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POV: ALICE
Faltavam três dias para eu completar vinte anos quando meu pai resolveu que eu não deveria mais caminhar sozinha nem dentro do condomínio.
Ele não disse exatamente dessa forma. Vittorio Bellandi nunca dizia as coisas da forma como realmente eram. Ele embrulhava ordens em palavras bonitas, apertava o laço com alguma justificativa sobre segurança e esperava que eu agradecesse pelo presente.
— Giacomo pode acompanhar você pela manhã — falou, sem levantar os olhos do tablet. — Se quiser caminhar.
Eu estava sentada à outra ponta da mesa de café, ainda de pijama, com uma caneca de chocolate esfriando entre as mãos.
— Dentro do condomínio?
— Sim aqui é muito grande.
— Também tem uma muralha, câmeras e seguranças em três portarias.
Ele deslizou o dedo pela tela. Ciente do meu estranhamento.
— Ainda assim.
Aquilo encerrava a conversa.
Vittorio fazia isso desde que eu conseguia lembrar: estabelecia uma regra, permitia que eu fingisse estar discutindo e, quando achava que já havia me cansado o suficiente, terminava com duas palavras ditas em voz baixa.
Ainda assim. Ou será assim.
Por isso eu estudava Relações Internacionais por uma universidade que conhecia principalmente pela tela do meu notebook. Por isso meu melhor conhecimento sobre festas universitárias vinha das reclamações de Bianca, uma colega de curso que me mandava vídeos às três da manhã. Por isso eu sabia pedir comida em quatro idiomas, discutir política comercial europeia e fazer uma apresentação de quarenta minutos sobre corredores logísticos, mas não saberia dizer quanto custava uma taça de vinho num bar comum.
Eu nunca estivera em um.
Meu pai chamava aquele cuidado de privilégio.
Às vezes eu chamava de superproteção.
Em dias como aquele, quando via o jardim enorme do lado de fora e precisava avisar a um segurança que pretendia dar duas voltas no quarteirão, outros nomes me vinham à cabeça.
Nenhum deles eu dizia em voz alta.
— Seus documentos estarão prontos amanhã — ele acrescentou.
Olhei para ele.
— Que documentos?
Foi a primeira vez que ele ergueu os olhos.
Vittorio era um homem bonito para alguém com quase cinquenta anos. Cabelos escuros começando a ganhar fios grisalhos nas laterais, ternos feitos sob medida mesmo quando trabalhava em casa e aquela expressão permanentemente tranquila de quem nunca precisava elevar a voz porque sempre conseguia o que queria.
— Algumas atualizações societárias.
— Minhas?
— Da família.
— E por que eu preciso assinar?
Um quase sorriso apareceu.
— Porque você vai fazer vinte anos, Alice. Existem formalidades.
— Formalidades que ninguém lembrou de mencionar até três dias antes do meu aniversário?
— Não imaginei que estivesse interessada nos negócios da família.
— Talvez eu não esteja. Mas gosto de saber o que está acontecendo.
Ele colocou o tablet sobre a mesa.
Dessa vez consegui sua atenção completa.
— Naturalmente.
Não gostei da forma como disse.
— Posso ler pelo menos?
— É claro que sim.
O silêncio que veio depois pareceu muito maior do que aquela pergunta merecia.
Eu apoiei o queixo na mão.
— Você faz essa cara sempre que eu faço uma pergunta que não deveria?
— Que cara?
— Essa.
— Estou apenas olhando para você.
— Exatamente.
Ele riu, finalmente.
Vittorio conseguia ser carinhoso quando queria. Talvez fosse isso que tornasse tão difícil explicar para os outros o desconforto que às vezes eu sentia perto dele. Nunca me faltara nada. Tive professores particulares, roupas, livros, computadores, viagens quando era criança. Nunca precisei me preocupar com dinheiro. Quando fiquei doente, ele dormiu numa poltrona do meu quarto durante duas noites.
Eu o amava.
