Lúcia Barreto ouviu a peça inteira sem interromper.Isso era raro.Não porque Augusto tocasse mal.Porque Lúcia tinha o hábito irritante de parar música no meio como quem encontrava uma vírgula ofensiva.— De novo — dizia.Ou:— Essa passagem está mentindo.Ou, pior:— Você está tentando parecer inteligente.Naquela sexta-feira, porém, ela ficou sentada a três metros do piano da sala pequena do centro cultural, uma mão sobre o joelho, a outra segurando um lápis que não usou.Augusto tocou por pouco mais de três minutos.A composição começava simples.Duas notas repetidas.Depois uma terceira surgia por baixo, quase contrariando.O tema crescia sem pressa, abria espaço, voltava menor, desviava para uma sequência mais densa e, perto do fim, chegava ao trecho que ele vinha mantendo havia meses:uma medida que parecia pedir conclusão.E não recebia.Augusto deixou o último som desaparecer.Lúcia não falou.Ele esperou.Nada.— Isso é uma técnica pedagógica nova?Ela levantou os olhos.— E
Última atualização : 2026-08-25 Ler mais