Masuk
O som do motor do ônibus soava como um zumbido interminável enquanto Laura olhava pela janela, apertando a alça de sua bolsa surrada. Seus pensamentos dançavam entre o nervosismo e a esperança.
Era a última chance.
O aluguel estava atrasado, os remédios da mãe, cada vez mais caros. Se não conseguisse esse emprego, talvez não houvesse como pagar o tratamento de Dona Ester por mais uma semana.
A cidade passava em flashes ao seu lado: prédios altos, ruas movimentadas e, finalmente, as áreas mais calmas e arborizadas. Quando o ônibus parou, ela desceu rapidamente, ajeitando o cabelo preso de maneira prática. A mansão era ainda mais imponente do que parecia na foto do anúncio. Portões altos de ferro e um jardim perfeitamente aparado anunciavam o status da família para quem ela esperava trabalhar.
"É agora ou nunca", murmurou para si mesma, endireitando a postura antes de tocar a campainha.
A porta foi aberta por uma mulher de uniforme, de meia-idade, que parecia estar na casa há mais tempo do que qualquer móvel.
— Você é a Laura?
— Sim, sou eu — respondeu, com um sorriso tímido.
— Entre. O Sr. Lucas está esperando na sala.
O coração de Laura acelerou enquanto seguia a empregada por um corredor impecavelmente decorado. Quando entrou na sala, viu um homem alto, de traços marcantes e olhos intensos. Ele estava sentado em uma poltrona de couro, mas se levantou ao vê-la.
— Laura? — Sua voz era grave e educada.
— Sim, prazer em conhecê-lo, Sr. Lucas.
Ele estendeu a mão para cumprimentá-la, e Laura sentiu o calor e a firmeza de seu aperto de mão. Sentando-se no sofá, ela percebeu que ele a analisava com discrição, talvez tentando medir sua confiança ou sinceridade.
— Fiquei impressionado com sua carta de recomendação. Mas, como mencionei no telefone, cuidar de Sofia e Theo é um trabalho que exige muita dedicação. Eles ainda estão processando a perda da mãe.
Laura assentiu, lembrando-se do motivo pelo qual tinha sido tão cuidadosa ao redigir sua candidatura.
— Entendo, Sr. Lucas. Estou disposta a me dedicar inteiramente. Tenho experiência com crianças e... sei o que é passar por tempos difíceis. Minha mãe está muito doente, e esse emprego é nossa única esperança.
Lucas pareceu hesitar por um momento, mas então seus olhos a percorreram com mais atenção. Seus traços suavizaram levemente.
— Sabe... você se parece muito com minha esposa. A maneira como fala, até seu jeito com as mãos. Quando vi sua foto no currículo, quase não acreditei.
Laura engoliu em seco. Aquilo a pegara de surpresa.
Antes que pudesse responder, uma pequena figura entrou correndo na sala. Era Shofia, a menina de cinco anos. Seus cachos dourados balançavam enquanto ela se aproximava de Laura com curiosidade.
— Você é a nova babá? — perguntou Sofia diretamente, sem cerimônia.
Laura sorriu, inclinando-se para ficar na altura da menina.
— Talvez. O que você acha?
Sofia a analisou com olhos grandes e curiosos antes de dar de ombros.
— Você parece legal.
— Bem, acho que temos a aprovação de Sofia — disse Lucas, com um raro sorriso.
Mais tarde naquele dia...
Laura deixou a mansão sentindo que tinha feito sua melhor apresentação. Quando o telefone tocou, horas depois, ela quase derrubou a tigela de sopa que segurava.
— Laura? É o Sr. Lucas. Gostaríamos que você começasse amanhã.
Ela mal conseguiu conter a alegria, desligando e olhando para sua mãe, que descansava no sofá.
— Consegui, mãe! Vou começar amanhã.
— Que bom, filha. Fico muito feliz por você.
— Fique feliz por nós; de hoje em diante, tenho certeza de que tudo dará certo.
No dia seguinte, Laura chegou pontualmente, trajando sua melhor roupa simples, mas limpa. As crianças pareciam animadas, especialmente Sofia, que já começava a fazer perguntas sem parar. Theo, mais tímido, a observava de longe.