Também sabia que ele tinha transformado preocupação em uma coleira tão cedo que eu não lembrava como seria viver sem senti-la no pescoço.
— Tome café — disse. — E não faça essa expressão dramática. São documentos, não um contrato com o diabo.
— O diabo costuma avisar?
O sorriso desapareceu por meio segundo.
Depois ele voltou ao tablet.
— Aos vinte anos eu esperava que você já tivesse superado essa fase de responder a tudo.
— Ainda tenho três dias. Posso aproveitar.
Peguei minha caneca e me levantei.
— Alice.
Parei.
— Ricardo jantará conosco amanhã.
Meu estômago se contraiu antes mesmo que eu entendesse por quê.
— Por quê?
— Porque o convidei.
— Isso eu consegui deduzir.
— Ele gosta de você.
— Ricardo gosta de vinho caro, cavalos, relógios e de explicar coisas que ninguém perguntou.
— Ele é um bom homem.
Virei devagar.
— Pai...
— Não estou dizendo nada.
Era exatamente o problema.
Vittorio nunca dizia.
Ele preparava.
Ricardo Moretti tinha trinta e dois anos, trabalhava com meu pai e havia começado, nos últimos meses, a aparecer em situações em que sua presença parecia casual demais para realmente ser casual. Jantares. Um almoço. Um concerto para o qual meu pai misteriosamente comprara três ingressos e, na última hora, alegara uma reunião.
Ricardo era educado comigo.
Eu não gostava dele. Não romanticamente.
Não havia nada concretamente errado que pudesse apontar sem parecer infantil. Apenas alguma coisa no modo como ele olhava, como se esperasse pacientemente que eu terminasse de crescer.
— Não quero namorar o Ricardo.
Meu pai suspirou.
— Ninguém falou em namoro.
— Ótimo.
— Você poderia, pelo menos, permitir que alguém se aproximasse.
— Eu mal posso sair de casa. Onde exatamente eu encontraria outra pessoa?
Ele voltou a encarar o tablet.
— Talvez esse seja o problema.
Eu quase ri.
O problema.
Subi antes que transformasse aquilo numa discussão que eu já sabia que perderia.
Meu quarto ocupava boa parte do segundo andar da casa. Vittorio reformara tudo quando fiz dezesseis anos, dizendo que eu precisava de independência. Eu ganhara uma pequena sala, mesa de estudos, banheiro, closet e uma varanda que dava para o jardim.
Independência com três câmeras no corredor.
Fechei a porta.
— Três dias para fazer vinte e meu pai já escolheu o marido — murmurei.
Tinha mania de falar sozinha. Sempre tivera.
Talvez porque passei tempo demais sem alguém da minha idade por perto.
Liguei o notebook, mas não abri as aulas. Em vez disso, fiquei diante da estante procurando qualquer coisa que me distraísse.
Foi quando meus dedos tocaram a lombada azul desbotada.
Alice Através do Espelho.
O livro estava ali havia tanto tempo que eu não sabia dizer quando se tornara meu. As bordas estavam gastas e havia pequenas marcas na capa que meu pai dizia serem resultado da minha mania infantil de carregar livros para todos os lugares.
Abri numa página aleatória.
Algumas anotações antigas apareciam perto das ilustrações.
Eu nunca soubera se eram minhas.
Traços.
Uma letra torta.
Uma sequência que parecia escrita ao contrário.
Quando criança eu tentara várias vezes entender aquilo. Depois perdi o interesse.
Sentei na cama com o livro aberto sobre as pernas.
A Alice dos livros tinha atravessado lugares impossíveis, conversado com criaturas absurdas e reclamado bastante durante o processo.
Eu, aparentemente, não conseguia atravessar nem o portão de casa sem informar meu destino.
Fechei o livro.
— Definitivamente a Alice errada.
Sorri sozinha da própria idiotice.
O celular vibrou.
Uma mensagem de Bianca.
AMANHÃ VAMOS SAIR. NÃO ACEITO NÃO. SEU ANIVERSÁRIO É ESSA SEMANA.
