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O Coelho

Author: Leti DB
last update Petsa ng paglalathala: 2026-09-20 00:46:41

POV: ALICE

Fui sequestrada às quatro e dezessete da tarde.

Eu sei porque estava olhando para o relógio quando aconteceu.

Não por alguma premonição.

Por tédio.

Minha aula terminara quarenta minutos antes e eu havia passado esse tempo tentando convencer Bianca de que não poderia simplesmente desaparecer de casa naquela noite para comemorar antecipadamente meu aniversário.

Você tem idade pra votar, dirigir, casar e arruinar a própria vida, ela escreveu.

Mas aparentemente não pra tomar um drink.

Eu respondi:

Talvez eu não queira arruinar minha vida.

Ela mandou um emoji ofensivo.

Eu estava voltando dos jardins sorrindo quando escutei vários estalos seguidos e algo que pareceu barulhos de tiros por todo lado. Tudo perdeu completamente a graça. Vi homens caídos no portão e na frente da casa. Deitei no chão por reflexo, e foi então que o carro apareceu.

Não era estranho haver veículos e estranhos entrando e saindo da propriedade. Meu pai recebia funcionários, advogados e homens que nunca eram apresentados a mim com clareza suficiente para que eu soubesse exatamente o que faziam.

Mas aquele carro, seguido daqueles sons não podiam significar nada de bom.

Eu estava deitada, protegendo minha cabeça com as mãos. Como se pudesse realmente fazer algo.

Foi tudo.

Três minutos.

A porta traseira do carro abriu.

Um homem desceu.

Alto, talvez trinta e poucos anos, terno escuro, expressão tão calma que meu primeiro pensamento foi que ele devia conhecer meu pai.

— Senhorita Bellandi.

Olhei para cima.

Ele olhou para o relógio.

Literalmente.

Depois para mim.

— Precisamos ir.

A frase foi tão absurda que quase ri.

— Desculpe?

— Agora.

Meu corpo entendeu antes da minha cabeça.

Levantei lentamente.

O segundo homem apareceu do outro lado do carro.

Virei.

Corri.

Não pensei para onde.

Apenas corri.

Ouvi passos atrás de mim e alcancei talvez dez metros antes que uma mão agarrasse meu braço.

Gritei.

Tentei acertá-lo com o cotovelo.

O homem desviou.

— Não complique.

— ME SOLTA!

Acertei o pé dele.

Ou tentei.

Ele me puxou para trás.

Mordi sua mão.

— Porra, Alice.

A familiaridade com que disse meu nome me apavorou mais do que a força.

— MIKHAIL — o outro homem chamou.

Então era esse o nome.

Mikhail.

Ele segurou meus dois pulsos com uma mão.

— Não vou machucar você se parar de lutar.

— EU VOU GRITAR!

— Já está gritando, para com isso.

Tentei chutá-lo.

Ele respirou fundo.

— Estamos atrasados.

Por algum motivo completamente idiota, aquela frase atravessou meu pânico.

Atrasados.

O relógio.

O terno.

A urgência.

E uma memória infantil apareceu no meio da minha cabeça como uma bolha absurda.

O Coelho Branco.

Meu cérebro havia decidido enlouquecer.

— Meu pai vai matar vocês.

Mikhail me olhou.

Algo quase divertido passou por seu rosto.

— Essa é uma conversa interessante para outro momento.

Fui colocada dentro do carro.

Não havia cordas.

Nenhuma venda.

Isso deveria ter me tranquilizado.

Não tranquilizou.

A porta travou com um som baixo.

Puxei a maçaneta.

Nada.

— Abre.

Mikhail sentou-se à minha frente.

— Não.

— Quem são vocês?

— Você vai descobrir em breve.

— Pra onde estão me levando?

— Também vai descobrir.

— Meu pai vai acabar com vocês.

Dessa vez ele não respondeu.

Foi quando o medo ganhou uma forma diferente.

Meu celular ainda estava na minha mão.

Tentei desbloqueá-lo.

Mikhail estendeu a mão.

— Me dê.

Apertei o aparelho contra o peito.

— Não.

— Alice.

— Não toca em mim.

Ele me encarou durante dois segundos.

Depois fez um gesto.

O homem ao meu lado tirou o celular da minha mão.

Eu gritei outra vez.

Bati nele.

Mikhail fechou os olhos, talvez contando mentalmente até dez.

— Você pode continuar fazendo isso durante todo o percurso. Vai chegar cansada e ainda estará no mesmo carro.

— Percurso pra onde?

Nada.

— O que vocês querem? Dinheiro?

Silêncio.

— Meu pai tem dinheiro.

Mikhail olhou pela janela.

— Eu sei.

Minha garganta ficou seca.

— Quanto?

— Não é dinheiro que queremos.

— Então o quê?

Ele voltou o rosto para mim.

— Não sou eu quem vai fazer as perguntas.

Foi a primeira vez em que pensei seriamente que poderiam me matar.

