Mag-log inO último dia de residência de Ana Clara Souza Cavalcanti no Toronto General Hospital foi uma terça-feira comum. Não havia cerimônia marcada, não havia discurso, não havia o tipo de encerramento solene que os filmes sugeriam existir nesses momentos. Havia um plantão de doze horas, dois pacientes em observação, um relatório que precisava ser finalizado antes das seis, e Priya aparecendo na porta da sala de descanso às cinco e quarenta e cinco da tarde com dois cafés e uma expressão que tentava ser casual e não era. — Último dia — Priya disse, entregando um dos cafés. — Último dia — Ana confirmou, sem olhar para cima do relatório. — Você devia estar com cara de alguma coisa. Alívio. Nostalgia. Qualquer coisa. — Estou com cara de alguém que precisa terminar esse relatório antes das seis. — Ana. — Priya. Priya se sentou
Eles voltaram a Toronto numa quinta-feira.O voo foi longo e quieto Matheo dormiu as primeiras quatro horas com a cabeça levemente inclinada para o lado, o que Ana havia aprendido que era o único sinal físico de que ele estava genuinamente exausto, porque acordado ele nunca permitia aquela perda de controle postural. Ela ficou acordada com o caderno no colo, escrevendo e apagando e reescrevendo listas que eram menos planos do que tentativas de organizar o que estava sentindo em categorias que pudesse examinar.Praga havia feito algo com ela que ela ainda não conseguia nomear completamente.Não era só os documentos. Não era só Viktor ou Rafael ou a caixa de metal com quinze anos de segredo guardado. Era algo menor e maior ao mesmo tempo a janela do hotel com o Rio Vltava lá embaixo, o café de 1884 onde Matheo havia pedido dois strudels sem perguntar e colocado o dela à sua frente com a naturalidade de quem conhece os
Eles ficaram no café por duas horas.Não duas horas de conversa intensa duas horas de algo mais honesto do que isso. Café bebido devagar. Silêncios que não precisavam ser preenchidos. Matheo com o olhar fixo na janela por longos minutos, Ana com o caderno aberto mas a caneta parada, os dois processando de formas completamente diferentes a mesma informação.Era assim que eles funcionavam quando funcionavam bem. Não o casal que finalizava as frases um do outro, não a parceria onde um sempre sabia o que o outro pensava. Mas dois intelectos distintos chegando ao mesmo lugar por caminhos diferentes, e encontrando-se lá com menos surpresa do que o mundo esperaria.O garçom trocou os cafés duas vezes sem ser chamado.Quando Ana finalmente falou, foi com a voz de quem chegou a uma conclusão não pela lógica mas por algo mais fundamental.— Eu preciso te contar algo — ela disse.
Praga em março era exatamente o que Ana havia prometido.Fria de uma forma que o Canadá não ensinava não a frieza seca e cortante de Toronto, mas uma frieza úmida e antiga, que subia das pedras do calçamento e das paredes de pedra arenosa como se o próprio passado da cidade estivesse preservado no frio. O céu era de um cinza pérola que tornava as pontes e as torres ainda mais dramáticas, como se a cidade soubesse que era bonita e tivesse escolhido o cenário adequado para si mesma.Ana ficou parada na janela do hotel por um longo momento depois que chegaram, olhando para o Rio Vltava lá embaixo, para a Ponte Carlos ao longe com as suas estátuas enfileiradas como sentinelas de pedra.— Você nunca veio à Europa — Matheo disse, atrás dela, desfazendo a mala com a eficiência automática de quem passa metade da vida em hotéis.— Nunca tive dinheiro. Depois não tive tempo. — Ela não tirou os olhos da janela. — É diferente do que eu imaginava.— Como você imaginava?— Mais de cartão postal. Me
A ligação durou quarenta e dois minutos.Matheo ficou no escritório do apartamento durante todo o tempo de pé, encostado na janela, olhando para Toronto sem ver Toronto. A voz de Rafael Drummond no telefone era agradável de uma forma que ele havia aprendido a desconfiar: o tipo de agradável que as pessoas cultivam quando passaram décadas precisando que os outros subestimassem sua inteligência.Ana estava no quarto, estudando. Matheo havia fechado a porta do escritório.— Viktor Sorel — Rafael disse, no começo da conversa, com o tom de quem está abrindo um arquivo que levou anos para compilar. — Eu o conheço há quinze anos. Não como sócio, não como amigo. Como observador.— Por quê você o observava?— Porque Viktor e eu temos algo em comum — Rafael respondeu. — Os dois orbitamos mundos que não eram os nossos por nascimento. A diferença é que eu nunca me envergonhei disso.— Você está dizendo que ele sim.— Estou dizendo que Viktor Sorel construiu uma identidade completamente nova sobr
A reunião foi marcada para uma terça-feira às dez da manhã.Ana escolheu um lugar neutro não a sede da Cavalcanti Tech, não o hotel de Viktor. Uma sala de reuniões alugada em um espaço de coworking no centro de Toronto, sem histórico entre nenhum dos dois, sem câmeras de segurança corporativa, sem assistentes posicionados estrategicamente perto da porta.Terreno nivelado.Ela chegou primeiro, desta vez por escolha própria. Pediu dois cafés sem saber se Viktor bebia café, mas precisava de algo para fazer com as mãos enquanto organizava os pensamentos. Colocou o caderno sobre a mesa. Abriu na página certa.Ela havia passado o fim de semana inteiro estudando Viktor Sorel não só os relatórios de Renato, mas tudo que era público. Artigos acadêmicos que ele havia citado em entrevistas. Palestras que havia dado em conferências de saúde digital. Uma entrevista antiga para uma revista tcheca que ela havia traduzido palavra por palavra com auxílio de software, lendo nas entrelinhas a forma como