Ri.
Digitei:
Meu pai vai dizer não.
Ela respondeu imediatamente.
VOCÊ TEM VINTE ANOS.
Quase.
Fiquei olhando para aquela frase.
Vinte anos.
Eu deveria me sentir adulta.
Não me sentia.
Nunca tivera namorado. Nunca voltara para casa bêbada. Nunca beijara ninguém escondida numa festa. Nunca pegara um trem sozinha para uma cidade desconhecida. Nunca fizera metade das coisas que as pessoas da minha idade pareciam considerar completamente comuns.
Às vezes eu pensava que havia alguma coisa errada comigo.
Em outras, percebia que talvez simplesmente nunca tivessem me dado oportunidade suficiente para descobrir.
Meu telefone vibrou outra vez.
Não era Bianca.
Era uma mensagem do meu pai.
Amanhã, 10h. Escritório. Os documentos estarão aqui.
Fiquei olhando para a tela.
Depois para o livro sobre minha cama.
Depois para o jardim do lado de fora.
Por algum motivo que eu não saberia explicar, um desconforto frio deslizou pela minha nuca.
Levantei e tranquei a porta do quarto, embora ninguém naquela casa tivesse o hábito de entrar sem bater.
Ainda assim.
POV: KONSTANTINMikhail me encontrou no caminho entre a mansão e o anexo.Não disse boa-noite.— Alice.Uma palavra.Foi suficiente.— O quê?— As mãos.Acelerei.— O que aconteceu?— Bateu no vidro.— Uma vez?Mikhail não respondeu.A porta biométrica abriu antes que eu chegasse.Vi o sangue primeiro.Não era muito.Isso não ajudou.Marcas avermelhadas estavam espalhadas na parte inferior do vidro externo. Uma linha mais escura descia pela superfície até quase o piso.Alice estava adormecida junto à parede.Ou desacordada.A distinção desapareceu por alguns segundos.Ajoelhei.— Alice.Nenhuma resposta.Toquei o pescoço.Pulso normal.Respiração regular.Marta apareceu atrás de mim.— Ela adormeceu.Olhei para ela.— Tem certeza?— Eu estava aqui até quinze minutos atrás. Chorou, ficou exausta e dormiu.As mãos estavam no colo.Inchadas.Os nós dos dedos abertos.A palma direita tinha dois cortes superficiais onde provavelmente escorregara contra a junção do vidro.— Médico.— Já est
POV: ALICENa quarta-feira à tarde, apareceram flores suficientes na propriedade para organizar um casamento.Não o meu, felizmente.Marta entrou na redoma carregando uma caixa de louça e encontrou meu rosto praticamente colado ao vidro do jardim.— Quem morreu?— Ninguém.— Então por que tem gente montando mesa lá fora?Ela pousou a caixa.— Jantar.— Eu consigo ver.O jardim, normalmente silencioso, havia mudado completamente. Homens carregavam mesas altas, luminárias e arranjos discretos. Uma equipe passava pelo caminho de pedra com bandejas cobertas. Perto da mansão, dois carros pretos pararam em sequência.— Jantar com quarenta pessoas?— Reunião com comida.— Ah. Crime organizado com canapé.Marta me lançou um olhar.— Não fala isso perto de ninguém.— Por quê? Eles preferem “networking”?Ela abriu uma gaveta.— Vai me ajudar ou pretende ficar assistindo?— Eu não fui convidada.— Isso responde minha pergunta?Virei.— Quem vem?— Gente que trabalha com Konstantin.— Que tipo de
