LOGIN[Ponto de Vista de Valerius]
O som seco do cetro batendo contra o chão ecoou pelo salão.
— Alfa Valerius — anunciou minha tia, sua voz firme e implacável. — As pretendentes já foram apresentadas. A tradição exige que você escolha uma antes que a lua atinja seu ápice.
Caminhei até as três lobas, e diante de cada uma, deixei meu olhar percorrer não apenas seus corpos, mas o que elas queriam que eu visse.
Isadora era ambiciosa, queria o poder; o desejo era de possuir. Celeste, misteriosa e desafiadora; o desejo era de conquistar. Ammara parecia vulnerável, verdadeira — ou ao menos foi o que eu quis crer, porque há muito tempo eu não sentia vontade de acreditar em nada, e aquilo, por um instante, pareceu bom demais para questionar.
Nenhuma delas era minha loba predestinada. Eu sabia disso em cada fibra do meu ser. O vínculo não estava ali. O chamado da Deusa não se manifestava nelas.
E, para ser sincero, aquilo não me surpreendeu.
Voltei-me para o salão. Minha voz se ergueu, firme, cortando o silêncio como uma lâmina:
— Membros da Corte Lupina, anciãos, alfas e representantes das matilhas.
— Esta noite, escolho nenhuma.
O caos explodiu... Alguns anciãos se levantaram, olhos faiscando de reprovação; outros apenas se entreolharam, inseguros, como se não soubessem se deveriam temer ou admirar minha ousadia.
Eu permaneci ereto e não senti o menor traço de culpa por isso. Já sentira culpa demais em outras noites como aquela — noites em que eu tomava o que me ofereciam e depois via o brilho nos olhos delas morrer quando eu as dispensava sem nem me dar ao trabalho de inventar uma desculpa gentil.
Não haveria isso esta noite. Só a verdade, dita sem cerimônia.
Minha tia apertou o cetro com força, os nós dos dedos brancos. A tradição mais uma vez havia sido quebrada diante de todos, e sua expressão era uma mistura de fúria e incredulidade.
— Valerius... — sua voz tremeu, mas não de fraqueza, e sim de raiva contida. — Você está desafiando seu pai.
— Eu sei — respondi, sem alterar o tom, o que pareceu incomodá-la mais do que qualquer grito seria capaz. — Eu não me interesso por nenhuma delas.
— Você tem um dever para com o reino — ela insistiu, a voz agora mais alta, tentando recuperar o controle que sentia escapar. — A Floresta Escura precisa de uma Luna. Precisa de herdeiros. Precisa que você...
— Que eu o quê? — cortei, sem pressa, como quem já sabe a resposta e só quer ver se ela tem coragem de dizê-la em voz alta. — Termine a frase, tia. Diga o que realmente quer dizer.
Ela hesitou. Só um segundo, mas eu vi.
— Precisa que eu cumpra o papel que meu pai não conseguiu cumprir sozinho — completei por ela, cada palavra pronunciada devagar, como quem enfia uma faca sem pressa de tirá-la. — É isso. Sempre foi isso. Não é sobre o reino. É sobre continuar fingindo que existe uma ordem a se seguir, mesmo que essa ordem já tenha me custado mais do que a senhora está disposta a admitir.
Ela empalideceu, e por um instante quase — quase — senti algo como remorso. Quase.
— Escute-me bem, porque não vou repetir — continuei caminhando até ficar bem diante dela, a voz agora baixa, quase gentil em sua frieza.
— Não participarei de mais nenhuma seleção organizada pela senhora ou pelo meu pai. Se convocar outra, eu simplesmente não vou aparecer, e a senhora que se vire para explicar aos anciãos por quê.
Ela abriu a boca, talvez para retrucar, mas não lhe dei tempo.
— Quando eu quiser, escolherei uma companheira, sem a pressão de ninguém — não será porque a Deusa apontou um dedo invisível para alguma loba dizendo ser ela a minha destinada, e definitivamente não entre as que a senhora acha mais conveniente pra mim.
