LOGINO portão rangeu ao se abrir, e o som se espalhou pelo jardim impecavelmente cuidado. Apertei a pasta contra o peito enquanto o segurança fazia um breve gesto, autorizando minha entrada.
Respirei fundo antes de atravessar. Era difícil acreditar que eu realmente estava ali. O endereço que Nina havia me passado parecia pertencer a outro mundo. Desde que o ônibus me deixara algumas ruas antes, eu havia caminhado por uma região completamente diferente daquela em que morava. As casas enormes, os jardins perfeitamente cuidados e os carros luxuosos estacionados diante das propriedades deixavam evidente que aquelas pessoas não precisavam lidar com as mesmas preocupações que minha mãe e eu enfrentávamos. Principalmente com contas atrasadas. Apertei a alça da bolsa e caminhei até a guarita. O segurança me observou atentamente. — Posso ajudá-la? — Meu nome é Marilua. Vim para uma entrevista de emprego com o senhor Grego Aslan. A senhora Nina está me aguardando. Ele pegou o telefone e fez uma ligação rápida. Enquanto esperava, ajeitei o vestido e passei discretamente as mãos pelos cabelos. Meu coração estava acelerado. Era apenas uma entrevista, tentei me lembrar. Eu precisava daquele emprego. Poucos minutos depois, o segurança desligou o telefone. — Está autorizada a entrar. — Obrigada. O enorme portão começou a se abrir, e atravessei. A mansão dos Aslan ficava no final de uma longa alameda cercada por árvores e jardins. Quanto mais eu me aproximava, mais impressionada ficava. A construção era enorme, elegante e iluminada. Grandes janelas refletiam a luz dos jardins, enquanto colunas imponentes sustentavam a entrada principal. Havia flores por todos os lados. Rosas, lírios e outras espécies que eu sequer sabia identificar estavam distribuídas em canteiros perfeitamente cuidados. Um leve tremor percorreu meu corpo. Não era medo. Era nervosismo. Talvez aquela fosse a oportunidade que eu tanto precisava. Se conseguisse aquele emprego, poderia pagar a faculdade, ajudar minha mãe e finalmente concluir o curso. Apertei a pasta contra o peito. — Você consegue, Marilua. Subi os degraus da entrada. Antes de tocar a campainha, porém, meus olhos caíram sobre os sapatos vermelhos. Por um instante, lembrei-me do homem que havia me ajudado naquela manhã. Aquele desconhecido surgira justamente quando eu estava desesperada, percebeu meu problema e simplesmente me entregou um par de sapatos novos. Eu ainda não entendia por que havia feito aquilo, muito menos quem ele era. Afastei o pensamento. Não era hora para distrações. Toquei a campainha. O som ecoou pelo interior da mansão. Poucos segundos depois, a porta se abriu. — Marilua! Meu rosto se iluminou. — Nina! Ela abriu os braços e me abraçou com carinho. — Minha querida, você veio! — Claro que vim. — Entre. Eu estava esperando por você. Passei pela porta e fiquei impressionada novamente. O interior da mansão era ainda mais grandioso. O piso de mármore brilhava sob os lustres, enquanto vasos enormes com flores frescas decoravam o hall. Quadros ocupavam as paredes, e os móveis tinham uma aparência tão sofisticada que eu quase fiquei com receio de tocar em qualquer coisa. Algumas peças provavelmente custavam mais do que a nossa casa inteira. Nina percebeu meu olhar. — Não fique nervosa. — É difícil. Ela riu. — Você vai se acostumar. — Acho que não. Caminhamos pelo corredor. Meus saltos ecoavam sobre o mármore enquanto eu tentava controlar a ansiedade. Nina me conduziu até uma enorme sala de estar, onde havia sofás claros, uma lareira de pedra, uma mesa de centro de vidro e um piano de cauda em um dos cantos. — Sente-se aqui. Vou avisar ao senhor Grego que você chegou. — Está bem. Nina saiu. Sentei-me no sofá e segurei a xícara de chá que ela havia deixado sobre a mesa. Eu estava tão nervosa que mal conseguia sentir o sabor. Abri a pasta mais uma vez para conferir meu currículo e minhas referências. Tudo estava ali. Eu só precisava mostrar que era capaz. Foi então que ouvi passos. Levantei os olhos em direção à escada. Um homem começou a descer. Minha primeira impressão foi de que ele parecia pertencer completamente àquela casa. Era alto, elegante e tinha uma postura séria. Os cabelos loiros e compridos estavam presos para trás, deixando algumas mechas caírem discretamente ao redor do rosto. A barba loira era bem cuidada, e seus olhos verdes tinham uma intensidade que me fez prender a respiração por um instante. Ele usava um terno escuro perfeitamente ajustado, que destacava seu porte forte. Algumas tatuagens apareciam discretamente próximas ao pulso, sob a manga da camisa. Desceu os últimos degraus e caminhou em minha direção. — Marilua? Levantei-me imediatamente. — Sim. — Sou Grego Aslan. Meu coração acelerou. Então aquele era o homem de quem Nina havia falado. O pai de Felícia. O homem que estava procurando