O silêncio na sala da nossa casa era mais pesado do que o som das rajadas de fuzil que tinham ecoado na Rocinha horas antes. O olhar de desespero do meu pai cortava minha alma como uma lâmina afiada. As mãos dele, calejadas por décadas de trabalho duro na oficina, seguravam meus ombros com uma mistura de proteção e pavor.— Pai, por favor, se acalma... tentei pedir, a voz embargada pelas lágrimas que finalmente transbordaram dos meus olhos. — Eu tô aqui, tô viva, não aconteceu nada comigo.— Não aconteceu nada hoje, Maria Júlia! ele esbravejou, com a voz falhando pelo choro reprimido. — E amanhã? E na semana que vem? Você acha que eu não sei como funciona essa guerra? Aquele lugar é uma terra sem lei. Eu e sua mãe não dormimos um segundo sequer imaginando você caída naquele chão frio. Você estudou tanto, se formou com tanto orgulho pra morrer numa guerra que não é sua?— Não é uma guerra minha, mas eram as minhas mãos que estavam estancando o sangue das pessoas hoje cedo! rebati, ten
Última atualização : 2026-08-12 Ler mais