Seu silêncio já dizia que ela sabia que eu não estava blefando. Ainda assim, terminei:
— Eu vou procurar por mim mesmo. E se eu não encontrar ninguém, que assim seja. Prefiro morrer sem herdeiro a colocar uma coroa na cabeça de alguém que eu escolha sob pressão.
— Valerius, isso é loucura, você não pode simplesmente...
— Posso — interrompi, e o silêncio que se seguiu foi absoluto. — Sou Alfa. Em breve serei rei. E a senhora vai aprender, junto com todos os outros neste salão, que não faço e nunca farei o que me mandam fazer só porque sempre foi assim.
Ela não respondeu. Pela primeira vez, eu a via sem palavras. E, por trás daquele silêncio, havia algo que eu não sabia bem o que era. Algo além do choque pela minha decisão.
Voltei-me para as três pretendentes, que me encaravam com expressões indecifráveis.
Isadora parecia furiosa. Ergueu o queixo, os olhos estreitos como lâminas. Havia desprezo ali, mas também frustração — como se não suportasse ser rejeitada por algo que via como certo. Não me abalou. Já tinha visto aquele desprezo antes, em outras noites, depois de eu ter tomado o que queria e ido embora.
Celeste sorriu. Um sorriso pequeno, enigmático. Como quem via, naquela recusa, não uma afronta, mas uma promessa de jogo ainda não terminado.
Ammara apenas baixou os olhos. Não sei se o que vi foi alívio — como se minha decisão tivesse libertado algo nela. Ou outra coisa, algo que eu não tinha nome ainda. E preferi não examinar de perto.
— Lady Isadora, Lady Celeste e Lady Ammara vocês não falharam comigo. Foram trazidas até aqui para cumprir uma expectativa que não deveriam carregar sozinhas. A recusa é minha.
— Vocês foram enviadas para um jogo que não escolheram jogar. Mas eu lhes dou uma escolha agora: voltem para suas matilhas com a cabeça erguida.
— Digam aos seus alfas que o príncipe Valerius não as rejeitou. Ele rejeitou ser obrigado a escolher uma rainha sem conhecê-la e sem que seu lobo a reconheça. Vou buscar meu próprio caminho — mesmo que isso signifique desafiar a tradição, o Conselho e a própria Deusa da Lua.
Ammara foi a primeira a sorrir. Um sorriso pequeno, genuíno o bastante para me atingir em algum lugar que eu não sabia que ainda estava exposto.
— Talvez — disse ela, baixinho, apenas para mim, os olhos brilhando sob a luz da lua — a Deusa esteja esperando exatamente por isso.
E então, antes que alguém pudesse impedi-la, ela se virou e caminhou em direção às grandes portas. Isadora e Celeste a seguiram, trocando olhares entre si. Uma com raiva. A outra carregava ainda... esperança.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Nem os toques das taças, nem o farfalhar dos vestidos, nem a respiração ofegante das pretendentes. Apenas o estalar da madeira sob o peso dos anciãos, que se ergueram lentamente do estrado.
O ancião mais velho, Aldric, foi o primeiro a se mover. Seus olhos brilhavam com uma fúria contida.
— Você não tem esse direito — disse, a voz grave ecoando pelo salão. — O ritual da Lua Negra não tem espaço para uma escolha pessoal. É uma obrigação que pesa sobre sua linhagem desde antes do seu nascimento.
— A maldição não é uma obrigação — respondi. — É uma sentença
— E você pretende desafiá-la? — outro ancião interpôs, se aproximando da borda do estrado. — Você acha que a Deusa vai aceitar sua rebeldia?
— Quanto à Deusa, não sei — admiti. — Mas sei que não aceitarei uma rainha imposta.
Um murmúrio percorreu o salão. Não era aprovação. Era medo.
Aldric ergueu a mão, e o silêncio voltou.
— Você está colocando o reino em risco, Valerius. A linhagem dos Vance precisa de uma Luna. Precisa de herdeiros. Se você recusar o ritual, quem garantirá a continuidade do trono?
