LOGINSaí do quarto sem olhar para trás.
Eu não confiava em mim mesmo para encarar Salomé por mais um segundo. Se continuasse ali, provavelmente acabaria implorando. Talvez me ajoelhasse diante dela, pedisse que reconsiderasse e prometesse mudar tudo o que fosse necessário. Mas alguma coisa dentro de mim dizia que nada do que eu falasse seria suficiente. Caminhei pelo corredor com passos pesados. A casa, que durante anos havia sido o nosso lar, parecia estranhamente grande naquela noite. As paredes guardavam fotografias nossas, lembranças de momentos que, até poucas horas antes, representavam felicidade. Agora, cada imagem parecia zombar de mim. Parei diante do quarto de Felícia. Abri a porta apenas o suficiente para enxergá-la. Minha filha dormia tranquilamente. Seu pequeno peito subia e descia em um ritmo sereno, completamente alheio à tempestade que acontecia dentro daquela casa. Fiquei ali, parado. Como eu iria explicar? Como poderia dizer a uma criança que sua mãe havia decidido partir? Como explicar que, um dia, Salomé simplesmente percebeu que já não era feliz ao meu lado? Felícia ainda era pequena demais para compreender a palavra abandono. Mas, algum dia, ela perguntaria. Talvez quisesse saber por que a mãe não estava ali em seu aniversário. Por que não aparecia nas apresentações da escola. Por que outras crianças tinham pai e mãe juntos enquanto ela tinha apenas um deles. Fechei os olhos. Uma lágrima escapou antes que eu pudesse impedi-la. Entrei no quarto e me aproximei do berço. Passei os dedos delicadamente pelos cabelos de Felícia. — Eu vou cuidar de você, minha pequena — sussurrei. — Mesmo que seu pai não saiba como continuar, eu vou cuidar de você. Beijei sua testa. Depois, saí. Desci as escadas lentamente e fui até a sala do andar de baixo. A casa estava silenciosa. Silenciosa demais. Deitei-me no enorme sofá que costumávamos usar nas noites em que assistíamos a filmes. Lembrei-me de Salomé deitada ao meu lado, com a cabeça apoiada em meu peito, enquanto reclamava que eu sempre escolhia filmes ruins. Naquela época, eu teria dado qualquer coisa para voltar a uma noite comum. Qualquer coisa. Na mesa de centro havia uma garrafa de uísque. Olhei para ela durante alguns segundos. Salomé detestava que eu bebesse. Eu quase nunca bebia em casa. Mas, naquela noite, a garrafa parecia me oferecer exatamente aquilo de que eu precisava: silêncio. Estendi a mão e servi um copo. O líquido âmbar refletiu a luz fraca da sala. Levei-o aos lábios. O primeiro gole queimou minha garganta. Não fez a dor desaparecer. Então tomei outro. E outro. Até ouvir o som de pequenas rodas deslizando pelo piso. Levantei os olhos. Salomé estava descendo as escadas. Uma mala de rodinhas estava ao seu lado. Meu coração parou. — Você vai mesmo embora? Ela parou no último degrau. Segurava a alça da mala com força. Seus olhos estavam vermelhos de tanto chorar, mas havia determinação em seu rosto. — Sim. Aquela única palavra me atingiu com uma força que nenhum golpe seria capaz de produzir. — Agora? — Acho melhor assim. Levantei-me do sofá. — Salomé, por favor. Ela fechou os olhos. — Grego... — Não faça isso. Aproximei-me. — Pelo menos fique até amanhã. Pense melhor. Podemos conversar com calma. — Eu já pensei. — Então pense novamente. Minha voz começou a falhar. — Nós temos uma filha. Temos uma história. Temos uma vida juntos. Ela chorou. — Eu sei. — Então por que está fazendo isso? — Porque continuar seria pior. Balancei a cabeça. — Não acredito nisso. — Eu sinto muito. — Não quero que você sinta muito. Quero que fique. Salomé levou uma mão à boca para conter o choro. — Você não entende. — Então me