LOGINZion
Pisquei alguma vezes, sem conseguir entender o que havia acontecido.
Me lembro apenas de subir as escadas atrás do cheiro de Catarina, e dar de cara com uma bruxinha esquisita. Ela me perguntou se minha fera era bonita, e eu lembro de estranhar a pergunta. Respondi que meu lobo era grande e perigoso, e dei as costas a ela. Depois disso tudo parece meio turvo, e sinto como se eu tivesse corrido uma maratona.Minhas pernas pareciam pesadas e a minha cabeça dava leves voltas, exatamente como se eu tivesse acabado de acordar de um transe profundo. Olhei para baixo e só então me dei conta da minha situação, eu estava completamente sem roupas, sentado bem no meio do sofá de estofado escuro do salão principal, no meio de um monte de mulheres que me encaravam sem a menor vergonha na cara.
Assim que meu lobo deu lugar à minha forma humana, a confusão se instalou. Eu não lembrava direito dos detalhes, apenas de flashes borrados de mim correndo pelo salão, pulando e rolando no chão de pedra como se fosse um filhote sem juízo.
Lulu, a garota mais nova que tinha me abordado perto da escada, estava encolhida em um canto da sala com o rosto vermelho como uma pimenta. Ela segurava um punhado de ervas secas contra o peito e parecia querer se esconder dentro da própria túnica de tanta vergonha pelo que tinha aprontado.
Por outro lado, as bruxas mais velhas do coven não demonstravam um pingo de timidez. Elas estavam espalhadas pelo salão, encostadas nas pilastras de pedra e no corrimão, com os olhos fixos em mim, me analisando da cabeça aos pés com um interesse descarado e nada profissional.
Antes que eu pudesse tentar me cobrir com as mãos ou dizer qualquer coisa, Catarina deu passos firmes na minha direção. O rosto dela era uma máscara de pura irritação. Ela pegou uma das almofadas mais grossas do sofá e jogou direto no meu colo com força, cobrindo a minha nudez de um jeito rápido e prático.
— Vista algo ou pelo menos se cubra direito, seu idiota! — resmungou ela, sem olhar diretamente para baixo, embora o tom de sua voz denunciasse o quanto aquela situação inteira a estava irritando.
Ajeitei a almofada sobre o colo, encostando as costas no estofado macio do sofá. Mesmo com a tentativa de Catarina de esconder o que podia, o resto do meu corpo, o peitoral largo, os ombros marcados e as cicatrizes antigas do meu tempo de isolamento, continuava completamente exposto.
Uma das bruxas que as outras chamaram de Selene deu um passo à frente, encostando a cintura na mesa de madeira rústica e cruzando os braços. Um sorriso debochado e lento surgiu em seus lábios enquanto seus olhos passeavam sem pressa pelo meu corpo nu.
— Sabe, Catarina... — começou a tal Selene, com aquela voz melodiosa e cheia de segundas intenções que parecia desenhada para provocar. — Para um lobo feral e perigoso, ele até que tem atributos bem interessantes. É um desperdício deixar uma peça dessas mofando no porão.
Catarina virou o rosto devagar na direção de Selene, com a postura ereta e rígida.
— Se você não tem nada de útil para fazer, Selene, sugiro que vá cuidar do jardim de ervas! — respondeu Catarina, fria.
— Só estou sendo razoável. — continuou Selene, soltando uma risada curta e divertida. — Se você cansar dele ou achar que o trabalho de cuidar do animal é demais para a sua magia cansada, eu não me importo nem um pouco de cuidar dele por um tempo. Tenho certeza de que ele seria muito mais cooperativo lá em cima.
O ar no salão pareceu esfriar de repente.
Eu acompanhei a reação de Catarina de perto. Ela não gritou e nem fez nenhum gesto espalhafatoso, mas a mudança na sua aura foi instantânea. O tom castanho profundo dos seus olhos mudou em um piscar de olhos, brilhando em um lilás intenso e vívido, transbordando uma faísca de feitiçaria tão pura e densa que fez o ar da sala parecer pesado demais para respirar.
Era ciúme? Um ciúme puro, territorial e antigo, disfarçado sob a camada de raiva que ela tentava manter a todo custo.
No mesmo segundo em que a vi brilhar naquele tom lilás, o meu lobo dentro do peito deu um sobressalto. A fera, que costumava ser um pesadelo de garras e dentes prontos para rasgar gargantas, simplesmente soltou um som baixo, um ganido vibrante que parecia um ronrono satisfeito bem no fundo da minha garganta. O meu animal adorou ver a bruxa reivindicando o espaço dela daquele jeito.
Catarina piscou rapidamente, e o brilho lilás sumiu de seus olhos tão rápido quanto tinha surgido, voltando ao tom escuro habitual. Ela respirou fundo, tentando disfarçar a oscilação de poder, e virou-se para encarar a garota encolhida no canto.
— Lulu… — chamou Catarina, com a voz cortante, mas sem a raiva direcionada à jovem. — O que você jogou nele?
