LOGINPOV: ALICE
O primeiro pensamento que tive quando vi Konstantin foi completamente inadequado para a situação.
Ele era jovem demais. Ou pelo menos era o que aparentava.
Eu esperava um velho.
Talvez porque homens que sequestravam garotas de dezenove anos — ainda faltavam três dias para os vinte — deveriam ter alguma característica externa que denunciasse imediatamente que eram monstros.
Konstantin não tinha.
Era alto. Muito.
Vestia camisa escura com as mangas dobradas abaixo dos cotovelos e calça preta. Cabelos castanho-escuros, quase pretos, um pouco compridos na parte de cima. Barba curta, bem cuidada. Ombros largos. Nenhuma pressa no modo como atravessava o espaço do outro lado do vidro.
Ele parecia um homem que teria uma mesa reservada no melhor restaurante da cidade.
Não alguém que mandara me arrancar de casa.
Isso me deu ainda mais medo.
A parede transparente nos separava.
Olhei ao redor.
Só então compreendi onde realmente estava.
A palavra quarto não servia.
Era uma suíte inteira construída em forma curva, seguindo o contorno daquele núcleo de vidro. Havia cama, sofá, televisão, uma pequena biblioteca, lareira, mesa, closet. Mais adiante eu conseguia ver a porta de um banheiro.
Do lado externo, o jardim.
Do lado interno, ele.
Eu podia ver parte de um escritório atrás de Konstantin, a extremidade de uma cozinha e outra parede de vidro que parecia levar a uma piscina coberta.
Era lindo.
E não havia nenhuma porta que eu pudesse abrir.
Congelei sob seu olhar.
— Onde está a saída?
Konstantin não respondeu.
Bati no vidro.
— ONDE ESTÁ A SAÍDA?
Ele apertou alguma coisa no painel que segurava.
Uma porta que eu nem percebera deslizou na parede interna.
Ele entrou.
Dei três passos para trás.
Mikhail permaneceu do lado de fora.
Konstantin parou a alguns metros de mim.
O espaço pareceu diminuir.
Ele não era apenas alto. Era grande de um modo que me fazia sentir especialmente pequena naquela hora. Não parecia musculoso como homens de academia que posavam em fotos; parecia forte como alguém que realmente usava o próprio corpo para alguma coisa.
Meu olhar ficou preso nas mãos dele.
Grandes.
Sem anéis.
Uma cicatriz atravessava um dos nós dos dedos.
Percebi que estava olhando e subi imediatamente para seu rosto.
Ele percebeu também.
Ótimo.
Primeiros cinco segundos com meu sequestrador e eu estava analisando as mãos dele.
Talvez eu realmente fosse a pessoa mais idiota do mundo.
— Alice Bellandi.
A voz era baixa.
Sem sotaque forte, embora houvesse alguma coisa diferente no modo como pronunciava algumas consoantes.
— Quem é você?
— Konstantin Voronov.
— Eu deveria saber quem é?
Alguma coisa passou pelo rosto dele.
— Não.
— Ótimo. Então abre a porta e eu prometo continuar sem saber.
Ele deu mais um passo.
Recuei.
A boca dele se curvou apenas o suficiente para me irritar.
— Onde está a chave?
Esperei.
— O quê?
— A chave.
— Que chave?
A expressão mudou.
Não muito.
Mas o pouco que mudou foi suficiente.
— Vamos evitar isso.
— Evitar o quê?
— Você fingindo que não entende do que estou falando.
— Eu não estou fingindo. Não sei do que está falando.
Ele me observou como se eu fosse um problema matemático irritante.
— Sofia.
O nome não significou nada.
Meu rosto deve ter mostrado.
— Quem?
Konstantin aproximou-se.
— Sofia Voronov.
— Eu não sei quem é.
— Pense melhor.
— Eu não sei quem é!
Minha voz falhou na última palavra.
O medo estava voltando, agora misturado à irritação.
Ele tinha me sequestrado.
Me colocado numa caixa de vidro.
E estava bravo porque eu não reconhecia uma mulher chamada Sofia.
— Seu pai nunca mencionou esse nome?
— Não.
— Nunca falou de mim?
— Não.
— Nunca falou de uma chave?
— NÃO!
Ele segurou meu braço antes que eu percebesse que havia me aproximado demais.
Não machucou.
Mas o toque foi firme.
Parei.
Meu coração bateu violentamente.
A mão dele fechava quase todo o meu braço acima do cotovelo.
— Me solta.
Konstantin me encarou. Os olhos verdes e frios.
— Onde está?
— Eu não sei.
— Alice...
— EU NÃO SEI!
Puxei o braço.
Ele soltou.
Dei dois passos para trás. Cai sentada.
— Você é louco.
— Com certeza eu sou.
— Eu quero ir embora.
— Ainda não. Só depois que me disser tudo o que sabe.
— Meu pai vai procurar por mim.
— Já está procurando. Deixe que venha.
Senti um medo absurdo.
— Então você sabe que—
— Seu pai não vai entrar aqui.