faça entender! Minha voz ecoou pela sala. — O que eu fiz de tão errado? Eu trabalhei demais? Fiquei ausente? Se foi isso, eu posso mudar. Quer que eu largue a empresa? Eu largo. Quer viajar? Vamos viajar. Quer começar uma vida em outro lugar? Nós podemos fazer isso. Ela me olhou com tristeza. — Não é você. — Então quem é? Ela respirou fundo. — Sou eu. Soltei uma risada amarga. — Essa frase não significa nada. — Eu não sei mais quem sou, Grego. — Você é minha esposa. Ela balançou a cabeça. — Eu era. Aquela palavra acabou comigo. Era. Como se nosso casamento já pertencesse ao passado. — Salomé... Ela se aproximou e segurou minha mão. Por alguns segundos, pensei que talvez tivesse mudado de ideia. Mas ela apenas apertou meus dedos. — Eu amei você. Amei. Não amo. Amei. O passado daquela palavra me destruiu. — E ainda ama? Ela demorou a responder. — Não sei. Soltei sua mão. Não porque quisesse. Mas porque não suportava mais ouvir aquilo. Salomé pegou a mala. Antes de sair, olhou para as escadas. — Cuide da Felícia. Meu peito apertou. — Você também é mãe dela. Ela fechou os olhos. — Eu sei. — Então não vá. As lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto dela. Por um instante, achei que ficaria. Mas Salomé apenas pegou a mala e caminhou até a porta. Eu não a segui. Talvez porque alguma parte de mim ainda esperasse que ela voltasse. Talvez porque soubesse que, se a acompanhasse, acabaria implorando novamente. A porta se fechou. E, naquele instante, a minha família deixou de existir da maneira como eu a conhecia. --- Não sei em que momento adormeci. Quando abri os olhos na manhã seguinte, a primeira coisa que senti foi uma dor terrível no peito. A luz do sol atravessava as cortinas e iluminava a sala. Tudo estava exatamente como antes. Mas nada era igual. A casa continuava ali. Os móveis. As fotografias. Os brinquedos de Felícia. As flores que eu havia comprado para Salomé. Tudo permanecia no mesmo lugar. Menos ela. Estendi a mão para o outro lado do sofá por puro reflexo. Vazio. Fechei os olhos. O eco da risada dela ainda existia dentro da minha cabeça. Lembrei-me de nossas noites juntos, das conversas intermináveis, dos planos para o futuro, das promessas feitas quando éramos jovens demais para entender o peso da palavra eternidade. Levantei-me com dificuldade. A garrafa de uísque ainda estava sobre a mesa. Eu deveria jogá-la fora. Em vez disso, servi outro copo. O líquido desceu queimando minha garganta. Não queria sentir. Não queria lembrar. Não queria aceitar. Então bebi. Quando ouvi a porta da frente se abrir, não me dei ao trabalho de levantar a cabeça. Passos se aproximaram. — Grego? Reconheci imediatamente aquela voz. Máximo. Meu irmão mais novo. Ele entrou na sala e parou ao me ver. Havia copos vazios espalhados pela mesa. A garrafa estava quase pela metade. Eu provavelmente parecia um homem que havia passado a noite inteira tentando destruir a própria memória. Máximo me encarou. — Você está bem? Soltei uma risada amarga. — Estou ótimo. Ele não acreditou. Nunca acreditava nas minhas mentiras. Máximo era o mais responsável de nós dois. Enquanto eu sempre fui impulsivo, ele tinha uma maneira racional de enxergar as coisas. Naquele momento, porém, ele me olhava como se eu fosse um cristal prestes a se partir. — O que aconteceu? Peguei o copo novamente. — Nada. — Grego. — Salomé foi embora. As palavras saíram baixas. Máximo ficou em silêncio. Ele olhou para a escada. — Ela levou as coisas? Assenti. — Foi embora durante a noite. Meu irmão se aproximou e sentou-se na poltrona diante de mim. — E Felícia? Meu olhar foi imediatamente para o andar de cima. — Está dormindo. Máximo