— Estou ciente da minha responsabilidade — eu disse com cuidado. — Mas prefiro escolher eu mesmo quem será a mãe dos meus filhos.
A resposta caiu como uma pedra em água parada.
Os anciãos trocaram olhares. Alguns cerraram os punhos. Outros recuaram um passo, como se a minha decisão fosse algo contagioso — ou perigoso demais para se aproximar.
Foi então que minha tia Lydia se moveu, com uma calma que não combinava com o silêncio ao redor. Parou a poucos passos de mim, o cetro ainda firme entre os dedos.
— Valerius — disse, baixinho, apenas para mim. — Você acabou de transformar uma cerimônia em uma declaração de guerra.
— Não declarei guerra contra ninguém.
— Não contra eles. — Seus olhos se estreitaram. — Contra a ordem que mantém esse reino de pé.
Ela não gritou. Não precisava.
A ameaça estava no tom. Na forma como cada palavra foi medida. Na certeza de que, dali em diante, eu não seria mais apenas o herdeiro desobediente.
Eu seria um problema.
E problemas, na Corte Lupina, sempre encontravam uma solução.
Minha tia me lançou um último olhar — não mais de fúria, mas de algo parecido com pesar — antes de se retirar, sem dizer mais nada.
Os anciãos foram com ela.
Eu estava sozinho. Como sempre estivera. Mas, pela primeira vez em séculos, não pelo peso de uma maldição que eu não escolhera. E sim por uma decisão que era inteiramente minha.
Eu não sabia ainda se aquilo era liberdade. Ou apenas outra forma de prisão. Mas, pela primeira vez, a escolha fora minha.
E isso, por si só, já parecia o começo de alguma coisa.
[Ponto de Vista de Valerius]Mais tarde, estamos deitados na margem, envoltos nas roupas que recolhemos às pressas. O céu escureceu, e as primeiras estrelas começam a aparecer entre os galhos.Clara está deitada ao meu lado, a cabeça apoiada em meu braço. Luppo permanece desperto, satisfeito pela primeira vez em semanas.— Você vai me marcar? — ela pergunta, baixinho, como se tivesse medo da resposta.A pergunta me pega desprevenido. Meu corpo tensiona — não por recusa, mas por algo mais complexo.— Por que quer saber? — pergunto, evitando responder diretamente.— Porque quero ter certeza de que isso é real. — Ela vira o rosto para me encarar, e vejo a vulnerabilidade em seus olhos. — Duvido de tudo que parece bom demais.— Nosso vínculo é real — afirmo, e minha voz sai mais firme do que eu esperava.Ela se vira completamente para mim, apoiando o cotovelo na grama. O movimento nos deixa ainda mais próximos, e o cheiro dela — chuva, flor de laranjeira e mel — me envolve como uma lembra
[Ponto de Vista de Valerius]Fico parado na água, o coração disparado, incapaz de decidir se devo falar, me aproximar ou apenas contemplar aquele corpo que habitou meus sonhos durante dois meses.Sob a luz dourada do fim de tarde, finalmente vejo com clareza tudo o que nosso primeiro encontro me negou: os cabelos castanhos, longos e molhados, colados aos ombros como seda escura; o rosto delicado em formato de coração, com maçãs altas e um pequeno vinco de determinação entre as sobrancelhas, como se ela estivesse sempre pronta para desafiar o mundo.Mas são os olhos que me prendem — castanhos, profundos, com um brilho que nunca tinha visto em nenhuma outra loba. Não há neles medo, nem submissão. Apenas cautela... e algo que teima em brilhar por baixo, impossível de esconder.— Você é real — ela diz, a voz baixa, quase incrédula, como se temesse que eu desaparecesse se falasse alto demais.Um sorriso involuntário toca meus lábios.— Achei que fosse eu quem devia dizer isso.Dou um passo
