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Capítulo 4 — A Decisão

last update Veröffentlichungsdatum: 15.09.2026 00:39:00

Sofia passou a noite com o contrato sobre a mesa. Não conseguiu simplesmente esquecê-lo depois que chegou em casa. Tentou tomar banho, preparar alguma coisa para comer, assistir a um episódio de uma série que costumava gostar, mas sua atenção sempre acabava voltando para a pasta preta. Trezentos e sessenta e cinco dias. Dez milhões de dólares. Um casamento. A combinação parecia absurda demais para pertencer à vida de uma mulher que, até pouco tempo antes, estava preocupada em descobrir como faria o salário daquele mês durar até o próximo.

Abriu o contrato mais uma vez e, dessa vez, leu tudo com calma. Não havia nada que a obrigasse a abandonar a própria família, deixar o trabalho ou permitir que Alexander controlasse sua vida. Teria que morar com ele, acompanhá-lo em determinados compromissos e manter a aparência de um casamento verdadeiro durante o período estabelecido. Também havia cláusulas sobre privacidade, separação e encerramento do acordo. Era estranho, muito estranho, mas não parecia uma armadilha óbvia.

Sofia apoiou os cotovelos na mesa e passou uma das mãos pelo rosto. Sabia que deveria desconfiar. E desconfiava. O problema era que a desconfiança não pagava suas contas. Pensou no salário que receberia naquele mês, nas despesas acumuladas, na insegurança de não saber se conseguiria manter tudo em dia e na possibilidade de procurar um segundo emprego depois do expediente. Talvez fosse cansativo. Talvez fosse humilhante admitir que estava naquela situação. Mas seria uma solução segura, ao menos. Um ano. Era só isso. Depois, estaria livre. Dez milhões por trezentos e sessenta e cinco dias.

Uma risada baixa escapou de seus lábios, sem qualquer traço de humor.

— Isso é completamente absurdo — murmurou, deixando os olhos sobre a pasta aberta. Por mais que tentasse encontrar alguma lógica naquela proposta, nada nela parecia pertencer ao mundo real.

E era. Só que o absurdo continuava sendo a melhor oportunidade que havia aparecido diante dela em muito tempo.

Pegou o celular e abriu a conversa com a mãe. Havia uma mensagem de Teresa daquela tarde perguntando se ela iria almoçar no domingo. Sofia respondeu que sim e ficou alguns segundos olhando para a tela antes de bloquear o aparelho. Não contaria nada. Ainda não. Não sabia como explicar que um bilionário havia oferecido dez milhões para que ela se casasse com ele. Talvez nem ela mesma soubesse explicar. Além disso, sua mãe não precisava carregar uma preocupação que não era dela, muito menos por causa de uma decisão que Sofia ainda estava tentando compreender.

Deixou o celular de lado e voltou ao contrato. Havia, porém, uma pergunta que continuava incomodando mais do que todas as outras.

Por que ela?

Alexander poderia escolher qualquer mulher. Ele tinha dinheiro, influência e acesso a praticamente qualquer pessoa que quisesse. Ainda assim, mandara um advogado encontrá-la na saída do trabalho, como se já soubesse exatamente onde procurá-la. Sofia voltou mentalmente à conversa que tiveram no restaurante e ouviu novamente aquela resposta simples demais para a quantidade de perguntas que provocava.

"Porque você é a pessoa que eu escolhi."

Não era uma resposta. Pelo menos, não para ela. Mas também não precisava ser naquela noite. Sofia fechou a pasta e recostou-se na cadeira, deixando o silêncio da sala acompanhá-la por alguns segundos. Já havia tomado uma decisão.

Na manhã seguinte, acordou com a certeza de que não voltaria atrás. Não porque tivesse deixado de achar tudo estranho, muito menos porque passara a confiar em Alexander. Simplesmente sabia o que aquela quantia significava para sua vida. Pela primeira vez em meses, talvez anos, existia diante dela uma possibilidade real de resolver seus problemas sem precisar pedir dinheiro à mãe, contar ao irmão o quanto estava apertada ou passar o restante do ano dividindo o pouco que recebia entre contas e necessidades básicas.