passou a mão pelo rosto. — Você não pode continuar assim. Olhei para a garrafa. — Posso. — Não pode. — Ela era o amor da minha vida, Máximo. Minha voz quebrou. — Eu construí tudo pensando nela. Nossa casa, nossa família... tudo. Ele permaneceu em silêncio. — E agora não sei o que fazer com tudo isso. Máximo se levantou e veio até mim. Tirou o copo da minha mão. — Você tem uma filha. Aquelas palavras me atingiram mais do que qualquer conselho. Olhei para ele. — Eu sei. — Então não deixe que a partida dela leve você também. Baixei a cabeça. A verdade era que eu estava fugindo. Fugindo da dor. Fugindo das lembranças. Fugindo do homem que eu havia sido ao lado de Salomé. Eu não sabia como reconstruir minha vida sem ela. Então escolhi o caminho mais fácil. Afundei-me em garrafas. Porque o uísque não fazia perguntas. Não dizia que eu precisava ser forte. Não dizia que tudo ficaria bem. Apenas queimava minha garganta e, por alguns minutos, fazia o silêncio dentro da minha cabeça parecer suportável. Mas eu ainda não sabia que aquele primeiro copo seria apenas o começo da minha queda. E que, enquanto eu tentava esquecer Salomé, alguém inesperado entraria na minha vida e mudaria tudo o que eu acreditava saber sobre amor. Observação importante para a continuidade: esse final cria um ótimo gancho para a futura entrada da protagonista. E eu manteria Máximo como irmão mais novo de GregoA manhã em Paris havia começado com o céu encoberto, mas, dentro do hotel, a rotina de Grego e Máximo já estava em movimento. A última reunião da viagem havia terminado na noite anterior. Os contratos estavam praticamente fechados, os documentos revisados e os detalhes da nova coleção da Aslan Shoes encaminhados. Restava apenas voltar para casa. Grego fechou a pasta de couro e conferiu novamente o celular. Havia algumas mensagens da empresa, mas nenhuma de Nina. Ele franziu discretamente a testa. — Ainda nada? — Máximo perguntou, enquanto ajeitava o relógio no pulso. — Nada. — Você poderia ligar. Grego ergueu os olhos. — Para quem? — Para Nina. — Ela me avisaria se houvesse algum problema. Máximo segurou um sorriso. — Você acabou de olhar o celular pela quarta vez em menos de dez minutos. Grego ignorou o comentário. Pegou o paletó e vestiu-o. — Vamos. O carro os levou até o aeroporto executivo. Durante o trajeto, Grego permaneceu em silêncio, observando a cidade pel
O dia chegou com uma atmosfera diferente na mansão Montenegro. Felícia acordara cedo, como de costume, mas, ao contrário dos dias anteriores, não havia pressa para se arrumar para a escola. Naquela manhã, ela poderia permanecer de pijama, tomar café tranquilamente e passar o dia ao lado dos avós. Helena observava a neta sentada à mesa enquanto ela tentava escolher entre uma fatia de bolo e algumas frutas. — Vovó, posso comer os dois? Helena ergueu uma sobrancelha. — Se conseguir terminar os dois, pode. Felícia abriu um sorriso satisfeito. Augusto, sentado na outra extremidade da mesa, acompanhava a conversa em silêncio. — Essa menina tem um apetite impressionante. — Ela está crescendo — respondeu Helena. Felícia olhou para o avô. — Vovô, você também come bolo de manhã? Augusto sorriu. — Quando sua avó deixa. Helena lançou-lhe um olhar. — Não coloque a culpa em mim. Felícia começou a rir. A conversa continuou durante alguns minutos, e a menina parecia