Enquanto Laura ajustava a rotina, conheceu Maria, a empregada, que a ajudou a entender as peculiaridades da casa. Mas foi no final do dia que ela teve sua primeira interação com Vanessa.
A mulher entrou na sala com passos decididos, segurando uma bolsa de grife e um olhar avaliador. Ela era deslumbrante, mas havia algo no tom de sua voz que fazia Laura se sentir como um objeto sendo pesado.
— Então, você é a nova babá? — Perguntou Vanessa, com um sorriso que não chegou aos olhos.
— Sim, sou Laura. É um prazer.
Vanessa não respondeu, apenas deu uma olhada rápida nas crianças antes de voltar sua atenção para Lucas.
— Podemos conversar em particular? — Ela pediu, ignorando completamente Laura.
Lucas hesitou, olhando para Laura, mas acabou seguindo Vanessa para o escritório. Enquanto as portas se fechavam, Laura sentiu o primeiro frio na espinha. Algo naquela mulher dizia que os dias tranquilos que imaginou estavam longe de acontecer.
Já era noite quando Laura terminou de organizar o quarto das crianças. Enquanto dobrava algumas roupas, ouviu um som estranho vindo do andar de baixo. Curiosa, desceu devagar, percebendo que a voz de Vanessa ecoava no corredor.
— Você não pode confiar cegamente nessa garota! Quem sabe o que ela realmente quer? Você verificou os antecedentes dessa garota antes de contratá-la?
— Vanessa, é claro que eu verifiquei tudo antes de contratá-la. Você acha mesmo que eu iria colocar qualquer uma para cuidar dos meus filhos?
Laura congelou ao ouvir seu nome. Ela encostou na parede, tentando decidir se deveria confrontar Vanessa ou fingir que não ouviu. Mas antes que pudesse reagir, uma porta se abriu abruptamente, e Vanessa apareceu na sua frente com um sorriso venenoso.
— Ah, estava escutando?
Laura engoliu em seco, percebendo que seu trabalho na casa já começava a se complicar.
Um Novo ComeçoO sol brilhava suavemente naquela manhã especial.A mansão estava decorada com flores brancas e azuis, mesas elegantes espalhadas pelo jardim e arranjos delicados que davam ao ambiente uma sensação de paz e renovação.Era o dia do batizado do bebê.Um dia que simbolizava muito mais do que uma cerimônia religiosa.Era a celebração de tudo o que aquela família havia sobrevivido.De tudo o que havia sido perdido.E de tudo o que havia sido reconstruído.Os primeiros convidados começaram a chegar ainda cedo.A mãe de Laura chegou emocionada, apoiando-se no braço de Davi.Ao ver a filha, abriu os braços imediatamente.— Minha menina...Laura sorriu e a abraçou com carinho.— Mãe.— Você está linda.Davi observou a cena e balançou a cabeça.— Incrível como você continua sendo a irmã chata que me obrigava a arrumar o quarto.Laura deu uma risada.— E você continua sendo o irmão bagunceiro.Os dois se abraçaram.Durante anos haviam enfrentado dificuldades juntos.Agora finalmen
O escritório estava mergulhado em silêncio.A única iluminação vinha do abajur sobre a mesa, lançando uma luz suave sobre o envelope envelhecido.Lucas permanecia imóvel.Os dedos repousavam sobre o papel há vários minutos.Ele tinha enfrentado tribunais, mentiras, traições e perdas.Mas naquele momento, abrir aquela carta parecia mais difícil do que qualquer outra coisa.Laura permaneceu ao seu lado, sem pressioná-lo.Apenas segurando sua mão.Quando finalmente encontrou coragem, Lucas rompeu o lacre.Dentro havia apenas algumas folhas dobradas.A letra era inconfundível.Seu coração apertou imediatamente.Ele começou a ler."Meu querido Lucas,Se você está lendo esta carta, significa que eu não consegui dizer tudo o que gostaria pessoalmente. E isso me entristece mais do que consigo colocar em palavras.Antes de qualquer coisa, quero que saiba que você foi o grande amor da minha vida. Não apenas porque me fez feliz, mas porque me fez sentir amada todos os dias. Você foi meu melhor a
