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Capítulo 12 - Me chame de Deck

last update Data de publicação: 2021-06-01 08:21:03

Eu fiquei ali, sem saber o que fazer, afinal, ele era o príncipe. Eu poderia fugir do príncipe? Provavelmente ele já sabia até onde eu morava. Estava tão confusa com tudo que estava acontecendo. Não entendia nada... Estava com um pouco de medo. Parecia história de filme. Se eu contasse a Kim, ele não acreditaria que eu caí nos braços de Magnus e estava conversando com Dereck como se ele fosse uma pessoa normal. Kim... Eu precisava falar com ele. Onde estava a minha bolsa? Meu telefone? Eu havia perdido quando desmaiei? Saí de dentro da porta e fiquei para o lado de fora, observando as outras garotas que iam saindo de pouco em pouco. Teriam elas achado a prova difícil ou fácil? Eu estaria na próxima fase por meus méritos ou por meu pai? Ou agora seria por Dereck? O que aquele homem queria de mim? Vi Sofia saindo de uma das salas e fui até ela.

- Como você foi? – perguntei.

- Achei um pouco difícil, mas consegui responder todas.

- Você usou quase todo o tempo. – observei.

- Sim, li e reli várias vezes todas para ter certeza das respostas. E você, como foi?

- Achei fácil.

- Eu sabia que você era inteligente. – ela disse sorrindo.

- Como assim?

- Você tem cara de inteligente.

Sorri feliz. Acho que Dereck havia acertado na escolha da roupa e dos óculos. Mas eu não precisava de nada daquilo. Eu realmente era inteligente e poderia passar na prova por meus méritos.

- Vamos? – falou um homem ao meu lado.

Olhei para ele, cabelos louros não muito curtos, óculos escuros, usando um conjunto de malhar e tênis.

- Aonde? Você está louco? – perguntei.

- O café, amiga... Lembra?

Reconheci Dereck pela voz. Não havia dúvida: era ele. Mas estava completamente transformado. Olhei para Sofia e disse:

- Nos encontramos amanhã?

- Claro, Kat. Até amanhã. Bom descanso.

- Obrigada, para você também.

Ele me pegou pelo braço e foi saindo me puxando levemente:

- Você é louco? – perguntei. – Por que escolheu justamente eu para brincar?

Ele mostrou a sacola que trazia na mão:

- Um café apenas. E devolvo suas roupas, seu sapato e sua bolsa.

- E meu celular. Eu quero meu celular.

- Seu celular está seguro comigo. Não poderá mais entrar no castelo com ele.

- Como assim?

- Regras da próxima fase.

- Tenho que deixar minha dignidade do portão para fora também? – perguntei furiosa.

- Por isso eu escolhi você, Kat.

- Kat? Você só pode estar de brincadeira.

- Puxa, Kat, você fala demais.

- Vossa Alteza está me raptando gentilmente... Eu não sei o que quer comigo. Mas eu sei que não é coisa boa. E ainda acha que eu falo demais. Alteza, sinto dizer, você não viu nada ainda...

Ele riu e logo entramos dentro de um carro que havia estacionado próximo do castelo. Ele falou um lugar e o motorista seguiu caminho. Em pouco tempo estávamos numa cafeteria próxima ao castelo. Descemos e sentamos próximos à janela de vidro. Era um lugar pequeno e aconchegante. Logo fomos atendidos e ele fez o pedido dele e o meu. Ninguém o reconhecia. Ele parecia outra pessoa.

- Segredos da realeza? – perguntei.

- Só meu na verdade. – ele confessou.

- Ninguém mais faz isso?

- Você imagina minha mãe fingindo não ser a rainha?

Rimos alto. Realmente ninguém imaginava. A rainha Anne Marie Chevalier amava ser quem ela era.

- E seu irmão? – perguntei.

- Magnus? – ele riu. – Magnus não tem tempo para isso.

- Mas você tem... Por que ele não teria?

- Magnus só tem cabeça para o trabalho e suas obrigações no castelo. Ele não sabe se divertir... E acho que não teria coragem de se disfarçar para não ser reconhecido.

- Então... Esse é seu segredo?

- Sim... Por isso eu sei algumas coisas bem importantes sobre todas as zonas.

- Você acha que isso é importante?

- De certa forma sim.

Eu fiquei impressionada. Dereck era inteligente e perspicaz. Ele poderia saber muito mais que todos do castelo se andava por todas as zonas como uma pessoa normal.

- Já foi na Zona K? – perguntei.

- Não... Tive medo. – ele disse. – E você... Já foi até lá?

- Não. – confessei. – Pelo mesmo motivo que você.

A atendente trouxe dois cafés, duas fatias de torta e alguns salgados. Os pratos eram lindos e as comidas pareciam estar deliciosas. E mesmo não sabendo que eu não comia carne, pois eu não mencionei em momento algum, percebi que era tudo de legumes ou queijo. Eu estava com fome e comecei a comer. Eu não queria passar mal novamente. Depois que eu e meu corpo estávamos satisfeitos, eu perguntei:

- Qual seu interesse em mim?

- Tenho uma proposta.

- Estou ouvindo. – falei curiosa.

- Ajudo você a ser escolhida e em troca me informa tudo que ouvir.

- Eu... Poderia fazer isso?

- Não. – ele disse. – Assinará um documento onde diz que tudo que ouvir e ver tanto sobre minha mãe quanto em todo o castelo é terminantemente proibido passar adiante. Tudo é secreto.

- Então... Por que eu faria isso?

- Para estar lá, ganhando mais do que já sonhou em toda a sua vida.

- Isso é... Tentador. Mas... E se eu fosse aos meios de comunicação dizer o que você está me propondo?