Lulu deu um pequeno pulo de susto e deu um passo à frente, quase tropeçando na própria saia.
— E-eu só queria ver se ele era amigável... — gaguejou a menina, apontando para o punhado de folhas em sua mão. — Usei uma mistura de raiz de valeriana com névoa de calmaria. É a magia que eu uso para acalmar os cervos quando eles se machucam na cerca da floresta!
Catarina soltou um suspiro pesado e passou a mão pela testa, parecendo que a cabeça ia explodir a qualquer momento. Ela olhou para mim e depois de volta para as outras bruxas do coven.
— O que a Lulu fez não foi um simples feitiço de controle. — explicou Catarina, com a voz saindo didática e cansada. — A magia dela afeta o sistema nervoso dos animais, mas no organismo de um Alfa desse porte, essa mistura de ervas age como uma droga pesada. Ela desativou os filtros de agressividade do lobo dele, deixando a fera anestesiada, boba e eufórica.
Olhei para as minhas próprias mãos, abrindo e fechando os dedos para sentir se os meus reflexos já tinham voltado ao normal. A sensação de tontura ainda estava lá, mas a verdade era que a experiência tinha sido estranhamente libertadora.
— Eu nunca vi o meu lobo assim… — admiti, falando pela primeira vez desde que me sentei no sofá completamente pelado. Minha voz saiu grave, chamando a atenção de todas as mulheres na sala. Olhei diretamente para Catarina. — Desde os meus dezesseis anos, a fera dentro de mim só sabe rosnar, morder e tentar me dominar. Pela primeira vez na vida, eu senti ele calmo. Ele estava feliz.
Catarina me encarou em silêncio por alguns segundos. O olhar dela não tinha mais a rigidez de antes, mas sim uma ponta de curiosidade e uma ponta de pena que ela tentou esconder rapidamente.
— Isso não muda o fato de que usaram feitiçaria em você sem o seu consentimento dentro do coven, Zion. — disse ela, voltando o olhar severo para o grupo de bruxas. — A brincadeira acabou. Todas vocês, voltem para os seus afazeres agora mesmo. E Selene... se eu ver você perto deste sofá de novo hoje, garanto que o seu próximo trabalho vai ser limpar as cozinhas sem usar um pingo de magia.
Selene deu um sorriso de canto, sem se abalar muito com a ameaça, mas deu meia volta e caminhou em direção ao corredor, seguida pelas outras bruxas que sussurravam entre si. Lulu pediu desculpas baixinho mais uma vez antes de se esgueirar para fora da sala como um fantasma.
Ficamos apenas nós dois no salão espaçoso. Encarei Catarina enquanto ela cruzava os braços, ainda de pé a um metro do sofá, parecendo uma estátua cheia de autoridade, embora o cansaço estivesse estampado em cada linha do seu rosto.
— Você devia usar olhos lilás mais vezes. — comentei com um meio sorriso no rosto, ajeitando a almofada no meu colo. — O meu lobo quase dormiu de tão satisfeito.
— Cale a boca, Zion! — respondeu ela na mesma hora, mas sem nenhuma raiva real na voz. — Vou buscar umas calças para você antes que outra bruxa resolva te usar como atração da tarde.
Catarina me deu as costas e sumiu na escada.
Já eu fiquei sentado no sofá, sentindo meu lobo e a mim mesmo cansado. Isso que aconteceu foi uma completa loucura, e se eu contasse para qualquer humano ou lobo fora desse coven certamente não acreditariam em mim.CatarinaNa manhã seguinte de todo o acontecimento o silêncio no casarão antigo era quase sufocante e nada natural. Ao redor da casa os galhos quebrados e as folhas que haviam caido das árvores deixavam um clima de fim do mundo. Mas o que mais assustava era o clima dentro do coven.Todas estavam assustadas, e se sentindo sem segurança.Reuni todas as integrantes do coven na grande mesa do salão principal. Lulu, Maya, Selene e as bruxas mais jovens sentaram-se em silêncio, encarando as próprias mãos ou olhando com receio para o canto onde Zion permanecia de pé. Ele estava encostado na coluna de madeira rústica, com a postura ereta e os braços cruzados em cima do peito largo. Seu olhar castanho e atento varria o ambiente sem descanso, mantendo-se em alerta constante para garantir que nenhuma ameaça se aproximasse de mim enquanto o meu corpo ainda se recuperava do esgotamento mágico.Sentei-me na cabeceira da mesa, apoiando as mãos na madeira antiga. Minha energia ainda oscilava, mas ma
