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Depois da conversa com Marcus, voltei para minha cobertura no centro de Manhattan. Já passava da meia-noite. O elevador se abriu diretamente na sala e, como sempre, encontrei Evelyn me esperando. Ela estava adormecida no sofá. Os pés encolhidos sob uma manta. Uma das mãos repousava sobre a barriga. E era sempre assim. Não importava se eu chegasse às oito da noite ou às duas da manhã. Ela me esperava. Sempre. Linda. Sempre linda. Sorri sozinho. Aproximei-me e me ajoelhei ao lado do sofá. — Acorda, princesa. Ela se mexeu devagar. — Hum... — Desse jeito você vai acordar toda dolorida amanhã. Seus olhos se abriram lentamente. Olhos âmbar. Os mesmos olhos que tinham virado meu mundo de cabeça para baixo. Então ela sorriu. E aquele sorriso ainda tinha o poder de acabar comigo. — Acho que peguei no sono te esperando. Passei uma mecha de cabelo para trás da orelha dela. — Eu percebi. Ela sentou-se devagar. — Você demorou. — Encontrei Marcus no clube. — E ficaram conversando? — Sim. Ela assentiu. Mas havia algo estranho em seu olhar. Algo diferente. Aquele brilho alegre que normalmente estava ali parecia apagado. — Aconteceu alguma coisa? Ela baixou os olhos. Por alguns segundos ficou em silêncio. Então respirou fundo. — Hagen... — Sim? Ela apertou as mãos sobre o colo. Nervosa. — Você tem vergonha de mim? A pergunta me pegou completamente desprevenido. — O quê? Ela levantou os olhos. E vi insegurança ali. Uma insegurança que eu nunca tinha visto antes. — Você tem vergonha de mim? Franzi a testa. — Claro que não. — Tem certeza? — Evelyn... — Responde. Seu tom era suave. Mas carregado de dor. Meu peito apertou. — Por que está perguntando isso? Ela desviou o olhar. — Porque às vezes parece que você esconde nossa relação. Aquelas palavras me atingiram mais do que eu gostaria. — Isso não é verdade. — Não? Ela deu um sorriso triste. — Quantos dos seus amigos sabem que estamos juntos? Não respondi imediatamente. E isso já era uma resposta. — Está vendo? — Não é isso. — Então o que é? Levantei-me e caminhei até a janela. De repente, aquela conversa estava ficando parecida demais com a que eu tinha acabado de ter com Marcus. — Você está pensando demais. — Estou? Ela se levantou também. — Você me leva para jantares de negócios? Silêncio. — Para eventos da empresa? Silêncio. — Para encontros com seus investidores? Continuei sem responder. O silêncio entre nós ficou pesado. Ela respirou fundo. — Você me ama? Virei-me imediatamente. — Claro que amo. Mas, pela primeira vez, as palavras não saíram tão facilmente quanto deveriam. Evelyn percebeu. Eu vi quando ela percebeu. Porque seus olhos se encheram de lágrimas. — Ou está se casando comigo por causa do bebê? Meu coração afundou. — Quem colocou isso na sua cabeça? Ela sorriu sem humor. — Ninguém precisou colocar. A resposta me surpreendeu. — Evelyn... — Eu sempre disse que você não precisava se casar comigo. Ela acariciou a barriga. — Nunca quis que se sentisse obrigado. A dor em sua voz era quase física. — Eu não estou me sentindo obrigado. — Tem certeza? A pergunta ficou suspensa entre nós. Porque, de repente, eu me lembrei de Marcus. Lembrei das palavras do meu pai. Da pergunta que ninguém parava de fazer. Você ama Evelyn? Eu deveria responder sem hesitar. Mas por algum motivo... Não consegui. E o silêncio que veio depois foi muito mais doloroso do que qualquer resposta. Os olhos de Evelyn brilharam de tristeza. E naquele momento, pela primeira vez, tive a sensação de que ela já esperava por aquele silêncio.MARCUS Eu estava perdendo o controle da situação. E sabia disso. A reunião havia começado como uma conversa. Terminou como uma guerra. Hagen andava de um lado para o outro no escritório. Inquieto. Nervoso. Parecendo um animal enjaulado. Eu nunca o tinha visto assim. Nem antes do acidente. Nem depois. — Ela precisa de tempo. Repeti pela terceira vez. Tentando manter a calma. — Evelyn está assustada. Hagen passou a mão pelos cabelos. Visivelmente irritado. — Assustada? Ele soltou uma risada sem humor. — Quanto tempo mais ela precisa? Seu olhar encontrou o meu. Cheio de frustração. — Quando meus filhos tiverem dezoito anos? É isso, Marcus? O silêncio tomou conta da sala. Porque eu entendia os dois lados. Entendia a dor de Evelyn. Mas também entendia a angústia daquele homem. Um pai que tinha acabado de descobrir que possuía filhos. Um pai que perdeu três anos da vida deles. Um pai desesperado para recuperar o tempo perdido. — Hagen... — Não. Ele interrom
