Accueil / Lobisomem / A Destinada Rejeitada do Rei Alfa fez dele seu Escravo / Capítulo 3 — A Primeira Rachadura ­— (Parte II)

Partager

Capítulo 3 — A Primeira Rachadura ­— (Parte II)

Auteur: Hera Valente
last update Date de publication: 2026-10-05 22:25:52

[Ponto de Vista do Narrador Observador]

Nos bancos reservados às famílias das candidatas, Morgana observa cada movimento com a atenção de quem j**a xadrez, não de quem assiste a uma cerimônia. Ao lado dela, outras mães trocam comentários nervosos sobre vestidos e posturas.

Morgana não diz nada. Seus olhos seguem Valerius quando ele caminha até Isadora, até Celeste, e se estreitam levemente quando ele finalmente para diante de Ammara.

Ela não sorri. Mas algo em sua postura se endireita, como quem reconhece, à distância, uma oportunidade.

Mais acima, no espaço reservado ao Conselho, dois anciãos que vieram assistir à seleção comentam em voz baixa.

— Mais uma seleção. Já vimos tantas, e nenhuma trouxe o que a profecia promete.

— Talvez esta seja diferente — responde o outro, os olhos fixos em Valerius. — O príncipe parece mais interessado desta vez.

— Interessado não é o mesmo que escolhido — retruca o primeiro. — Ele parece mais perdido do que o pai jamais esteve. Não consegue escolher entre tantas que já desfilaram diante dele.

— Talvez esteja esperando algo que ainda não apareceu.

— A pedra da Lua — murmura o primeiro. — A profecia não se cumpre sem ela.

Lydia permanece de pé junto ao trono vazio do rei, o cetro cerimonial apoiado contra o corpo como um bastão de comando. Para quem a observa de longe, ela parece serena, uma conselheira cumprindo com perfeição o papel que lhe foi dado.

Só quem está perto o suficiente nota o modo como ela reage quando Valerius está diante de uma candidata. Não é ansiedade pelo sucesso da cerimônia. É algo mais pessoal, algo que ela aprendeu há muito tempo a esconder atrás da compostura.

Ninguém sabe a dor que ela carrega. Para todos ali, ela é apenas a tia dedicada. A mulher que nunca se casou e dedicou a vida ao sobrinho e ao reino.

O que poucos sabem é o porquê.

Quando Valerius, por fim, anuncia que não escolherá nenhuma delas, o salão explode em murmúrios.

Mas antes mesmo que o eco de sua fala se apague, Morgana permanece imóvel em seu lugar. A mente corre três passos à frente de todos ali, recalculando cada peça do tabuleiro que ele ainda nem sabe que vai jogar.

Seus olhos permanecem em Valerius por um longo momento. Medindo-o. Calculando o preço.

Depois, muito devagar, ela dirige o olhar para Ammara.

Não há raiva neles. Há uma avaliação fria. Como se estivesse recalculando cada passo do plano, cada palavra dita à filha, cada possibilidade que agora se desfaz diante de todos.

Ammara não a olha.

E talvez seja isso que mais a irrita.

A recusa não é o fim.

É apenas o começo de algo mais caro.

A notícia atravessa a Corte Lupina antes mesmo que o eco da fala de Valerius se apague no salão.

Nos corredores, servos e guardas trocam olhares incrédulos.

— Nunca vi um Alfa dessa Corte recusar todas as candidatas de uma seleção — comenta um deles. — Muito menos em voz alta, diante de testemunhas, com a firmeza de quem não está blefando.

— Ele perdeu o juízo — diz o outro. — O pai nunca faria isso.

A notícia já havia chegado aos aposentos reservados aos anciãos. Um deles b**e o bastão contra o chão de pedra, irritado.

— Isso é desrespeito à tradição dos Vance.

— Quantos reis desta linhagem governaram ao lado de uma mulher que amavam de verdade? Eu só conheci um.

— E olhem o preço que ele pagou — completou o outro, mais baixo.

Ninguém respondeu. Todos sabiam de quem ele falava. Mas poucos ousavam dizer o nome em voz alta. Muito menos lembrar da mulher que carregava a pedra da Lua.

Do lado de fora do salão, Isadora caminha a passos duros, o rosto fechado em fúria contida. Celeste a acompanha, mais devagar, um sorriso pequeno ainda nos lábios — o mesmo sorriso de quem não considera o jogo encerrado.

Ammara segue as duas em silêncio, os olhos baixos, mas há algo em seu passo que não combina com derrota.

