Dizem que quem vive na correria da periferia esquece de olhar no espelho. E eu esqueci por um bom tempo. Entre as consultas no posto de saúde, as fichas dos meninos do *Sementes do Asfalto*, as ameaças que a gente enfrentou e a graxa que parecia nunca sair das roupas do Marcos, eu fui me deixando de lado. Meus cabelos, que o Marcos tanto amava ver loiros e iluminados quando a gente se conheceu, tinham escurecido, ficando num castanho apagado pelo cansaço dos últimos anos.Mas naquele sábado, a oficina estava em silêncio. A primeira turma do porto já tinha sido contratada, a polícia tinha tirado a sombra do Valtinho das nossas vidas e o bairro parecia, finalmente, respirar em paz.Eu decidi que era o meu momento. Chamei a Paulinha, minha amiga cabeleireira de anos aqui da rua, e fiz ela subir no nosso apartamento. Enquanto o meu pai levava o Márcio Henrique para brincar na varanda dos fundos e o Marcos terminava de organizar umas planilhas no escritório, eu me sentei na cadeira da pent
Last Updated : 2026-10-15 Read more