POV: KONSTANTINAdrian precisou de doze minutos para me dizer que não tinha uma resposta.Considerei um desperdício de onze.Ele estava sentado diante da minha mesa com uma xícara de café que não tinha pedido e o mesmo nível de tranquilidade que mantinha quando Alice o insultava. Luca ocupava a poltrona ao lado, lendo pela segunda vez o relatório que recebera naquela manhã. Mikhail estava perto da janela, falando baixo ao telefone sobre o armazém incendiado dois dias antes.Eu deveria estar concentrado no incêndio.Dois homens feridos. Uma carga perdida. Três contratos temporariamente suspensos. Material ligado a Bellandi encontrado dentro de um veículo abandonado a seis quilômetros do local.Problemas concretos.Em vez disso, eu estava ouvindo um psiquiatra explicar por que uma garota de vinte anos talvez não estivesse mentindo para mim.— Não disse que ela não sabe — Adrian corrigiu.— Acabou de passar dez minutos dizendo exatamente isso.— Não. Passei dez minutos dizendo que, até a
POV: ALICENa terça-feira, Marta me mandou limpar o quarto de Konstantin.Pensei que fosse piada.— Não.Ela colocou uma pilha de toalhas nos meus braços.— Sim.— Eu prefiro limpar os banheiros.— Mentira.— Prefiro lavar o chão com escova de dentes.— Também mentira.— Prefiro ser sequestrada por outra pessoa.Marta finalmente me olhou.— Essa talvez seja verdade.— Não vou entrar no quarto dele.— Já passou três dias tentando descobrir como chegar ao núcleo privado.Fiquei em silêncio.Ela ergueu uma sobrancelha.— Eu estava estudando a arquitetura.— Claro.Seguimos pelo corredor.Desde o incêndio no armazém, a casa estava mais tensa. Mikhail dormira, aparentemente, três horas. Tomás tinha sido substituído duas vezes durante a noite. Konstantin desaparecera boa parte do dia anterior e só voltara perto das duas da manhã.Eu sabia porque ainda estava acordada.Não porque esperasse.Porque não conseguia dormir.Essa era a versão oficial.Marta passou a mão pelo leitor.A porta do núc
POV: ALICEAdrian chegou na segunda-feira às três e dois.Eu já estava esperando.Não por ele.Pelo chá.Quando entrou carregando a mesma caixa, apontei.— Isso está ficando ridículo.Ele olhou para a caixa.— O chá?— Você.— Isso parece mais amplo.— É.Sentou.Eu permaneci no sofá.Nesses dois dias desde que vi Eva sair do quarto de Konstantin com a expressão suficientemente tranquila para me fazer entender que adultos sexualmente funcionais faziam coisas que eu só conhecia por teoria, eu tinha desenvolvido uma nova atividade favorita.Negar que me importava.Não estava funcionando.— Hoje não vou passar uma hora aqui — avisei.Adrian colocou a caixa sobre a mesa.— Tudo bem.Eu esperava resistência.— Tudo bem?— Você imaginou que eu chamaria os seguranças?— É uma idéia.Ele escolheu chá preto.— Quanto tempo pretende ficar?— Dez minutos.Adrian olhou para o relógio.— Certo.— Só isso?— Nove minutos e cinquenta e três segundos.Eu quase ri.— Você e Mikhail seriam muito felize
POV: KONSTANTINEva Conti chegou às dezenove e dez.Eu havia esquecido que viria.Isso, sozinho, já era um problema.Eu não esquecia compromissos.Ela entrou pela sala lateral usando um vestido preto simples, casaco claro e a tranquilidade de quem já tinha atravessado aquela casa vezes suficientes para não olhar para seguranças, câmeras ou portas biométricas.Eva tinha trinta e quatro anos, administrava uma empresa de consultoria que não dependia de mim e nunca fingira interesse em transformar nossa relação em outra coisa.Era exatamente por isso que funcionava.— Você esqueceu — disse quando me viu.— Não.Ela tirou o casaco.— Vocêestá me recebendo aqui no anexo... Você está sem paletó, o jantar ainda não chegou e Mikhail me recebeu dizendo “boa sorte”. Você esqueceu.— Tive uma semana complicada.— Eu ouvi versões.Meu olhar endureceu.Eva percebeu.— Não perguntei.Essa era outra razão.Ela sabia onde não entrar.Marta apareceu na porta.— Jantar em quinze minutos.— Obrigada.Ent