Mais atrás, isolada, Lydia observa a saída das três lobas com uma expressão que ninguém mais no corredor sabe ler. Para a Corte, ela é apenas a conselheira cumprindo com estoicismo mais um dever desagradável — o filho da irmã desafiando, mais uma vez, tudo que ela própria jurou honrar a vida inteira.

O que ninguém vê é a rapidez com que ela recompõe o rosto assim que percebe que está sendo observada, nem o quanto aquele gesto de recompor-se já se tornou, para ela, um hábito tão antigo quanto a própria dor que o motiva.

Quando finalmente chegam ao quarto que lhes haviam destinado — pequeno, mas confortável, uma concessão discreta para as famílias se prepararem para a cerimônia de escolha — Ammara se vira para a mãe, os olhos brilhando de raiva contida.

— A senhora viu? Ele rejeitou todas — diz, a voz baixa, mas firme. — Todas, mãe. Não fui a única.

Morgana não responde imediatamente. Caminha até a janela, os dedos pousados na moldura de madeira, observando o pátio iluminado pela lua.

— Eu vi — ela diz por fim.

— Mãe, essa não foi a melhor estratégia.

A frase fica no ar como uma acusação.

Morgana olha para a filha devagar. O rosto está sereno, os olhos mais duros.

— Funcionou exatamente como deveria funcionar.

— Mas... ele não me escolheu.

— Ele não podia escolher ninguém hoje. — Morgana se aproxima, a voz baixa, quase um sussurro. — Você viu o que ele fez. Rejeitou o ritual inteiro. Não foi uma recusa contra você, Ammara. Foi uma recusa contra todas.

Ammara recua um passo, os braços cruzados sobre o peito.

— Então por que me mandou se comportar daquele jeito?

— Porque você precisava ser diferente. — Morgana segura o queixo da filha, forçando-a a olhá-la. — Isadora se ofereceu descaradamente. Celeste o provocou. Você foi a única que não pediu nada. E ele notou.

Ammara desvia o olhar.

— Ele notou, sim. Mas não foi suficiente.

— Ainda não. — Morgana solta o queixo da filha e se afasta. — Um homem como Valerius não se entrega em uma noite. Ele está cercado por lobas que querem sua coroa, por anciãos que querem controlar seu casamento e por uma tia que quer decidir cada passo dele. Você precisava ser a única que não parecia querer nada dele.

— E agora?

— Agora ele vai lembrar de você, na hora certa. — Morgana sorri, e o sorriso não alcança os olhos. — Não como mais uma pretendente. Como a única que parecia sincera.

O silêncio se instala entre elas.

Ammara olha para a porta, como se ainda pudesse ver Valerius do outro lado dela.

— Ele olhou para mim — murmura. — Quando eu toquei a mão dele. Só por um instante, mas olhou.

Morgana para.

— E o que você sentiu?

Ammara hesita.

— Nada — mente.

Morgana a observa por muito tempo. Depois, sorri de novo.

— Claro que não.

Ela se volta para a janela, e a luz da lua desenha seu perfil severo contra o vidro.

— Descanse, Ammara. Amanhã, quando o salão estiver cheio de boatos, vamos descobrir exatamente onde a recusa dele nos deixou.

Morgana sorri.

Porque ela sabe... aquela recusa não era o fim.

Era apenas o primeiro movimento de um jogo muito mais longo.

Naquela noite, nos registros formais da Corte, o escriba encarregado de documentar a cerimônia escreve apenas uma linha, seca e burocrática:

“O príncipe Valerius Vance declinou de todas as candidatas apresentadas. A tradição da seleção real permanece suspensa até nova determinação.”

Ninguém imagina, lendo aquela linha anos mais tarde, o tanto que ela custou.

Continuez à lire ce livre gratuitement
Scanner le code pour télécharger l'application

Dernier chapitre

  • A Destinada Rejeitada do Rei Alfa fez dele seu Escravo   Capítulo 15 — A Promessa

    [Ponto de Vista de Valerius]Mais tarde, estamos deitados na margem, envoltos nas roupas que recolhemos às pressas. O céu escureceu, e as primeiras estrelas começam a aparecer entre os galhos.Clara está deitada ao meu lado, a cabeça apoiada em meu braço. Luppo permanece desperto, satisfeito pela primeira vez em semanas.— Você vai me marcar? — ela pergunta, baixinho, como se tivesse medo da resposta.A pergunta me pega desprevenido. Meu corpo tensiona — não por recusa, mas por algo mais complexo.— Por que quer saber? — pergunto, evitando responder diretamente.— Porque quero ter certeza de que isso é real. — Ela vira o rosto para me encarar, e vejo a vulnerabilidade em seus olhos. — Duvido de tudo que parece bom demais.— Nosso vínculo é real — afirmo, e minha voz sai mais firme do que eu esperava.Ela se vira completamente para mim, apoiando o cotovelo na grama. O movimento nos deixa ainda mais próximos, e o cheiro dela — chuva, flor de laranjeira e mel — me envolve como uma lembra