Até aquele momento meu medo tinha sido rápido, animal. Fugir. Gritar. Chamar meu pai.

Agora virou outra coisa.

Fria.

Pesada.

Sentei o mais longe possível dos dois homens e abracei o próprio corpo.

Eu precisava me acalmar. Precisava pensar.

As ruas desapareceram.

Depois prédios.

Depois partes da cidade que eu não reconhecia.

Tentei memorizar curvas.

Direita.

Esquerda.

Ponte.

Túnel.

Perdi a conta na décima mudança.

O vidro era escuro demais para ver placas com clareza.

— Posso beber água?

Mikhail abriu um compartimento e me entregou uma garrafa fechada.

Olhei para ela com desconfiança.

— Não tem nada.

— Como eu vou saber?

Ele pegou a garrafa, abriu e bebeu.

Depois me devolveu.

— Satisfeita? Se eu tivesse te colocado pra dormir teria feito bem mais cedo não acha?

Quase duas horas depois, entramos numa estrada cercada de árvores.

A paisagem começou a subir.

O mar apareceu por alguns segundos entre as montanhas.

Depois sumiu.

Meu estômago doía.

— Quanto falta?

Mikhail olhou para o relógio outra vez.

— Vinte minutos.

— Você tem algum problema com relógios?

Ele me encarou.

— Pontualidade é uma virtude.

Eu ri de nervoso.

— Meu Deus.

Ele ergueu uma sobrancelha.

— O quê?

Balancei a cabeça.

— Nada.

Coelho Branco.

Eu estava sendo sequestrada por um homem que olhava o relógio a cada dez minutos.

Se aparecesse uma lagarta fumando, eu simplesmente desistiria da vida.

O carro entrou por um portão enorme.

Seguranças armados.

Câmeras.

Muros altos.

Meu coração disparou novamente.

À frente havia uma casa.

Não.

Uma propriedade inteira.

A construção principal parecia ter sido desenhada para alguém que desejava provar ao mundo que possuía dinheiro suficiente para ignorar qualquer noção de modéstia. Pedra clara, vidro escuro, três andares, jardins que se espalhavam ao redor e, anexada a uma das laterais, uma estrutura muito mais moderna, baixa e circular.

O carro não foi para a entrada da mansão.

Seguiu para o anexo.

Mikhail desceu.

Minha porta abriu.

Eu não me mexi.

— Alice.

— Não.

Ele suspirou.

— Você prefere que eu carregue?

— Prefiro ir embora.

— Essa opção não está disponível.

Olhei para os homens.

Depois para a distância até o portão.

Não conseguiria.

Saí.

Minhas pernas estavam moles.

Fomos por um corredor de pedra até uma porta sem maçaneta.

Mikhail encostou o dedo num leitor.

A porta abriu.

— Isso é um bunker?

— Não.

— Pois parece.

— Você ainda não viu nada.

Entramos.

A porta fechou atrás de mim.

O corredor seguinte era silencioso demais.

Luzes embutidas.

Paredes claras.

Nenhuma janela.

Caminhamos por talvez vinte metros, sempre no mesmo nível da entrada, até o corredor se abrir numa espécie de antessala silenciosa. O piso de pedra clara continuava sem uma única emenda aparente, e as paredes lisas eram interrompidas apenas por portas sem maçanetas, todas controladas por pequenos leitores escuros ao lado.

Parei.

— Não.

Mikhail, que já estava diante da próxima porta, olhou por cima do ombro.

— O quê?

Apontei para ela.

— Eu não vou entrar em mais lugar nenhum com você.

— Vai.

— Não.

— Alice.

— Para de falar meu nome como se me conhecesse.

O olhar dele mudou por um instante, quase imperceptível. Depois voltou àquela calma irritante que parecia fazer parte do uniforme.

— Precisamos continuar.

Cruzei os braços.

Ele olhou para o relógio.

Eu quase gritei.

— Você só pode estar brincando.

Mikhail apertou os lábios, contendo alguma resposta.

— Estamos atrasados.

— PARA ONDE?

Em vez de responder, ele encostou a mão no leitor.

A porta não se abriu imediatamente. Primeiro, uma faixa de luz percorreu a superfície escura de cima a baixo. Depois, o painel deslizou silenciosamente para dentro da parede.

Mikhail fez um gesto para que eu passasse.

— Para a toca.

Fiquei imóvel.

— O quê?

Mas ele já havia atravessado.

Talvez eu tivesse ouvido errado.

Talvez minha cabeça estivesse fazendo conexões idiotas porque precisava desesperadamente transformar aquilo em alguma coisa conhecida. Um livro. Uma história. Qualquer coisa que parecesse menos assustadora do que ser levada para dentro de uma propriedade onde até as portas pareciam saber quem podia atravessá-las.

Segui atrás dele. Nessa altura eu já sabia que não tinha escolha. Pelo menos não por enquanto.