Às oito e meia, pegou o cartão de Nathan e saiu para o trabalho. Durante o dia, quase mudou de ideia duas vezes. Na terceira, percebeu que estava apenas procurando motivos para ter medo. No fim do expediente, recebeu uma mensagem.

Nathan Cole: O senhor Blackwood gostaria de saber se tomou uma decisão.

Sofia ficou alguns segundos olhando para a tela. O polegar pairou sobre o teclado, mas ela não respondeu imediatamente. Guardou o celular, terminou o que precisava fazer e só depois saiu do prédio. Já na calçada, parou por um instante. O movimento das pessoas continuava ao seu redor, indiferente à escolha que estava prestes a fazer. Então desbloqueou o celular e digitou:

Sofia: Sim. Eu aceito.

A resposta demorou menos de um minuto.

Nathan: Ele estará esperando por você amanhã às dez.

Sofia leu a mensagem outra vez antes de guardar o celular. A decisão estava tomada. Agora não havia mais como fingir que aquilo era apenas uma conversa estranha que acontecera por acaso. Ela realmente iria se casar com Alexander Blackwood.

No dia seguinte, entrou novamente no restaurante. Alexander já estava esperando. Dessa vez, não havia uma pasta diante dele, apenas dois copos de água sobre a mesa. Ele se levantou quando ela chegou, mantendo aquela postura impecavelmente controlada que parecia fazer parte dele.

— Sofia — cumprimentou, com a voz baixa e controlada. O olhar dele percorreu o rosto dela por um instante antes de voltar a se fixar em seus olhos.

— Senhor Blackwood - respondeu ela, puxando a cadeira. Antes de se sentar, observou-o brevemente, como se ainda tentasse entender o homem diante dela.

Alexander fez o mesmo, acomodando-se diante dela sem tirar os olhos de seu rosto.

— Nathan me informou da sua decisão — disse ele, mantendo as mãos apoiadas sobre a mesa. Não havia surpresa em sua expressão, apenas a atenção cuidadosa de quem já sabia o motivo daquela reunião.

Sofia ajeitou a bolsa ao lado da cadeira antes de voltar a encará-lo.

— Eu imaginei — respondeu, sem demonstrar qualquer surpresa. A maneira como Alexander conseguia saber das coisas antes mesmo que ela as dissesse ainda lhe causava certo desconforto.

Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos, observando-a.

— Você releu o contrato? — perguntou, como se quisesse se certificar de que a decisão não havia sido tomada por impulso.

Sofia passou a ponta dos dedos pela borda do copo de água, sem beber.

— Li. Mais de uma vez — respondeu. Depois de uma breve pausa, ergueu os olhos para ele. — E algumas coisas precisam ficar claras antes de assinarmos.

Alexander fez um pequeno movimento com a cabeça, dando-lhe espaço para continuar. A expressão permaneceu neutra, mas sua atenção estava inteiramente voltada para ela.

— Eu vou continuar trabalhando — disse Sofia, mantendo a voz tranquila. — Não pretendo abandonar minha vida por causa desse casamento.

— Não precisa abandonar — respondeu Alexander, sem hesitar. A simplicidade da resposta fez Sofia observá-lo por um instante, como se esperasse alguma condição escondida que não veio.

Ela apoiou as mãos sobre a mesa.

— Também quero continuar vendo minha família e tomando minhas próprias decisões — acrescentou, mantendo o olhar firme no dele. Não havia desafio em sua voz, apenas a necessidade de deixar aquilo estabelecido antes de seguir adiante.

— Você continuará — afirmou Alexander. O tom seguro não deixava espaço para uma interpretação diferente.

