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Antes que ela assine

Penulis: Leti DB
last update Tanggal publikasi: 2026-09-20 00:45:48

POV: KONSTANTIN

A câmera mostrava Vittorio Bellandi entrando no escritório às oito e onze da manhã.

Onze minutos atrasado.

Mikhail olhou para o relógio.

— Imperdoável.

Não respondi.

Ele se acomodou na cadeira ao lado da minha mesa enquanto eu aumentava o volume.

O escritório de Bellandi não tinha áudio próprio. Luca resolvera essa deficiência colocando um dispositivo dentro de uma luminária três semanas antes.

Eu não perguntara como.

Quando se paga bem a Luca Ferretti, aprende-se a não fazer perguntas desnecessárias.

Vittorio sentou-se diante de dois homens.

Reconheci o primeiro: Cesare Montanari, advogado societário.

O segundo era Ricardo Moretti.

Fiquei encarando o rosto dele por alguns segundos.

— Então é esse.

Mikhail apoiou um tornozelo sobre o joelho.

— O futuro marido?

— Se Bellandi conseguir.

— Você parece ofendido.

— Estou pensando.

— É assim que você parece quando pensa?

Desviei os olhos para ele.

Mikhail sorriu e voltou a encarar a tela.

Conhecíamos um ao outro havia mais de vinte anos. Talvez por isso fosse um dos três homens vivos que podiam ser inconvenientes comigo sem consequências imediatas.

Vittorio abriu uma pasta.

— Ela assina amanhã.

Minha mão parou sobre a mesa.

Cesare ajeitou os óculos.

— É necessário que ela compreenda que não se trata apenas de uma procuração.

— Ela compreenderá o que eu disser que precisa compreender.

Ricardo soltou uma risada baixa.

— Alice não faz muitas perguntas.

Vittorio ergueu os olhos.

— Ela começou a fazer.

Silêncio.

Inclinei-me para a frente.

Mikhail também.

— Os vinte anos complicam tudo — Cesare continuou. — Quando a cláusula entrar em vigor, determinados atos precisarão da assinatura dela. Não existe mais tutela indireta que resolva isso.

— Por isso ela assinará antes.

— E se ler?

Vittorio fechou a pasta.

— Alice confia em mim.

Não gostei daquela frase.

Não pelo que significava para a garota.

Por causa de uma lembrança.

Outra voz.

Outra mulher.

Você confia demais em pessoas que aprenderam a sorrir enquanto mentem.

Fechei os olhos por menos de um segundo.

Quinze anos e ainda conseguia ouvir Sofia quando queria.

Às vezes quando não queria também.

Voltei à tela.

Ricardo mexeu no punho da camisa.

— E o casamento?

— Depois do aniversário.

— Ela não gosta de mim.

— Não precisa gostar.

Ricardo sorriu.

Minha mandíbula travou.

— Ela precisa confiar — Vittorio continuou. — Você terá tempo para construir isso.

Mikhail soltou um som baixo.

— Encantador.

Eu continuava olhando.

Na minha mesa, à direita, estava a agenda de Sofia.

Couro castanho.

Bordas gastas.

Quinze anos guardada numa caixa.

Eu havia acreditado conhecer tudo que minha esposa deixara.

Não conhecia.

Entre páginas sobre reuniões da fundação, processos, nomes de crianças e listas de compras havia duas linhas que me fizeram reorganizar quinze anos de investigação.

Alice Bellandi. Até os vinte.

Duas páginas depois:

Alice sabe onde está a chave.

Sofia estava grávida de vinte e oito semanas quando morreu.

Ligou para mim do carro.

Eu lembrava de cada ruído daquela chamada.

Chuva.

Respiração.

Vidro.

Uma buzina.

Minha voz repetindo o nome dela.

E então Sofia dissera duas palavras que, durante anos, eu não conseguira encaixar em nada.

Alice Bellandi.

Depois a ligação caiu.

O carro dela foi encontrado quarenta minutos mais tarde.

Durante anos, Vittorio me fizera acreditar que a investigação dela estava ligada exclusivamente a uma fundação usada para movimentar dinheiro.

Depois descobri a menina.

Alice.

Cinco anos.

Órfã.

Tutela acelerada.