uma babá. — Prazer em conhecê-lo, senhor Grego. Ele estendeu a mão. — Prazer. Apertei sua mão. Seu aperto era firme, e seus olhos permaneceram sobre os meus por alguns segundos antes de ele se afastar. — Fico feliz que tenha vindo. — Obrigada pela oportunidade. Ele indicou o sofá. — Sente-se, por favor. Voltei a me sentar, enquanto ele ocupava a poltrona à minha frente. Abri minha pasta. — Trouxe meu currículo e algumas referências. Grego fez um pequeno gesto com a mão. — Não será necessário. Nina já me passou algumas informações sobre você. Assenti. — Mesmo assim, estou à disposição para responder a qualquer pergunta. Ele me observou por alguns segundos. — Você ainda está na faculdade? — Sim. Estou no último semestre. — E está de férias atualmente? — Sim. Ele assentiu. — Isso facilita as coisas. Precisarei fazer uma viagem a trabalho em breve. — Por quanto tempo? — Aproximadamente um mês. Fiquei surpresa. Um mês era bastante tempo. — Durante esse período, você precisará dormir aqui. — Entendo. — Naturalmente, haverá um valor adicional pela disponibilidade. — Está bem. Grego se levantou. — Venha. Quero mostrar a você a rotina da casa. Levantei-me e o acompanhei. Enquanto caminhávamos pelos corredores, ele explicou minhas possíveis responsabilidades. — Felícia acorda cedo e gosta de tomar café da manhã antes de ir para a escola. Depois, você deverá ajudá-la com os deveres, acompanhar as atividades e garantir que mantenha uma rotina organizada. — Certo. — Ela também gosta muito de desenhar. Sorri. — Eu gosto de desenhar. Ele me olhou de lado. — Então talvez vocês tenham algo em comum. — Espero que sim. Continuamos andando. A cada cômodo que eu conhecia, ficava mais impressionada. A biblioteca, principalmente, parecia maior do que toda a nossa casa. As estantes ocupavam quase todas as paredes e estavam repletas de livros. Uma enorme janela permitia uma vista privilegiada do jardim. Foi ali que encontrei Felícia. A menina estava sentada sobre o tapete, completamente concentrada em um desenho. Grego mudou imediatamente ao vê-la. A rigidez de seu rosto desapareceu, dando lugar a uma expressão muito mais suave. — Oi, minha querida. Felícia levantou os olhos. — Papai! Ela correu até ele. Grego se abaixou e a recebeu nos braços, beijando seus cabelos. — Como foi na escola? A menina fez uma pequena careta. — Papai, posso estudar em casa? Ele franziu a testa. — Como assim? Você sempre gostou de ir à escola. Felícia desviou o olhar. — Eu não quero mais ir. — Por quê? Ela permaneceu em silêncio por alguns segundos. Então, como se tivesse decidido mudar completamente de assunto, perguntou: — Papai, faz uma trança em mim? Grego suspirou. — Você está desconversando. Ela sorriu. — Eu adoro quando o senhor faz tranças no meu cabelo antes de dormir. Ele passou a mão delicadamente pelos cabelos da filha. — Podemos conversar sobre isso depois. Felícia assentiu. Fiquei observando os dois. Até aquele momento, Grego havia me parecido um homem rígido, sério e pouco acessível. Porém, diante da filha, ele parecia outra pessoa. Havia ternura em seus olhos e cuidado em cada gesto. Felícia era, claramente, a pessoa mais importante de sua vida. — Ela é uma menina muito linda — comentei. Grego ergueu os olhos para mim. — É tudo o que tenho de mais precioso. Aquelas palavras me tocaram. Naquele instante, percebi que aquele emprego talvez significasse muito mais do que cuidar de uma criança. Eu estaria entrando na rotina de uma família que carregava suas próprias dores, histórias e segredos. E ainda não fazia ideia do quanto minha vida mudaria a partir daquele momento. Eu não sabia que o verdadeiro desafio não seria conquistar a confiança de Felícia. Seria conviver diariamente com o homem que estava prestes a se tornar meu chefe.A manhã em Paris havia começado com o céu encoberto, mas, dentro do hotel, a rotina de Grego e Máximo já estava em movimento. A última reunião da viagem havia terminado na noite anterior. Os contratos estavam praticamente fechados, os documentos revisados e os detalhes da nova coleção da Aslan Shoes encaminhados. Restava apenas voltar para casa. Grego fechou a pasta de couro e conferiu novamente o celular. Havia algumas mensagens da empresa, mas nenhuma de Nina. Ele franziu discretamente a testa. — Ainda nada? — Máximo perguntou, enquanto ajeitava o relógio no pulso. — Nada. — Você poderia ligar. Grego ergueu os olhos. — Para quem? — Para Nina. — Ela me avisaria se houvesse algum problema. Máximo segurou um sorriso. — Você acabou de olhar o celular pela quarta vez em menos de dez minutos. Grego ignorou o comentário. Pegou o paletó e vestiu-o. — Vamos. O carro os levou até o aeroporto executivo. Durante o trajeto, Grego permaneceu em silêncio, observando a cidade pel