- Você não faria isso. Seu pai está doente numa cama. Vocês não tem dinheiro para pagar o aluguel da própria casa. E eu diria que é mentira sua. Poderia ser punida por mentir sobre a realeza.

Olhei para ele confusa. Aquilo estava mesmo acontecendo? Dereck parecia um homem cruel.

- Posso perguntar uma coisa?

- Kat, você pode fazer qualquer pergunta.

- Não me chame de Kat... Isso é para os íntimos... Você está longe de ser íntimo na minha vida.

- Seremos amigos, Kat... Eu sei disto. Eu sou uma boa pessoa. Perceberá com o tempo.

- Boas pessoas não chantageiam as outras... Não fazem propostas ruins. Boas pessoas não usam os pobres e suas tristezas em detrimento de seus objetivos mesquinhos e fúteis.

- Como pode dizer que são mesquinhos e fúteis? Eu conheço você, mas você não me conhece.

- Acho que não quero conhecê-lo melhor, Vossa Alteza. Eu já era decepcionada com você antes mesmo de conhecê-lo. Agora acho que você é pior do que eu imaginava.

- Eu não sou assim, Kat.

- Seu irmão me ajudou e me levou para enfermaria. Daí você olhou para mim, numa maca, doente e pensou: esta mulher será minha espiã dentro da minha própria casa. Foi isso?

Ele pensou um pouco e disse:

- Não foi isso. Suas palavras que me convenceram. Depois fui atrás de informações e percebi que você era uma pessoa normal, como eu já falei antes. E acho que você é justa e contra muitas coisas que a monarquia traz.

- Alteza, você é a monarquia.

- Não... Eu nunca chegaria lá. Meu irmão foi preparado para isso desde que nasceu.

- Então se trata de uma vingança contra sua mãe por preferir seu irmão, que pela lei é o sucessor dela?

- Não... Trata-se de tentar de alguma forma poder ajudar pessoas e consertar algumas coisas... De dentro e de fora do castelo. Trata-se de tirar máscaras... Se trata de ajudar meu irmão e ver quem minha mãe é...

- Eu... Não sei se eu poderia fazer isso. – falei sinceramente. – Como você mesmo disse, eu preciso do emprego. Não deste... Eu preciso de qualquer emprego, entende?

- Eu ajudo você e você me ajuda. Não tem nada a perder, Kat.

- Se eu estarei assinando um documento para a rainha sobre confidencialidade, eu estarei cometendo um crime, Alteza.

- Kat, nós seremos amigos. Você pode me chamar de Deck.

- Você só pode estar brincando, Alteza. – falei rindo ironicamente e olhando para os lados para ver se não havia uma câmera me filmando. Aquilo não poderia ser real.

- Não me chame de Alteza, Kat. Por favor...

Respirei fundo e disse:

- Eu não preciso de você para chegar lá... Eu tenho uma indicação. – falei para ver o que ele poderia me dizer.

- Seria seu pai?

- Sim...

- Seu pai tem grande influência sobre o meu.

- Como assim? – perguntei. – Você pode me falar mais sobre isso?

- Seu pai nunca lhe falou sobre isso?

- Não. – confessei. – Eu só soube da ligação dele com o rei quando precisei do emprego. Ele disse que tentaria me ajudar a entrar na primeira fase, mas que o resto dependeria de mim.

- Sim, de alguma forma sim. Meu pai não pode influenciar diretamente na escolha da minha mãe, mas ele já deixou claro que tinha preferência por você.

Fiquei ainda mais confusa. A influência de meu pai sobre o rei Alfred era tanto assim?

- Por quê?

- Kat, acho melhor você perguntar para o seu pai sobre isso. Se ele nunca lhe falou, algum motivo ele teve.

- Por favor... Eu preciso saber.

- Ele foi guarda no castelo há muitos anos atrás. O restante você precisa saber dele. São histórias do passado que não quero me intrometer.

- Meu pai foi guarda no castelo? – falei confusa. – Por que ele nunca me contou?

- Ele tem muitas coisas que nunca contou.

- Dereck... Eu preciso ir embora. Eu estou confusa, estou cansada...

- Eu entendo.

Ele me entregou a sacola com minhas coisas e disse:

- Está tudo aí dentro.

- Obrigada.

- Pode ficar com esta roupa. E use os óculos. Ele lhe passa um ar mais sério. Tente não ficar bonita. Minha mãe não escolherá ninguém que possa despertar qualquer tipo de interesse em homens de dentro do castelo.

- Por isso a proibição da maquiagem e tudo mais... – falei entendendo melhor.

- Exatamente. Ela quer alguém inteligente que realmente a ajude e que ela possa confiar.

- Por que outra pessoa se ela já tem uma dama de companhia?

- Ela confia cegamente em Lana. Mas quer outra pessoa. Então não sei o que realmente aconteceu ou o real interesse dela em contratar outra pessoa.

- Popularidade entre as classes mais pobres?

- Pensei nisto também. – ele disse.

- Como me comporto?

- Como você é. Ela não gosta de mulheres fracas ou indecisas. Gosta de ser bajulada. Lana é difícil também. Quando você estiver dentro, ela vai tentar prejudicá-la.

- Por quê?

- Ciúme. Ela gosta da minha mãe... Ou do emprego. Não sei identificar.

- Você já tentou pegar informações dela?

- Ela nunca me daria.

- Meu pai conseguiria me dar a vaga se falasse com o seu?

- Talvez... Mas como eu disse, a decisão final é de minha mãe.

- Então no que você me ajudaria, afinal, sendo que eu posso entrar por meus próprios méritos ou por meu pai?

- Eu vou dizer para ela não escolher você.

Olhei para ele confusa e ri:

- Você é muito estranho.

Ele riu:

- Eu sei disto.

- Por que vai dizer para ela não me escolher?

- Porque então você será a escolhida dela.

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