perguntou baixinho, passando a mão de leve, com muito carinho, no meu cabelo, tirando da minha testa, prendendo atrás da minha orelha, diferente de como ela estava mais cedo toda confiante e provocante. Agora ela estava carinhosa. "Tô com um pouquinho de raiva ainda. Mas tô com mais vontade ainda do que raiva", eu confessei num fio de voz, quase inaudível, com coragem que eu não sei de onde tirei. Ela riu baixinho, com aquele risinho rouco que me arrepia. "Eu sei. E amanhã eu vou matar essa sua vontade toda. Eu prometi que amanhã, quando eu trancar de novo essa porta com a chave, eu não vou parar só na testa igual fiz ontem e hoje. Eu vou te beijar de verdade, do jeito que você quer. E eu cumpro minhas promessas, caloura. Eu sempre cumpro." Ela chegou mais perto e encostou a testa dela na minha, igual ela fez mais cedo quando estava me provocando na parede, mas agora com carinho, com cuidado, sem provocação, só com afeto. Ficamos com a testa colada, nariz com nariz, sentindo a respiração uma da outra. "Dorme agora, minha caloura. Se não amanhã você vai ficar com olheira enorme na aula de direito e todo mundo vai saber que você passou a noite inteira pensando em mim, revirando na cama por minha causa." "Boa noite, Ketlin", eu sussurrei, fechando os olhos, com a testa ainda colada na dela. "Boa noite, minha caloura linda." E a gente ficou ali, deitadas lado a lado, sem se beijar, mas com a testa colada, com o corpo quente, com a respiração acelerada, com a mão dela segurando de leve a minha por baixo da coberta, fingindo que ia dormir, mas as duas acordadas, com o coração disparado, sabendo que no dia seguinte, quando aquela porta trancasse de novo com aquele _click_ que só a gente conhece, nenhuma das duas ia conseguir parar mais.E a gente ficou ali, deitadas lado a lado, sem se beijar, mas com a testa colada, com o corpo quente, com a respiração acelerada, com a mão dela segurando de leve a minha por baixo da coberta, fingindo que ia dormir, mas as duas acordadas, com o coração disparado, sabendo que no dia seguinte, quando aquela porta trancasse de novo com aquele _click_ que só a gente conhece, nenhuma das duas ia conseguir parar mais.E o dia seguinte chegou e eu não consegui dormir nem um minuto de verdade. Eu passei a noite inteira acordada olhando pro teto do alojamento, com a mão ainda quente onde a Ketlin tinha segurado, com a testa ainda queimando onde ela tinha colado a dela na minha. O alojamento tava em silêncio, só o barulho do ventilador velho girando e a respiração das outras meninas nos beliches. Mas na minha cabeça só tinha o _click_.Eu acordei antes de todo mundo, com o sol ainda fraco entrando pela janela suja. A cama da Ketlin do outro lado do quarto já tava vazia, arrumada do jeito milit
E eu fiquei mesmo acordada a noite inteira pensando nela, exatamente como ela queria que eu ficasse.Fiquei uns dez minutos sentada no chão frio do dormitório, com as costas encostadas na parede, com as pernas moles, sem força nenhuma pra levantar. Minha blusa larguinha de dormir estava toda amassada de tanto que eu apertei o tecido com força na hora que ela chegou tão perto da minha boca. Minha perna não parava de tremer. Eu estava com uma mistura de sentimentos que eu nunca senti antes. Raiva, vergonha, vontade, calor, frio na barriga, tudo ao mesmo tempo por causa de uma menina. Da Ketlin.Eu passei a mão na minha boca de novo. Ainda formigando. Ainda sentindo o hálito quente dela de menta tão perto, quase me beijando. Ainda sentindo o perfume doce dela de baunilha com morango impregnado na minha blusa, no meu pescoço, no meu cabelo. Até o ar do quarto ainda estava quente e abafado por causa da proximidade dela, por causa do corpo dela tão perto do meu, por causa da respiração acel
Me deixando ali, encostada na parede, escorregando até sentar no chão, com o corpo todo quente, com a boca formigando, com o coração disparado, com uma raiva boa porque ela não me beijou e com a certeza absoluta de que eu ia ficar a noite inteira acordada pensando nela.E eu fiquei. Fiquei mesmo acordada a noite inteira pensando nela, exatamente como ela queria.Fiquei uns sete minutos sentada no chão frio do dormitório, com as costas encostadas na parede, com as pernas moles, sem força pra levantar. Minha perna tremia sem parar, minha blusa larguinha de dormir tava toda amassada de tanto que eu tinha segurado o tecido com força na hora que ela chegou tão perto da minha boca. Eu tava com muita raiva dela, mas era uma raiva boa, uma raiva gostosa e quente, porque eu sabia que ela fez tudo de propósito. Ela queria me deixar exatamente assim, louca, com vontade, pensando nela.Eu passei a mão na minha boca, que tava formigando até agora, como se ela tivesse me beijado de verdade. Ainda s
Ela trancou a porta._Click._O barulho da chave virando na fechadura me fez travar inteira. Meu coração, que já tava acelerado, quase parou."Ketlin, o que você tá fazendo?", minha voz saiu baixa, quase sem ar, fina. Eu tava encostada na parede do dormitório, com meu caderno abraçado no peito como se fosse um escudo.Ela não respondeu na hora. Ela guardou a chave devagar no bolso da frente do short curto dela e veio andando devagar até mim. Descalça. Com aquele olhar que ela só tem pra mim. Confiante, provocante, com um sorrisinho de canto que me desmonta toda."Você ficou o dia inteiro me evitando, caloura. Acha que eu não percebi? Passou por mim no corredor e nem me olhou. Na aula sentou lá na frente. Você acha que eu sou boba?""Eu não tava te evitando... eu só... tava com vergonha do que aconteceu ontem.""Tava sim. E eu fiquei o dia inteiro pensando em você. Pensando no seu cheirinho aqui no quarto, na sua voz me chamando."Ela chegou tão perto que eu tive que encostar as costas
O sol da manhã batia direto no meu rosto quando ela entrou. Uma garota linda, alta, devia ter 1,70, cabelos pretos e longos, pele branca, piercing na boca e uma tatuagem no pescoço. Uma aparência rebelde, inesquecível. Ela se sentou ao meu lado. Eu olhei para ela, ela percebeu, olhou de volta e sorriu. Eu fiquei vermelha na hora. Ela deu uma risadinha. A aula começou, o professor entrou e eu tentei prestar atenção, mas meu celular vibrou. Era minha amiga: _"Você percebeu que ela não tira o olho de você?"_ Eu respondi: _"Lógico, mas é uma gata."_ Ela: _"Eu sempre soube que você gostava dela."_ Mandei uma carinha envergonhada: _"Lógico, ela é linda."_ Olhei para ela de novo e ela sorriu. O professor viu e falou: "Ketlin, responda, quando foi a Guerra dos Mascates?" Eu não sabia responder. E ela respondeu por mim, falando que a Guerra dos Mascates foi entre 1710 e 1711. O professor virou e falou "obrigado, Ketlin". Ela deu uma risada e falou "às ordens". Ele começou a fazer várias