ZionTer a Catarina ali nos meus braços, com as mãos pequenas dela presas no meu cabelo e o corpo colado ao meu, era uma tortura e uma salvação ao mesmo tempo.A minha vontade era de pegar ela no colo, sair daquela varanda e sumir na floresta para onde ninguém mais pudesse olhar para ela ou tentar usar o passado dela contra mim. O meu lado animal queria marcar ela de um jeito que todo mundo naquela região soubesse exatamente a quem ela pertencia. Mas vendo o rosto cansado dela de perto, com pequenas olheiras sob os olhos negros, eu sabia que ela não aguentaria mais nenhuma briga hoje.— Você está acabada, Catarina… — falei baixinho, passando a mão pelas costas dela e sentindo como o corpo dela estava tenso. — Sua magia tá fraca. Eu sinto o cheiro do seu cansaço daqui.— Eu já disse que estou bem. — ela teimou, tentando afastar um pouco o corpo do meu, mas eu não deixei, apertando a cintura dela com mais força. — Apenas preciso de alguns minutos para reorganizar minhas energias e confe
ZionO vento frio da noite batia contra o meu rosto na varanda, mas não adiantava nada para diminuir o fogo de raiva que queimava no meu peito.Eu estava de pé, apoiando as duas mãos no parapeito de pedra antiga da varanda do casarão. Apertei o bloco de pedra com tanta força que senti os nós dos meus dedos estalarem, e farelos de rocha começaram a se desmanchar debaixo da minha pressão. Minhas costas estavam rígidas, e a minha respiração saía pesada pelo nariz, parecendo fumaça no ar gelado da floresta.O meu problema era que eu não conseguia controlar o meu lobo direito. Ele não era uma voz na minha cabeça com quem eu conversava. Ele era um bicho puro, um instinto selvagem e brutal que nascia lá no fundo do meu estômago e subia rasgando tudo quando eu ficava com raiva. Quando o meu lado animal tomava conta, não tinha conversa, não tinha raciocínio. Era só a vontade de rosnar, quebrar coisas, lutar e proteger o que era meu.E, naquele momento, aquele instinto bicho estava surtando den
CatarinaO silêncio no porão ficou pesado. Olhei para os pedaços da pedra no chão, quebrados pela força de Zion. O que ele fez não parecia humano e nem de um lobisomem comum. Era o poder de um Alfa tomado pela raiva.Ainda sem acreditar no que vi, observei Zion se abaixar e pegar Selene no colo com cuidado, mesmo estando com o corpo tenso de raiva. Ele nem olhou para mim. Não disse nada. Passou do meu lado como um furacão quieto e subiu as escadas de pedra.Respirei fundo e segui os passos dele até o salão principal. O meu coração estava mais calmo porque o feitiço tinha acabado, mas sentia um aperto no peito por causa de Zion.No salão, a névoa clara sumia devagar. As garotas do coven começavam a acordar das cadeiras e do chão. Ouvia sussurros e gemidos fracos de quem estava voltando a si.Zion deitou Selene no sofá com calma. A jovem bruxa abriu os olhos devagar e puxou o ar com força.— Catarina...? — a voz de Selene saiu bem fraca.Cheguei perto e me ajoelhei ao lado do sofá. Olhe
ZionO ar no fim da escada do porão era gelado e pesado. Segurei a mão de Catarina com força, sentindo os dedos dela tremerem. Ela tentava fingir que estava calma, mas eu sentia a sua dor e o seu medo na pele.Descemos os degraus de pedra um por um. Lá no fundo, um brilho vermelho fraco iluminava o caminho. O cheiro de terra molhada se misturava a um cheiro doce de magia.Quando meus pés tocaram o chão do porão, o que vimos nos fez parar na hora.Selene estava caída no meio da sala, desacordada. O rosto da jovem bruxa estava muito pálido, e uma fumaça clara saía devagar da sua boca. O que mais chamou minha atenção foi uma corda vermelha e brilhante presa ao pulso dela. A corda parecia feita de sangue e luz. Ela ia pelo chão e terminava amarrada em uma pedra preta e grande, fincada no meio do cômodo.A pedra parecia engolir a luz. Ela soltava um poder tão incômodo que meus dentes começaram a doer, e meu lobo rosnou forte dentro de mim.Catarina deu um passo para a frente e soltou minha
CatarinaA voz de Matilde ecoou pelo quarto, mas algo dentro de mim gritava que aquela cena estava errada. A presença dela, a postura ereta, a pele jovem... parecia perfeita demais. Real demais.Antes que Zion pudesse dar um passo em direção a ela, estendi o braço e o segurei pelo peito.— Zion, espere… — sussurrei, com a voz firme apesar do nervosismo. — Não chegue perto.Zion franziu a testa, com os olhos dourados fixos na figura de Matilde no centro do cômodo. Ele manteve a postura defensiva, rosnando baixo, mas respeitou o meu aviso e não avançou.— O que foi, Catarina? — perguntou ele sem tirar os olhos da anciã. — Essa mulher esteve fingindo o tempo todo. É ela quem está por trás disso.Olhei fixamente para a figura de Matilde. Dei um passo lento para o lado, observando a forma como a luz fraca das poucas velas que restavam acesas refletiam nela. A sombra dela na parede não acompanhava o movimento do corpo. A sombra estava parada, rígida, como se pertencesse a uma estátua.— É u