O corredor seguinte era mais curto e fazia uma curva suave. Quando chegamos ao final, Mikhail encostou a mão em outro leitor, e uma porta larga deslizou silenciosamente para dentro da parede.

Dessa vez, eu simplesmente parei.

Não havia mais corredor.

Havia vidro.

Muito vidro.

Mikhail entrou primeiro. Eu o segui alguns passos depois e demorei alguns segundos para compreender que aquela porta não levava a outro cômodo de passagem.

Levava diretamente ao lugar onde esperavam que eu ficasse.

À minha esquerda, uma parede inteira de vidro se erguia do chão ao teto, acompanhando uma curva suave da construção. Do lado de fora, um jardim iluminado pelo fim da tarde se espalhava quase perto demais para parecer real: árvores perfeitamente cuidadas, caminhos de pedra clara, canteiros desenhados com precisão e, mais distante, por trás de toda aquela beleza, a silhueta dos muros altos que cercavam a propriedade.

Bonito demais.

Perfeito demais.

Impossível demais.

Desviei o olhar para a parede oposta ao jardim.

Ali o vidro era completamente diferente.

Escuro.

Espesso.

Reflexivo.

Também ocupava praticamente toda a extensão do ambiente, do chão ao teto, mas não me permitia enxergar absolutamente nada além dele. Minha própria imagem voltou para mim naquela superfície negra: cabelos desgrenhados, olhos vermelhos, roupas amarrotadas e uma expressão que eu quase não reconheci.

Era como se alguém tivesse construído aquele lugar entre duas realidades.

De um lado, um jardim que eu podia ver e não alcançar.

Do outro, uma parede negra que escondia alguma coisa de mim.

Só então percebi a água.

À minha direita, começando alguns metros depois da área principal da suíte, uma piscina comprida seguia em linha reta como uma faixa azul-escura cortando aquela parte da construção. Não parecia feita para festas, crianças ou tardes barulhentas. Era uma raia larga e longa, séria demais, com bordas de pedra clara e água tão imóvel que refletia as luzes do teto.

Ela seguia até uma parede transparente voltada para o jardim, como se terminasse praticamente dentro dele.

Do lado oposto da piscina continuava o mesmo vidro escuro.

Aquilo criou um corredor visual estranho: de um lado, água; do outro, aquela superfície negra; ao fundo, o jardim.

Tive a impressão desconfortável de que alguém, atrás daquele vidro, poderia olhar em linha reta por toda a extensão da piscina sem ser visto.

Afastei o pensamento.

Eu já estava assustada o suficiente.

Voltei a olhar para o espaço em que Mikhail havia me colocado.

Quanto mais eu observava, mais ficava claro que aquilo não era simplesmente um quarto.

A própria suíte acompanhava a curva da parede externa de vidro. Próxima ao jardim havia uma cama grande, voltada parcialmente para a paisagem. Mais adiante, um sofá e duas poltronas formavam uma pequena sala diante de uma lareira embutida. Uma estante ocupava parte da parede, cheia de livros. Havia ainda uma mesa redonda com cadeiras, luminárias, tapetes e objetos escolhidos com uma atenção que tornava tudo ainda mais perturbador.

Ao fundo, outras portas levavam para espaços que eu ainda não conseguia ver.

Provavelmente banheiro.

Closet.

Talvez mais alguma coisa.

Era uma suíte.

Grande.

Curva.

Luxuosa.

E cercada demais por vidro.

Dei mais alguns passos, devagar, tentando encaixar mentalmente aquela arquitetura absurda.

À esquerda, o jardim.

À direita, a piscina.

Atrás de mim, a porta pela qual eu havia entrado.

À minha frente e acompanhando boa parte da lateral interna da suíte, o vidro negro.

Meu estômago apertou.

— Onde eu estou?

Mikhail permaneceu perto da entrada.

— No lugar onde ele queria você.

Virei para encará-lo.

— Ele quem?

Antes que Mikhail respondesse, alguma coisa aconteceu na parede escura à minha frente.

Parei de respirar por um instante.

O negro começou a desaparecer lentamente.

Não como uma cortina sendo aberta. A própria superfície parecia mudar. Meu reflexo foi perdendo força até que formas surgiram atrás dele.

Primeiro luz.

Depois móveis.

Um ambiente inteiro que estivera escondido a poucos metros de mim.

Do outro lado daquele vidro havia outro espaço.

Escuro, elegante, masculino.

E perfeitamente alinhado com a piscina à minha direita.

No fundo, uma silhueta apareceu.

Um homem.

Imóvel.

Alto.

Largo.

Esperando.

Ele não precisou se aproximar para que eu soubesse que estava olhando diretamente para mim.

O vidro terminara de clarear, mas a sensação não era de que uma parede tivesse desaparecido.

Era pior.

Era como descobrir que ela nunca tinha servido para me proteger.

E, pela primeira vez desde que me colocaram naquele carro, Mikhail não olhou para o relógio.

— Konstantin.

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