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Uma coisa que admiro em Liliana é como transforma biografia em arte. Órfã de pai aos 7 anos, criada por uma mãe costureira, essas vivências aparecem distorcidas em seus contos, como em 'A Agulha e o Fio'. Estudiosa de mitologia comparada, ela costuma dizer que escreve 'com os ouvidos', privilegiando o ritmo sobre o enredo. Seu apartamento no Porto é repleto de objetos coletados em viagens: conchas do Algarve, máscaras moçambicanas, até um vaso chinês que inspirou o conto 'A Porcelana Rota'. Recomendo especialmente sua fase experimental, como 'Tetralogia das estações', onde cada volume corresponde a um elemento climático e uma técnica narrativa diferente – o outono é escrito todo em fluxo de consciência, por exemplo.
Liliana Conceição é uma autora fascinante, cuja trajetória literária mistura raízes lusófonas com uma sensibilidade contemporânea. Cresceu em Lisboa, onde o contato com histórias orais da avó despertou seu amor pela narrativa. Formada em Letras, publicou seu primeiro livro, 'A Sombra das Oliveiras', aos 24 anos, uma obra semi-autobiográfica que explora memórias familiares durante o Estado Novo. Seus trabalhos posteriores, como 'Maré Baixa' e 'O Véu de Perséfone', consolidaram sua voz única, mesclando realismo mágico com crítica social. Ganhou o Prêmio Oceanos em 2018 e hoje divide seu tempo entre escrever e ministrar oficinas literárias em comunidades rurais.
Seu estilo é marcado por descrições sensoriais vívidas e diálogos cortantes, quase sempre centrados em personagens femininas complexas. Muitos críticos comparam sua prosa à de Clarice Lispector, embora Liliana rejeite rótulos, afirmando que busca apenas 'contar histórias que doem e curem'. Fora do mundo literário, é conhecida por seu ativismo em causas ambientais e pela defesa de bibliotecas públicas.
Descobri Liliana Conceição através de 'Crônicas do Sal', um livro que me fez chorar no metrô. Pesquisando depois, vi que ela nasceu em Angola durante a guerra colonial, mudando-se para Portugal ainda criança. Essa dualidade cultural aparece em toda sua obra: a África como um espectro nostálgico, Portugal como um presente ambivalente. Ela começou escrevendo poesia marginal nos anos 90, só migrando para a prosa após um episódio depressivo que a levou a terapia. Curiosamente, seu pseudônimo inicial era 'Lília C.', até que um editor a convenceu a assumir o nome completo. Seu processo criativo envolve caminhadas longas e cadernos manuscritos – diz que digitar diretamente 'mata a musicalidade das palavras'.
Para entender Liliana Conceição, vale ler a entrevista que deu à revista 'Livro & Cia' em 2022. Revelou que planeja um romance histórico sobre Beatriz de Dia, a trovadora medieval, pesquisa que já dura cinco anos. Contou também sobre seu ritual matinal: acordar às 5h para escrever antes do alvoroço diário, sempre tomando chá de ervas colhidas no jardim. Apesar do sucesso, mantém hábitos simples – sua maior extravagância é uma coleção de canetas-tinteiro vintage. Quando perguntada sobre inspirações, citou desde o cineasta Tarkovsky até as cantigas de roda que ouvia na infância. Uma mente verdadeiramente plural.
Liliana Conceição tem uma presença intensa nas redes sociais, onde compartilha fragmentos de obras inacabadas. Seu Twitter é um diário público: reflexões sobre o acto de criar, fotos de cadernos rabiscados, até receitas de família que viram mote para histórias. Em 2020, surpreendeu todos ao lançar 'Manual do Silêncio', um audiolivro com paisagens sonoras captadas em mosteiros portugueses. Defensora ferrenha do domínio público, disponibilizou três de seus primeiros livros gratuitamente, afirmando que 'literatura é patrimônio coletivo'. Seu próximo projeto parece ser uma graphic novel em parceria com uma ilustradora brasileira.