A carta anônima permaneceu sobre a mesa da sala durante o resto da tarde.Lucas a havia lido várias vezes, mas as palavras continuavam causando o mesmo efeito."Vocês acreditam que a história acabou. Estão errados. Ainda existe uma verdade que ninguém conhece."Laura observava o marido do outro lado da sala.Desde que a mensagem chegara, ele parecia distante.Pensativo.E ela entendia o motivo.Durante anos, Lucas viveu cercado por mentiras. Era natural que qualquer novo mistério o colocasse em alerta.O bebê dormia tranquilamente em seus braços quando ela se aproximou.— Você está pensando nisso de novo.Lucas levantou os olhos.— Estou tentando entender quem enviaria uma mensagem dessas.— Talvez seja apenas alguém querendo chamar atenção.— Talvez.Mas nem ele parecia acreditar nisso.Na manhã seguinte, o telefone tocou logo cedo.Lucas atendeu sem imaginar que aquela ligação mudaria completamente o rumo das coisas.— Senhor Lucas?— Sim.— Meu nome é Helena Martins. Eu era amiga d
Os dias passaram com uma tranquilidade que há muito tempo não existia na mansão.Pela primeira vez em anos, não havia ameaças, investigações ou escândalos rondando a família. Apenas a rotina simples de uma casa cheia de amor, risadas de crianças e o choro ocasional de um bebê recém-nascido.E foi justamente observando essa rotina que Cecília tomou sua decisão.Numa manhã ensolarada, ela estava sentada na varanda quando viu Laura caminhando pelo jardim com o bebê nos braços. Theo corria atrás de uma bola, enquanto Sofia insistia em mostrar à madrasta as flores que havia colhido.Mais adiante, Lucas observava tudo com um sorriso tranquilo.Cecília permaneceu em silêncio.Aquela cena respondia todas as perguntas que ela vinha fazendo a si mesma nas últimas semanas.Seu filho era feliz.Os netos eram felizes.E Laura... bem, Laura fazia parte daquela felicidade.Talvez ela nunca se tornasse a mulher que Cecília havia imaginado para Lucas.Mas era a mulher que ele havia escolhido.E estava
Na manhã seguinte, a mansão despertou em um ritmo mais tranquilo.O bebê havia passado uma noite relativamente calma, o que para Laura já era uma pequena vitória.Depois de colocá-lo para dormir novamente, ela desceu para a sala, onde Theo e Sofia já a esperavam.— Laura! — Sofia correu até ela. — Você prometeu que ia brincar comigo hoje!— E comigo também! — Theo protestou. — Você prometeu me ajudar a terminar o castelo que começamos.Laura riu.— Então acho que vou ter que fazer os dois.As crianças comemoraram imediatamente.Sentada em uma poltrona próxima, Cecília observava a cena em silêncio.Ela havia decidido ficar alguns dias a mais na mansão, embora Lucas ainda estivesse claramente irritado com sua postura em relação a Laura.Naquele momento, porém, ela apenas assistia.Laura passou a manhã inteira dividida entre os três pequenos.Ajudou Theo a montar o castelo de blocos.Participou de uma festa do chá improvisada por Sofia.Correu para acudir o bebê quando ele começou a chor
Duas semanas haviam se passado desde o nascimento do bebê.A mansão estava mais movimentada do que nunca. Entre mamadeiras, trocas de fraldas e noites mal dormidas, Laura ainda se recuperava do parto. Apesar do cansaço, ela estava feliz. Ver Lucas tão dedicado aos filhos e ao bebê só fazia seu amor por ele crescer.Naquela manhã, porém, a tranquilidade da casa foi interrompida.Um carro preto parou diante da mansão.Lucas estava na sala com Theo e Sofia quando ouviu o som do veículo.Ao olhar pela janela, congelou.— Não acredito...Laura percebeu a mudança em sua expressão.— O que aconteceu?Antes que ele pudesse responder, a porta principal se abriu.Uma mulher elegante, de postura impecável e olhar crítico entrou na mansão como se fosse dona do lugar.— Finalmente estou de volta.Laura reconheceu imediatamente quem era.A mãe de Lucas.Dona Cecília.Cecília abriu os braços para o filho.— Lucas!Ele a abraçou, mas sem muito entusiasmo.— Mãe... você não avisou que estava voltando.







