O silêncio que reinava na biblioteca do casarão dos Albuquerque, em Higienópolis, era o mesmo silêncio estéril que costumava ditar o ritmo daquela casa: pesado, imponente e cortado apenas pelo tique-taque aristocrático de um relógio de carrilhão inglês do século XIX. Mas debaixo daquela fina camada de mármore e madeira de lei, a temperatura beirava o ponto de ebulição.Sentada em sua habitual poltrona de brocado francês, a matriarca da família, dona Sophia Albuquerque, mantinha a coluna perfeitamente ereta. No entanto, o verniz de controle absoluto que ela cultivara como uma segunda pele ao longo de décadas exibia, pela primeira vez, uma trinca profunda e feia.Sua mão direita, adornada por um solitário de diamante que outrora pertencera à sua avó, tremia de forma quase imperceptível enquanto ela segurava o tablet. Na tela brilhante, o rosto de Clara Mendes — sua ex-nora, a mulher que ela pessoalmente ajudara a isolar, silenciar e, por fim, descartar como um "efeito colateral indeseja
Última actualización : 2026-07-31 Leer más