A forma tranquila como falou me gelou.
— Você não conhece meu pai.
O olhar dele ficou frio.
— Conheço Vittorio melhor do que você imagina.
— Então sabe que está cometendo o maior erro da sua vida.
— Não. Não estou.
— Você sequestrou a filha dele!
Konstantin inclinou levemente a cabeça.
Havia alguma coisa estranha no silêncio que veio depois.
— Foi exatamente isso que fiz.
— Então o que você quer de mim?
— A verdade.
— Eu já estou dizendo!
— Não.
A raiva venceu o medo.
Apontei para ele.
— Escuta. Eu não sei quem é Sofia. Não sei quem você é. Não sei que chave idiota você está procurando. Eu estava em casa, estudando, e aquele psicopata de relógio—
Do lado de fora, Mikhail olhou para mim.
— ...me colocou num carro!
Konstantin quase sorriu.
— Mikhail não vai gostar do apelido.
— Que bom!
— Alice—
— Não fala meu nome!
Ele parou.
Aproximei-me do vidro.
Bati com a palma da mão.
— Abre isso.
Nada.
— Abre.
— Não.
— Você pegou a pessoa errada. Eu não sei de nada.
Virei para ele.
Meus olhos ardiam.
O pânico estava começando a vencer outra vez.
— Você está procurando alguém que sabe alguma coisa. Eu não sei. Então você pegou a garota errada.
Ele ficou imóvel.
Eu engoli em seco.
— Você pegou a Alice errada.
Konstantin se aproximou lentamente.
Parou tão perto que precisei erguer o rosto para encará-lo.
— Seu nome é Alice?
— Sim.
— Alice Bellandi?
— Sim.
O olhar dele percorreu meu rosto.
Não de uma forma sensual.
Pior.
Como se estivesse confirmando alguma coisa.
— Então peguei a Alice certa.
Meu estômago virou.
— Eu não sei de nada.
— Vai saber.
— Você vai me manter aqui até eu inventar alguma coisa?
— Vou manter você aqui até entender por que minha esposa morreu dizendo seu nome.
O mundo pareceu inclinar.
Fiquei olhando para ele.
— Sua esposa?
Pela primeira vez, alguma emoção atravessou o rosto de Konstantin sem que ele conseguisse escondê-la.
Dor.
Tão rápida que talvez eu tivesse imaginado.
— Sofia.
Olhei para ele.
Depois para Mikhail.
Depois para o jardim.
Meu corpo começou a tremer.
Konstantin me observou durante alguns segundos.
Depois se afastou.
— Você vai jantar às oito.
Eu ri, incrédula.
— Jantar?
Ele caminhou em direção à porta.
— Precisa comer.
— Você me sequestra e acha que eu vou jantar?
— Você vai.
— Eu não vou comer nada dessa casa.
Ele parou junto à passagem.
Olhou para mim.
— Vai sentir fome.
— Eu posso morrer aqui antes.
Silêncio.
Meu coração bateu mais forte.
Eu não pretendia dizer aquilo.
Konstantin também pareceu perceber.
Ele poderia ter respondido.
Poderia ter dito que eu não morreria.
Não disse.
— Depende de você.
A porta começou a fechar.
Corri.
— O que isso quer dizer?!
O vidro se fechou antes que eu chegasse.
Bati com as duas mãos.
— KONSTANTIN!
Ele continuou andando.
— VOCÊ VAI ME MATAR?
Nenhuma resposta.
— KONSTANTIN!
O vidro entre nós escureceu.
Em segundos, meu próprio reflexo tomou o lugar dele.
Eu estava sozinha.
Ou, pelo menos, foi o que pensei.
