A madrugada profunda na Serra da Mantiqueira impunha um silêncio que beirava o sagrado. Lá fora, o vento de julho havia diminuído para um sopro constante, mas o frio continuava a estalar os galhos das araucárias e a cobrir as folhas de hortênsia com uma fina e brilhante película de geada. No interior do ateliê de pedra, contudo, o tempo parecia obedecer a uma física própria, ditada pelo isolamento rústico das paredes grossas e pelo calor residual das cinzas que ainda reluziam no ventre do fogão a lenha. Clara despertou lentamente, emergindo de um sono sem sonhos, daqueles que só pertencem aos que finalmente encontraram a paz. A princípio, não abriu os olhos; apenas deixou que seus sentidos registrassem a topografia do lugar onde estava. Suas costas estavam aninhadas contra um peito largo e firme, e um braço pesado, mas incrivelmente protetor, envolvia sua cintura com uma posse suave. O calor que emanava daquele corpo atrás de si era uma barreira intransponível contra o inverno que ron
Last Updated : 2026-07-31 Read more