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Na terça-feira acordei antes do despertador. Pela primeira vez desde a noite de febre, não senti o corpo reclamar quando me levantei. A sensação de peso nos ombros tinha desaparecido, o teto não girava e a luz da manhã que entrava pela fresta da cortina não incomodava meus olhos. Preparei café. Abri a geladeira para pegar o leite e minhas mãos pararam no ar por meio segundo. As frutas continuavam perfeitamente dispostas na gJADE O caminho até o carro foi silencioso. Dona Cecília insistiu em colocar um pedaço de torta de limão em um pote de vidro "para amanhã". Seu Antônio apertou minha mão duas vezes antes de desejar boa noite e lembrar Henrique de dirigir com calma. Henrique apenas respondeu: — Sim, vô. Descemos os poucos degraus da varanda. O ar da noite estava fresco. Esperei enquanto Henrique destrancou o carro. Quando ele abriu a porta para mim, sorri de canto. — Você faz isso sempre? Ele pareceu pensar por um instante. — Não. Entrei no carro. — Então começou quando? Henrique fechou a minha porta antes de responder. — Não sei. Deu a volta pelo capô, entrou no carro e ligou o motor. Durante alguns minutos, seguimos em silêncio pelas ruas quase vazias. Curiosamente... não era um silêncio desconfortável. Olhei pela janela. As luzes da cidade passavam em faixas douradas pelo vidro. Sem perceber, comecei a sorrir outra vez. Henrique notou. — O que foi? Continuei olhando para fora. —
JADE Às cinco e cinquenta e oito, eu já estava pronta. Olhei o relógio pela terceira vez em menos de um minuto. Sentei no sofá. Levantei logo em seguida. Fui até a janela. Voltei para o sofá. Ridículo. Lili acompanhava tudo da cozinha, escondendo um sorriso atrás da caneca de café. — Você vai abrir um buraco nesse apartamento. — Estou andando normalmente. — Claro. Olhei para ela. — Você prometeu que não ia começar. — Prometi? — Na minha cabeça. Ela riu. Exatamente às dezoito horas, o interfone tocou. Lili atendeu antes de mim. — Pode subir. Desligou. Olhou para mim. — Pontual. — Era esperado. Peguei a bolsa. Respirei fundo. Poucos segundos depois, a campainha tocou. Abri a porta. Henrique estava exatamente como sempre. Terno escuro. Gravata impecável. Postura reta. Mas os olhos... Os olhos demoraram um pouco mais em mim do que costumavam. Percorreram meu rosto. Depois o vestido. Voltaram para os meus olhos. O silêncio durou um instante. — Você está muito bonita. M
JADE Na quinta-feira, descobri que a Netflix era uma péssima companhia.Passei quase uma hora no sofá assistindo a uma série qualquer que o aplicativo tinha decidido recomendar. Explosões, perseguições, diálogos dramáticos.Não fazia ideia do que estava acontecendo.Meu celular vibrou sobre a almofada ao meu lado.Peguei o aparelho sem muita pressa.Henrique.Meu polegar congelou por um instante antes de abrir a conversa.Henrique: Meus avós convidaram você para jantar amanhã. Presença indispensável.Li a mensagem duas vezes, depois uma terceira.Balancei a cabeça.Sorri sozinha.Só o Henrique conseguiria transformar um convite em um comunicado oficial.Digitei:Jade: Isso foi um convite ou uma intimação?Enviei.A resposta chegou quase imediatamente.Henrique: Aparentemente, uma intimação.Ri.De verdade.Escrevi outra mensagem.Jade: Não tenho direito de defesa?Os três pontinhos apareceram.Desapareceram.Voltaram.Henrique: Acredito que não.Mordi o canto da boca para esconder o
JADE Na terça-feira acordei antes do despertador. Pela primeira vez desde a noite de febre, não senti o corpo reclamar quando me levantei. A sensação de peso nos ombros tinha desaparecido, o teto não girava e a luz da manhã que entrava pela fresta da cortina não incomodava meus olhos. Preparei café. Abri a geladeira para pegar o leite e minhas mãos pararam no ar por meio segundo. As frutas continuavam perfeitamente dispostas na gaveta inferior. Fechei a porta antes que meus pensamentos fossem para o mesmo lugar de sempre. Não. Hoje eu ia voltar ao normal. Ou, pelo menos, tentar recuperar o ritmo de antes. Meu celular vibrou sobre a bancada da cozinha. Vanessa. Atendi imediatamente. — Bom dia. — Bom dia, sobrevivente — a voz dela veio acompanhada do som distante de teclas digi
JADE O celular vibrou de verdade sobre a pedra escura da bancada da cozinha. Olhei automaticamente para a tela. Meu coração acelerou antes mesmo que eu percebesse. Aquilo me irritou. Só então baixei os olhos para ler o nome. Henrique. Fiquei alguns segundos encarando a notificação no topo da tela iluminada. Henrique: Como foi o passeio? Franzi a testa. Como ele sabia que eu tinha saído? Claro. Era exatamente o tipo de cálculo que Henrique faria. Mesmo assim... sorri sem querer. Abri a conversa. Fiquei encarando a caixa de texto vazia. Era uma pergunta simples, mas responder parecia exigir um esforço desproporcional do meu raciocínio. Digitei: Foi bom. Apaguei. Escrevi outra coisa: Comprei algumas roupas. Apaguei também. Respirei fundo. Por que eu estava calculando tanto para responder a uma mensagem de quatro palavras? Balancei a cabeça, irritada comigo mesma. Ridículo. Digitei: Jade: Foi tranquilo. Enviei antes de mudar de ideia. A respost
O shopping estava exatamente como eu esperava. Ar-condicionado frio, música ambiente que ninguém realmente escutava e pessoas andando depressa, carregando sacolas de um lado para o outro. Durante anos, aquele tipo de lugar sempre funcionou para mim. Entrava sem objetivo e saía com alguma coisa nova. Era simples. A primeira vitrine chamou minha atenção imediatamente. Um vestido azul-marinho ocupava o centro da exposição. Bonito. Entrei. A vendedora sorriu assim que me viu. — Bom dia. Está procurando alguma coisa específica? — Só olhando. Passei os dedos pelos cabides. Separei três peças quase sem pensar. Experimentei a primeira no provador. Vestia perfeitamente. Olhei meu reflexo. Bonito. Só isso. Troquei pelo segundo. Depois pelo terceiro. Nenhum deles dizia absolutamente nada. Saí do provador. — Gostou? — perguntou a vendedora. Olhei outra vez para o vestido. — Vou levar. Enquanto ela passava a compra, fiquei observando o movimento da loja. Recebi a sacola, agradeci e co