EVELYN Eu estava guardando os contratos recém-assinados quando meu celular tocou. Nem precisei olhar para saber quem era. Marcus. Atendi imediatamente. — Oi. Do outro lado da linha houve um pequeno silêncio. Um silêncio que fez meu coração acelerar. — Evelyn... A forma como ele pronunciou meu nome já me preparou para o que viria. Fechei os olhos. Respirei fundo. — Ele quer falar comigo? Marcus demorou alguns segundos para responder. — Sim. Meu coração disparou. Depois afundou. Porque havia uma pergunta mais importante. Uma única pergunta. A pergunta que eu tinha medo de fazer. — Ele perguntou por mim? O silêncio do outro lado foi resposta suficiente. Mesmo assim Marcus respondeu. Com honestidade. Como sempre. — Ele ainda não lembra de você. Fechei os olhos. A dor veio. Mas dessa vez não me destruiu. Talvez porque eu já esperasse. Talvez porque estivesse me preparando para isso desde o dia em que soube que Hagen estava vivo. — Entendi. Minha voz saiu cal
EVELYN Quando a última assinatura foi colocada no contrato, fiquei alguns segundos em silêncio. O representante do ateliê de Nova York apertou minha mão. — Parabéns, senhora Moore. Sorri. Mas mal consegui responder. Porque naquele momento eu não estava pensando nos números. Nem nos lucros. Nem na expansão da empresa. Estava olhando para o documento diante de mim. Um contrato que mudaria o futuro do meu ateliê. Um contrato que garantiria trabalho pelos próximos anos. Um contrato que a Evelyn de três anos atrás jamais imaginaria assinar. Assim que os clientes foram embora, a sala explodiu em comemoração. Palmas. Abraços. Risadas. Algumas costureiras choravam. Outras comemoravam como se tivessem ganhado na loteria. E talvez tivessem. Porque aquele contrato significava estabilidade. Crescimento. Novas oportunidades. Olhei ao redor. Para cada rosto. Cada pessoa que construiu aquele sonho comigo. E meus olhos começaram a arder. Passei o
EVELYN Chorei por alguns minutos. Talvez muitos. Talvez poucos. Não importava. Porque a reunião começaria em menos de vinte minutos. E o mundo não parava porque meu coração estava quebrado. Novamente. Respirei fundo. Fechei o notebook. Levantei da cadeira. E caminhei até o banheiro privativo do meu escritório. A mulher refletida no espelho parecia cansada. Os olhos vermelhos. A maquiagem borrada. O rosto molhado pelas lágrimas. Por um segundo vi a Evelyn de anos atrás. A menina assustada. Grávida. Sozinha. Abandonada em um país estrangeiro. A garota que acreditava que amor era suficiente para vencer qualquer coisa. Aquela garota que chorava todas as noites sentindo falta do marido. Que se perguntava o que tinha de errado consigo. Que acreditava em contos de fadas. Mas aquela garota não existia mais. Abri a torneira. A água fria escorreu sobre meu rosto. Lavando as lágrimas. Lavando a dor. Ou pelo menos escondendo-a por algumas horas. Depois peguei a toalh
EVELYN Faltavam poucos minutos para minha reunião. Os croquis estavam prontos. As amostras de tecido separadas. Os contratos organizados sobre a mesa. Eu deveria estar revisando tudo. Mas minha atenção estava longe dali. Sentada no escritório do ateliê, navegava distraidamente pela internet enquanto esperava o horário. Foi quando uma manchete apareceu. "O GRANDE RETORNO DE HAGEN VON STRAUSS À ALTA SOCIEDADE." Meu coração apertou imediatamente. Antes mesmo de abrir a matéria. Antes mesmo de ver as fotografias. Eu já sabia que iria me machucar. Mas cliquei. Porque algumas dores parecem ter vontade própria. A primeira imagem apareceu na tela. E meu mundo ficou silencioso. Hagen. Lindo. Elegante. Impecável. Usando um terno preto perfeitamente ajustado. Mais maduro. Mais homem. Mais distante. Ao lado dele estava Isabella. Segurando sua mão. Sorrindo para as câmeras. Como se aquele fosse o lugar dela. Como se sempre tivesse sido.
A festa continuava atrás das portas de vidro.Música.Risadas.Taças se chocando.A elite de Nova York celebrando meu retorno.Mas eu precisava de ar.Precisava de silêncio.Precisava pensar.Por isso fui para a sacada.E Marcus me acompanhou.Durante alguns minutos apenas observamos a cidade iluminada.Sem falar nada.Até que finalmente quebrei o silêncio.— Eu quero conhecer meus filhos.Marcus não respondeu imediatamente.— E preciso falar com a mãe deles.Foi então que ele soltou uma risada curta.Sem humor.Daquelas que escondem alguma coisa.Franzi a testa.— O que foi?Marcus balançou a cabeça.— Nada.— Marcus.— É só que...Ele suspirou.— Você continua fazendo isso.— Fazendo o quê?— Chamando ela de "a mãe dos meus filhos".O silêncio tomou conta da sacada.— Hagen...Você não consegue nem pronunciar o nome dela.Olhei para a cidade.Tentando ignorar o desconforto.— É difícil.— Não.A resposta veio imediata.— Não é difícil para alguém que amou.Aquilo me atingiu em cheio