[Ponto de Vista de Clara]Acordo bem cedo, como sempre. O ar ainda está fresco, mas já dava para sentir que o dia seria quente. Entro no banho e sinto a água deslizando suavemente pela minha pele — queria que ela pudesse não só me despertar, mas também levar os pensamentos que insistem em me acompanhar.Escolho um vestido leve de algodão, perfeito para enfrentar o dia quente que se aproxima. Sigo direto para a cozinha da nossa cabana.Chego esperando encontrá-la vazia — antes do barulho do dia, do vai-e-vem dos funcionários. Mas, para minha surpresa, lá está ela: Morgana.Sentada na mesa, mexendo distraidamente numa xícara, o olhar fixo no nada, como se estivesse esperando por alguém — e esse alguém, ao que tudo indicava, era eu.Não esperava encontrá-la ali; ela costuma fazer as refeições no salão principal com Ammara.Desde que soube que minha loba havia despertado — e que, teoricamente, eu teria encontrado meu companheiro —, ela vem agindo de forma estranha. Não é apenas curiosidad
[Ponto de Vista de Valerius]Faltam dois dias para o baile que vai definir os rumos da minha vida e eu não consigo parar de pensar na mulher do rio.Meu beta Renner está atolado nos preparativos: confirmar convidados, escolher flores, cuidar de protocolos que eu não tenho paciência de fingir que importam.Eu disse a ele que precisava checar a fronteira leste e parti. Não é exatamente uma mentira. Só não contei que a fronteira que eu ia checar ficava na beira daquele rio.Meu lobo, Luppo, está apático há semanas. Desde que a notícia do baile se espalhou, ele mal levanta a cabeça, como se já soubesse, antes de mim, que escolher uma rainha entre as lobas do reino seria trair o vínculo de companheiros que ele já via como nosso.Eu ainda não sabia se o que senti por ela nasceu do vínculo — ou do que haviam colocado na minha bebida naquela taverna. Mas Luppo não tinha dúvidas. E, por mais que eu tentasse racionalizar, eu também não.Luppo não quer uma rainha por conveniência.Luppo quer só
[Ponto de Vista de Clara]Nos dias seguintes, voltei ao rio sempre que pude. Mas não encontrei o colar.— Você ainda sente o vínculo? — perguntei a Luppita, sentada na margem, os pés dentro da água fria.Às vezes.— “Às vezes” não é resposta. Se ele quisesse mesmo nos encontrar, ficava aqui esperando. Ele nunca apareceu. Então é porque não deve estar interessado.Talvez ele não possa vir.— Ou talvez não queira, né?Ou talvez você devesse parar de tentar adivinhar os motivos de um homem que você viu por cinco minutos, no escuro, correndo por sua vida.Não respondi. Ela tinha razão — e era justamente isso que me irritava.As semanas se arrastaram. Eu voltei ao rio todas as noites, revirei a margem, procurei entre as pedras e as raízes, mas o colar não apareceu.O homem do rio não voltou a cruzar meu caminho. Nenhum reencontro. Nenhum sinal.Luppita permanecia inquieta, como um animal preso numa jaula pequena demais. Continuava dizendo que ele era o nosso companheiro, mas, com o passar
[Ponto de Vista de Morgana]Esperei Clara adormecer.Quando o silêncio tomou a casa, saí pelos fundos, envolta em um manto escuro. A lua cheia iluminava o caminho enquanto eu seguia em direção ao rio.Eu conhecia aquela parte do rio. Foi onde estive com Clara durante os rituais para o desabrochar da loba, que não aconteceu.Quando cheguei à margem, parei. A água estava calma, refletindo o céu estrelado como um espelho negro. Clara sempre falava que vinha nadar por aqui. Mas conhecer e encontrar eram duas coisas diferentes.— Deixa eu ver... humm, primeiro vou por aqui — murmurei.Caminhei devagar, examinando o chão, as pedras, as raízes expostas. A luz da lua não estava suficientemente clara, para revelar detalhes pequenos. Liguei a lanterna que trouxe comigo e comecei a procurar atentamente.Revirei a lama úmida da margem, levantei pedras cobertas de musgo, afastei folhas molhadas e galhos quebrados.Nada.— Droga — sussurrei.O tempo estava passando e, nada de encontrar o colar.Ser







