O consultório do Dr. Otávio estava com o ar-condicionado ligado demais. Lavínia sentou na cadeira da esquerda, com a bolsa no colo e as mãos apertando a alça. André ocupou a da direita, com o paletó dobrado sobre os joelhos e a coluna reta. Entre os dois havia uma distância de um braço, que nenhum tentou encurtar. Antes de entrarem, na sala de espera, André preencheu sozinho a ficha dela, com a letra apertada. Lavínia o observou escrever de memória o número do convênio, a data de nascimento, o tipo sanguíneo, o nome dos remédios. Ele sabia tudo. Ela sentiu uma coisa confusa, uma mistura de carinho e irritação, e desviou o olhar para a revista que não ia ler. Otávio entrou com uma pasta, sentou, abriu e leu em silêncio por quase um minuto. Lavínia reparou que a testa dele ficou franzida duas vezes. Sentiu um aperto no peito. — Eu preciso fazer uma pergunta antes de começar — disse ele, levantando os olhos. — Lavínia, você autoriza que eu fale sobre o seu quadro na frente do seu mari
Last Updated : 2026-10-27 Read more