Sofia inclinou levemente a cabeça, absorvendo a resposta. Ainda havia uma parte dela que esperava descobrir alguma condição escondida por trás daquelas palavras, mas, naquele momento, decidiu não insistir.

— E não quero que minha família seja envolvida em qualquer problema seu — disse, depois de uma breve pausa. Seus dedos se entrelaçaram sobre a mesa enquanto aguardava a resposta.

Dessa vez, Alexander ficou em silêncio por um instante. Uma mudança quase imperceptível passou por seu rosto antes que ele voltasse à mesma expressão controlada de sempre.

— Sua família ficará fora disso — afirmou, sem desviar os olhos dela. A resposta veio com uma segurança que fez Sofia permanecer em silêncio por alguns segundos, avaliando-o.

— Espero que sim — respondeu ela por fim, sustentando o olhar dele. Não havia provocação naquelas palavras. Era apenas uma condição que ela precisava deixar registrada entre os dois.

Alexander assentiu uma única vez. Não pareceu ofendido com a desconfiança dela, tampouco tentou convencê-la de que não havia motivos para aquilo.

Sofia respirou lentamente antes de acrescentar:

— E quero deixar outra coisa clara. Eu não confio em você — disse, sem alterar o tom. Depois de falar, manteve os olhos sobre ele, esperando para descobrir se aquela afirmação finalmente provocaria alguma reação.

Alexander não desviou o olhar. Nenhuma irritação apareceu em seu rosto.

— Não espero que confie — respondeu com a mesma calma. A tranquilidade na voz dele fez Sofia estreitar os olhos por um instante; de todas as reações que poderia ter imaginado, aquela talvez fosse a que menos esperava.

Ela desviou os olhos para o contrato por alguns segundos.

— Então estamos entendidos — disse, voltando a encará-lo. A frase saiu simples, sem necessidade de transformar aquela conversa em uma disputa.

— Estamos — confirmou Alexander. O breve movimento de sua cabeça encerrou o assunto antes que qualquer um dos dois acrescentasse outra coisa.

Ele abriu a pasta que estava ao seu lado e colocou o contrato diante dela.

— Então temos um acordo — disse, deslizando o documento pela mesa. O papel parou exatamente diante de Sofia.

Ela pegou a caneta. Por um instante, ficou olhando para o espaço reservado à sua assinatura. Era apenas uma linha em uma folha de papel, mas parecia muito mais definitiva do que havia imaginado quando decidiu aceitar a proposta. Depois de um último segundo de hesitação, assinou.

Alexander assinou em seguida, com a mesma tranquilidade de quem parecia ter previsto cada etapa daquela conversa.

Quando devolveu a caneta à mesa, Sofia olhou para o documento como se esperasse que alguma coisa mudasse ao vê-lo oficialmente assinado. Nada aconteceu. O restaurante continuou silencioso ao redor deles, as pessoas continuaram conversando, os garçons continuaram circulando entre as mesas. Ainda assim, alguma coisa havia acabado de se tornar irreversível.

Sofia passou os olhos pela última vez sobre o contrato antes de erguê-los para Alexander.

— Quando será o casamento? — perguntou. A pergunta saiu mais rápida do que pretendia, ainda tentando entender o que aconteceria depois daquela assinatura.

— Em três semanas — respondeu Alexander, sem alterar a expressão. A naturalidade com que falou fez Sofia erguer os olhos imediatamente.

— Três semanas? — repetiu, deixando a surpresa aparecer em seu rosto. Por mais que soubesse que o casamento fazia parte do acordo, não esperava que tudo acontecesse tão depressa.

— É tempo suficiente para organizar tudo — afirmou ele, mantendo a calma diante da reação dela. Parecia não enxergar nada de incomum na velocidade com que aquele casamento estava sendo colocado em prática.

Sofia soltou o ar devagar e passou os dedos pela borda da mesa.

— Você realmente planejou isso — observou, ainda tentando assimilar a velocidade com que tudo estava acontecendo. Havia uma pergunta por trás da afirmação, e Alexander pareceu percebê-la.