O dia chegou com uma atmosfera diferente na mansão Montenegro. Felícia acordara cedo, como de costume, mas, ao contrário dos dias anteriores, não havia pressa para se arrumar para a escola. Naquela manhã, ela poderia permanecer de pijama, tomar café tranquilamente e passar o dia ao lado dos avós. Helena observava a neta sentada à mesa enquanto ela tentava escolher entre uma fatia de bolo e algumas frutas. — Vovó, posso comer os dois? Helena ergueu uma sobrancelha. — Se conseguir terminar os dois, pode. Felícia abriu um sorriso satisfeito. Augusto, sentado na outra extremidade da mesa, acompanhava a conversa em silêncio. — Essa menina tem um apetite impressionante. — Ela está crescendo — respondeu Helena. Felícia olhou para o avô. — Vovô, você também come bolo de manhã? Augusto sorriu. — Quando sua avó deixa. Helena lançou-lhe um olhar. — Não coloque a culpa em mim. Felícia começou a rir. A conversa continuou durante alguns minutos, e a menina parecia
A noite havia caído sobre a mansão Aslan. Sem Felícia correndo pelos corredores, a casa parecia diferente. Mais silenciosa, quase grande demais para a quantidade de pessoas que permanecia ali. Marilua havia passado boa parte da tarde organizando algumas coisas no quarto da menina e separando o material que precisaria levar para a mansão Montenegro caso Nina precisasse enviar alguma coisa. Felícia ficaria alguns dias com os avós maternos. Grego havia autorizado a visita, e tudo já estava combinado antes mesmo de sua viagem. Marilua sabia que não deveria se preocupar. Ainda assim, sentia falta da presença da menina. Era estranho. Havia poucos dias que começara a trabalhar naquela casa, mas a rotina com Felícia já começava a fazer parte de seus dias. Depois de conferir algumas roupas da menina, Marilua decidiu descer até a cozinha. Precisava de água. Quando entrou, encontrou Nina sentada à mesa, conferindo uma lista de tarefas. Beth estava perto da pia, terminando d
A tarde avançava tranquilamente na mansão Montenegro. Depois de mostrar a Felícia o antigo quarto de Salomé, Helena decidiu levá-la para a sala de dança. O ambiente permanecia praticamente intocado, preservado ao longo dos anos como uma lembrança de uma época que parecia pertencer a outra vida. Felícia entrou devagar. Seus olhos percorreram o grande espelho que ocupava uma das paredes, o piso de madeira perfeitamente conservado e a barra de apoio instalada próxima à janela. — Mamãe dançava aqui? Helena assentiu. — Dançava. Felícia se aproximou do espelho. — Ela era boa? Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Helena. — Era muito dedicada. Helena caminhou até uma das fotografias antigas que permaneciam sobre um aparador. Nela, Salomé aparecia ainda adolescente, usando uma roupa de balé e os cabelos presos em um coque. Felícia observou a fotografia por alguns segundos. — Ela era bonita. Helena ficou em silêncio por um instante. — Era. Não havia exagero em sua voz. Tampou
A tarde em Paris estava agradável, e, pela primeira vez desde que chegamos à França, Máximo conseguiu me convencer a deixar o hotel e as reuniões de lado por algumas horas. Caminhávamos às margens do rio, observando o movimento das pessoas e das embarcações que passavam lentamente pela água. — Você precisa aprender a aproveitar uma viagem de trabalho — Máximo comentou. Lancei um olhar para ele. — Estamos aqui para trabalhar. — Já trabalhamos o dia inteiro. — E ainda temos uma reunião amanhã. — Amanhã é outro dia. Balancei a cabeça. — Você não desiste. — Nunca. Continuamos caminhando. Máximo parecia mais descontraído do que de costume. Algumas mulheres que passavam por nós lançavam olhares discretos, e ele, como sempre, parecia se divertir com a situação. — Está vendo? — O quê? — Aquela mulher acabou de olhar para você. — E daí? — Nada. Só estou dizendo que ainda existe esperança. — Esperança de quê? — De você voltar a viver. Revirei os olhos. — Você deveria falar
O carro atravessou os enormes portões de ferro da propriedade dos Montenegro pouco depois do meio-dia. Felícia estava sentada no banco traseiro, observando tudo pela janela. Havia árvores altas dos dois lados da estrada particular, formando uma espécie de corredor natural até a mansão. O caminho era cercado por jardins cuidadosamente planejados, com roseiras, arbustos perfeitamente aparados e pequenas fontes de pedra espalhadas pela propriedade. A menina apertou o rosto contra o vidro. — Vovó, a casa de vocês é enorme! Helena Montenegro sorriu discretamente. Sentada ao lado da neta, ela segurou sua pequena mão. — É grande mesmo. — Maior que a casa do papai? Helena pensou por um instante. — Talvez. Felícia abriu um sorriso. — Quero conhecer tudo. — Vai conhecer. O carro finalmente parou diante da entrada principal. A mansão Montenegro era imponente. Construída em pedra clara, possuía três andares e grandes janelas arqueadas que refletiam a luz do dia. Uma escadaria larg