POV: KONSTANTINEva Conti chegou às dezenove e dez.Eu havia esquecido que viria.Isso, sozinho, já era um problema.Eu não esquecia compromissos.Ela entrou pela sala lateral usando um vestido preto simples, casaco claro e a tranquilidade de quem já tinha atravessado aquela casa vezes suficientes para não olhar para seguranças, câmeras ou portas biométricas.Eva tinha trinta e quatro anos, administrava uma empresa de consultoria que não dependia de mim e nunca fingira interesse em transformar nossa relação em outra coisa.Era exatamente por isso que funcionava.— Você esqueceu — disse quando me viu.— Não.Ela tirou o casaco.— Vocêestá me recebendo aqui no anexo... Você está sem paletó, o jantar ainda não chegou e Mikhail me recebeu dizendo “boa sorte”. Você esqueceu.— Tive uma semana complicada.— Eu ouvi versões.Meu olhar endureceu.Eva percebeu.— Não perguntei.Essa era outra razão.Ela sabia onde não entrar.Marta apareceu na porta.— Jantar em quinze minutos.— Obrigada.Ent
POV: KONSTANTINNeri apareceu morto na sexta-feira às vinte e duas e quarenta.Mikhail não tentou transformar a informação em algo menos desagradável.Colocou a fotografia sobre minha mesa, afastou a cadeira e esperou.Eu olhei apenas o necessário.— Onde?— Estrada secundária, quarenta quilômetros ao sul. Um agricultor encontrou.— Alguma assinatura?— Nenhuma que possamos provar.Não precisava.Neri desaparecera poucas horas depois de ajudarmos Alice a sair da casa de Vittorio. Bellandi não costumava desperdiçar mensagens quando podia produzir exemplos.Afastei a fotografia.— Família?— Segura.— Compense.— Já está feito.O sistema da redoma permanecia minimizado no monitor lateral. Eu havia passado o dia inteiro evitando abri-lo sem necessidade.A palavra necessidade começava a ficar incômoda.Alice tinha circulado pela casa durante horas, memorizado portas, inventado um trabalho universitário ridiculamente transparente para registrar horários e passado três vezes diante do mesmo
POV: ALICENa manhã seguinte ao meu aniversário, descobri que vinte anos não vinham acompanhados de nenhuma habilidade especial para lidar com sequestradores, documentos suspeitos ou homens que encostavam a mão do outro lado de uma parede de vidro e conseguiam bagunçar pensamentos que eu preferia manter perfeitamente separados.Konstantin continuava sendo o homem que tinha me arrancado de casa, me trancado numa redoma e decidido que a minha liberdade dependia de respostas que eu não possuía. Também continuava sendo o homem que, na noite anterior, tinha dito talvez quando anunciei que sairia dali.Eu não sabia qual das duas coisas me incomodava mais.Talvez era diferente de não.Talvez significava que alguma coisa tinha mudado, mesmo que eu não soubesse o quê.E, quando não se tinha informação suficiente para entender um homem como Konstantin Voronov, restavam duas opções: enlouquecer tentando adivinhar ou começar a coletar informação melhor.Escolhi a segunda.Marta apareceu às oito e
POV: KONSTANTINAlice completou vinte anos numa quinta-feira.Às seis e quarenta e dois Vittorio enviou a primeira mensagem.Hoje ela faz vinte.Às seis e cinquenta e nove veio a segunda.Você não entende o que começou.Eu começava a entender.Mikhail colocou uma fotografia sobre minha mesa. Ricardo Moretti estava ao lado de Santoro num aeroporto privado.— Três horas atrás.— Luca?— Já está trabalhando.— Segurança norte?— Reforçada.— Jardim?— Também.— Redoma?Mikhail respirou pelo nariz.— Dois homens em cada acesso. Se colocar mais, ela vai precisar pedir licença para respirar.— Então mantenha dois.Ele me observou.— Estou começando a reconhecer evolução.— Nada a ver.Marta entrou sem bater.— Quero um bolo.— Não.— Ela faz vinte anos.— Eu sei disso.— Então, bolo.Continuei lendo.Marta estava trabalhando nesta casa já a anos. Confiava muito nela, mesmo quando ela tinha opinião própria e queria explanar ela. Nesses momentos, gostava um pouco menos.— Qual exatamente é a
POV: ALICEO homem que entrou na redoma às três e sete carregava uma caixa de chá.Depois de Mikhail e o relógio, aquilo parecia quase uma provocação literária.Devia ter pouco mais de quarenta anos, cabelos começando a clarear nas têmporas e uma postura tranquila demais para alguém que atravessava a porta de uma prisão particular como se estivesse chegando a uma consulta normal.— Alice Bellandi?— Infelizmente.— Adrian Morel.— O psiquiatra.Ele olhou para a poltrona.— Posso sentar?A pergunta me pegou desprevenida.— A casa não é minha.— Não perguntei de quem é a casa.Olhei melhor para ele.— Pode.Adrian sentou e colocou a caixa sobre a mesa.— Preto, verde ou camomila?— Isso é técnica?— Chá?— Aparecer parecendo normal para eu esquecer que foi contratado pelo homem que me sequestrou.Ele considerou a frase antes de responder.— Não acho sua situação normal.— Já é mais do que ouvi de muita gente aqui.Escolheu chá verde para si.Eu pedi água.— Konstantin quer saber se eu e
POV: ALICENo dia seguinte, a internet voltou às oito da manhã.Não houve aviso, pedido de desculpas ou conversa. Simplesmente funcionava outra vez, o que era uma maneira muito Konstantin de lembrar que até a devolução de algo podia parecer demonstração de poder.A piscina também tinha deixado de ser proibida. Segundo Marta, isso não significava que eu poderia ir até ela quando quisesse.— Então qual exatamente é o benefício?— Você pode pedir.— Estou emocionada.Ela colocou uma pilha de guardanapos em meus braços.— Usa a emoção para dobrar isso.Depois do dia anterior, eu tinha prometido a mim mesma uma coisa: nenhuma nova tentativa seria feita porque uma porta aparecera aberta por acaso.Por isso acompanhei Marta sem protestar quando saímos da redoma.Dessa vez eu não corri.Observei.A primeira porta ficava liberada pouco menos de quatro segundos. A segunda exigia a palma inteira de Marta. Na terceira, Tomás olhava automaticamente para uma câmera instalada num ponto onde eu não t