Documentos estranhos.

Depois tudo desaparecia.

Eu poderia ter levado a criança naquela época.

Não levei.

Eu não sequestrava crianças.

Também não possuía força suficiente para declarar guerra a Vittorio e permanecer de pé depois dela. Meu dinheiro cresceu usando rotas que ele controlava. Meus homens atravessaram fronteiras porque Bellandi permitia. Durante anos engoli aquele gosto porque precisava chegar ao ponto em que não dependeria mais dele.

Quinze anos depois, eu estava nesse ponto.

E Alice faria vinte.

— Konstantin.

Voltei a atenção para Mikhail.

— O quê?

— Ele está falando da assinatura.

Aumentei o volume.

Cesare apontava para um documento.

— Depois disso, as participações entram na nova estrutura. Moretti assume posição executiva quando o casamento estiver registrado. Ainda existirá exposição se ela contestar futuramente.

— Ela não contestará.

— Você não pode ter certeza.

Vittorio se recostou.

— Eu a criei. Sei exatamente do que Alice é capaz.

Alguma coisa fria passou pelo meu peito.

Eu também achara que sabia exatamente do que Sofia era capaz.

Descobri, depois da morte, que minha mulher passara meses investigando uma criança sem me contar.

Puxei a agenda para perto.

Abri na página marcada.

Alice sabe onde está a chave.

Quinze anos.

Quinze anos procurando uma coisa cuja localização talvez estivesse dentro da cabeça de uma garota que crescera sob o teto do homem responsável pela morte da minha esposa.

— Quando? — perguntei.

Mikhail não precisou perguntar o quê.

— Amanhã cedo ela deveria assinar.

— Não vai.

Ele me observou por alguns segundos.

— Finalmente.

— Mande a equipe.

— Hoje?

— Hoje.

Mikhail pegou o telefone, mas não discou imediatamente.

— Você sabe que, se tirar Alice daquela casa, não existe volta.

— Não preciso de volta.

— Vittorio vai atacar tudo que puder.

— Que tente.

— E a garota?

Olhei novamente para a imagem congelada de Vittorio.

— Ela vai me dizer onde está a chave.

— E se não disser?

Minha atenção deslizou para a fotografia presa no canto do monitor.

Alice Bellandi saindo de uma consulta havia quatro meses.

Cabelos cacheados presos de qualquer jeito. Óculos escuros. Uma bolsa grande demais pendurada no ombro. Nenhuma expressão que lembrasse Vittorio.

Eu conhecia horários.

Aulas.

Médicos.

Seguranças.

O número de vezes em que deixava a propriedade.

Pouquíssimas.

Conhecia a vida dela melhor do que ela imaginava.

Só não conhecia a resposta que realmente importava.

— Então ela fica comigo até dizer.

Mikhail continuou me encarando.

— Por quanto tempo?

Fechei a agenda.

— O tempo que for necessário.

Ele assentiu.

Começou a digitar.

— Quer que eu vá?

— Sim.

— Achei que mandaria alguém descartável.

— Não quero erros nesse processo.

Mikhail levantou.

— Ela vai me odiar.

— Ela não precisa gostar de você.

Ele parou junto à porta e olhou por cima do ombro.

— Parece que você e Bellandi têm mais coisas em comum do que gostaria.

A porta fechou antes que eu respondesse.

Fiquei sozinho.

Na tela, Vittorio voltou a abrir os documentos que Alice nunca assinaria.

Passei o polegar sobre a borda da agenda.

Depois procurei, numa gaveta, a última fotografia de Sofia.

Ela estava grávida, usando um vestido branco, com uma das mãos sobre a barriga e a outra levantada para impedir que eu fotografasse.

Sorrindo.

Viva.

— Quinze anos — falei para ninguém.

Olhei para Alice no outro monitor.

A menina da fotografia não parecia ter respostas para nada.

Esse era o problema.

Eu já havia aprendido que aparências custavam caro.

Peguei o telefone.

— Mikhail.

— Sim.

— Antes que ela chegue aqui, tire qualquer funcionário desnecessário do complexo.

— Certo.

— E prepare a cela.

Houve uma pausa.

— A cela de vidro?

Olhei para a fotografia de Alice.

— Sim.

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