— Sim — respondeu, simplesmente. A certeza daquela palavra fez Sofia permanecer alguns segundos em silêncio, observando-o.

Ela o estudou com atenção. Havia uma segurança naquela resposta que voltou a despertar sua curiosidade.

— Há quanto tempo? — perguntou, inclinando levemente a cabeça. Queria saber desde quando aquele casamento fazia parte dos planos dele.

Alexander a encarou. Por uma fração de segundo, alguma coisa passou pelos olhos dele — algo que Sofia não conseguiu identificar, mas que desapareceu antes que pudesse compreender.

— Tempo suficiente — respondeu. A resposta curta encerrou qualquer possibilidade de obter mais informações naquele momento.

Sofia percebeu que aquela seria provavelmente a única resposta que conseguiria. Não insistiu. Apenas se levantou e ajeitou a bolsa no ombro.

— Então acho que temos um casamento para organizar — disse, acomodando a alça da bolsa no ombro. A frase saiu quase como uma constatação, porque, depois daquela assinatura, não havia muito mais a discutir.

Alexander também se levantou.

— Temos — respondeu, acompanhando-a com os olhos. A palavra veio baixa, mas carregava a mesma certeza de todo o restante daquela manhã.

Sofia deu alguns passos em direção à saída, mas ouviu a voz dele atrás de si.

— Sofia — chamou Alexander, fazendo-a parar antes de alcançar a porta. O tom diferente foi suficiente para fazê-la se virar.

Ela virou-se.

Alexander continuava olhando para ela. A expressão havia perdido qualquer vestígio da neutralidade anterior.

— A partir de agora, algumas pessoas vão começar a prestar atenção em você — disse ele, mantendo o olhar fixo no dela. Havia uma seriedade naquela voz que fez Sofia permanecer onde estava.

— Por sua causa? — perguntou, estreitando levemente os olhos. A pergunta veio acompanhada de uma inquietação que ela não tentou esconder.

— Sim — respondeu Alexander. A palavra curta caiu entre os dois, e a ausência de qualquer explicação imediata fez Sofia esperar.

Ela pensou por um instante, ajeitando novamente a bolsa no ombro.

— É algo com que eu deva me preocupar? — perguntou, observando atentamente o rosto dele em busca de uma resposta mais clara.

— Não — respondeu Alexander, sem hesitar. A firmeza da resposta deveria ser suficiente, mas Sofia percebeu que ainda havia coisas que ele não estava dizendo.

Ela sustentou o olhar dele por mais alguns segundos antes de falar.

— Então é melhor você me avisar se alguma coisa mudar — disse, mantendo a voz tranquila. Não estava pedindo detalhes sobre tudo o que ele fazia; apenas queria saber quando alguma coisa pudesse afetá-la.

Alexander a observou por um instante antes de assentir.

— Avisarei — respondeu. O tom permaneceu firme, e a promessa pareceu simples o bastante para que Sofia não precisasse perguntar mais.

Ela fez um pequeno movimento de cabeça, aceitando a resposta. Não sabia exatamente em que tipo de vida estava entrando, mas já havia percebido que Alexander não entregaria todas as respostas simplesmente porque ela perguntasse.

Saiu do restaurante sem olhar para trás.

Do lado de fora, o movimento da cidade continuava exatamente igual. Pessoas caminhavam apressadas, carros passavam pelas ruas, telefones tocavam, lojas fechavam. Nada havia mudado para o restante do mundo. Só para ela.

A vida de Sofia Moretti acabara de tomar uma direção que jamais teria imaginado. Dentro de três semanas, seria a esposa de Alexander Blackwood, um homem que conhecia muito mais sobre ela do que deveria e que, por algum motivo, continuava escondendo a verdadeira razão de tê-la escolhido.

E, pela primeira vez, o número que não saía de sua cabeça não era dez milhões.

Eram 365 dias.

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