A noite havia caído sobre a mansão Aslan. Sem Felícia correndo pelos corredores, a casa parecia diferente. Mais silenciosa, quase grande demais para a quantidade de pessoas que permanecia ali. Marilua havia passado boa parte da tarde organizando algumas coisas no quarto da menina e separando o material que precisaria levar para a mansão Montenegro caso Nina precisasse enviar alguma coisa. Felícia ficaria alguns dias com os avós maternos. Grego havia autorizado a visita, e tudo já estava combinado antes mesmo de sua viagem. Marilua sabia que não deveria se preocupar. Ainda assim, sentia falta da presença da menina. Era estranho. Havia poucos dias que começara a trabalhar naquela casa, mas a rotina com Felícia já começava a fazer parte de seus dias. Depois de conferir algumas roupas da menina, Marilua decidiu descer até a cozinha. Precisava de água. Quando entrou, encontrou Nina sentada à mesa, conferindo uma lista de tarefas. Beth estava perto da pia, terminando d
A tarde avançava tranquilamente na mansão Montenegro. Depois de mostrar a Felícia o antigo quarto de Salomé, Helena decidiu levá-la para a sala de dança. O ambiente permanecia praticamente intocado, preservado ao longo dos anos como uma lembrança de uma época que parecia pertencer a outra vida. Felícia entrou devagar. Seus olhos percorreram o grande espelho que ocupava uma das paredes, o piso de madeira perfeitamente conservado e a barra de apoio instalada próxima à janela. — Mamãe dançava aqui? Helena assentiu. — Dançava. Felícia se aproximou do espelho. — Ela era boa? Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Helena. — Era muito dedicada. Helena caminhou até uma das fotografias antigas que permaneciam sobre um aparador. Nela, Salomé aparecia ainda adolescente, usando uma roupa de balé e os cabelos presos em um coque. Felícia observou a fotografia por alguns segundos. — Ela era bonita. Helena ficou em silêncio por um instante. — Era. Não havia exagero em sua voz. Tampou
A tarde em Paris estava agradável, e, pela primeira vez desde que chegamos à França, Máximo conseguiu me convencer a deixar o hotel e as reuniões de lado por algumas horas. Caminhávamos às margens do rio, observando o movimento das pessoas e das embarcações que passavam lentamente pela água. — Você precisa aprender a aproveitar uma viagem de trabalho — Máximo comentou. Lancei um olhar para ele. — Estamos aqui para trabalhar. — Já trabalhamos o dia inteiro. — E ainda temos uma reunião amanhã. — Amanhã é outro dia. Balancei a cabeça. — Você não desiste. — Nunca. Continuamos caminhando. Máximo parecia mais descontraído do que de costume. Algumas mulheres que passavam por nós lançavam olhares discretos, e ele, como sempre, parecia se divertir com a situação. — Está vendo? — O quê? — Aquela mulher acabou de olhar para você. — E daí? — Nada. Só estou dizendo que ainda existe esperança. — Esperança de quê? — De você voltar a viver. Revirei os olhos. — Você deveria falar
O carro atravessou os enormes portões de ferro da propriedade dos Montenegro pouco depois do meio-dia. Felícia estava sentada no banco traseiro, observando tudo pela janela. Havia árvores altas dos dois lados da estrada particular, formando uma espécie de corredor natural até a mansão. O caminho era cercado por jardins cuidadosamente planejados, com roseiras, arbustos perfeitamente aparados e pequenas fontes de pedra espalhadas pela propriedade. A menina apertou o rosto contra o vidro. — Vovó, a casa de vocês é enorme! Helena Montenegro sorriu discretamente. Sentada ao lado da neta, ela segurou sua pequena mão. — É grande mesmo. — Maior que a casa do papai? Helena pensou por um instante. — Talvez. Felícia abriu um sorriso. — Quero conhecer tudo. — Vai conhecer. O carro finalmente parou diante da entrada principal. A mansão Montenegro era imponente. Construída em pedra clara, possuía três andares e grandes janelas arqueadas que refletiam a luz do dia. Uma escadaria larg