  • A Destinada Rejeitada do Rei Alfa fez dele seu Escravo   Capítulo 14 — O Rio Nos Devolve Um ao Outro

    [Ponto de Vista de Valerius]Fico parado na água, o coração disparado, incapaz de decidir se devo falar, me aproximar ou apenas contemplar aquele corpo que habitou meus sonhos durante dois meses.Sob a luz dourada do fim de tarde, finalmente vejo com clareza tudo o que nosso primeiro encontro me negou: os cabelos castanhos, longos e molhados, colados aos ombros como seda escura; o rosto delicado em formato de coração, com maçãs altas e um pequeno vinco de determinação entre as sobrancelhas, como se ela estivesse sempre pronta para desafiar o mundo.Mas são os olhos que me prendem — castanhos, profundos, com um brilho que nunca tinha visto em nenhuma outra loba. Não há neles medo, nem submissão. Apenas cautela... e algo que teima em brilhar por baixo, impossível de esconder.— Você é real — ela diz, a voz baixa, quase incrédula, como se temesse que eu desaparecesse se falasse alto demais.Um sorriso involuntário toca meus lábios.— Achei que fosse eu quem devia dizer isso.Dou um passo

  • A Destinada Rejeitada do Rei Alfa fez dele seu Escravo   Capítulo 13 — O Reencontro — Parte II

    [Ponto de Vista de Clara]Acordo bem cedo, como sempre. O ar ainda está fresco, mas já dava para sentir que o dia seria quente. Entro no banho e sinto a água deslizando suavemente pela minha pele — queria que ela pudesse não só me despertar, mas também levar os pensamentos que insistem em me acompanhar.Escolho um vestido leve de algodão, perfeito para enfrentar o dia quente que se aproxima. Sigo direto para a cozinha da nossa cabana.Chego esperando encontrá-la vazia — antes do barulho do dia, do vai-e-vem dos funcionários. Mas, para minha surpresa, lá está ela: Morgana.Sentada na mesa, mexendo distraidamente numa xícara, o olhar fixo no nada, como se estivesse esperando por alguém — e esse alguém, ao que tudo indicava, era eu.Não esperava encontrá-la ali; ela costuma fazer as refeições no salão principal com Ammara.Desde que soube que minha loba havia despertado — e que, teoricamente, eu teria encontrado meu companheiro —, ela vem agindo de forma estranha. Não é apenas curiosidad

  • A Destinada Rejeitada do Rei Alfa fez dele seu Escravo   Capítulo 12 — O Reencontro — Parte I

    [Ponto de Vista de Valerius]Faltam dois dias para o baile que vai definir os rumos da minha vida e eu não consigo parar de pensar na mulher do rio.Meu beta Renner está atolado nos preparativos: confirmar convidados, escolher flores, cuidar de protocolos que eu não tenho paciência de fingir que importam.Eu disse a ele que precisava checar a fronteira leste e parti. Não é exatamente uma mentira. Só não contei que a fronteira que eu ia checar ficava na beira daquele rio.Meu lobo, Luppo, está apático há semanas. Desde que a notícia do baile se espalhou, ele mal levanta a cabeça, como se já soubesse, antes de mim, que escolher uma rainha entre as lobas do reino seria trair o vínculo de companheiros que ele já via como nosso.Eu ainda não sabia se o que senti por ela nasceu do vínculo — ou do que haviam colocado na minha bebida naquela taverna. Mas Luppo não tinha dúvidas. E, por mais que eu tentasse racionalizar, eu também não.Luppo não quer uma rainha por conveniência.Luppo quer só

  • A Destinada Rejeitada do Rei Alfa fez dele seu Escravo   Capítulo 11 — A Escolha do Príncipe

    [Ponto de Vista de Clara]Nos dias seguintes, voltei ao rio sempre que pude. Mas não encontrei o colar.— Você ainda sente o vínculo? — perguntei a Luppita, sentada na margem, os pés dentro da água fria.Às vezes.— “Às vezes” não é resposta. Se ele quisesse mesmo nos encontrar, ficava aqui esperando. Ele nunca apareceu. Então é porque não deve estar interessado.Talvez ele não possa vir.— Ou talvez não queira, né?Ou talvez você devesse parar de tentar adivinhar os motivos de um homem que você viu por cinco minutos, no escuro, correndo por sua vida.Não respondi. Ela tinha razão — e era justamente isso que me irritava.As semanas se arrastaram. Eu voltei ao rio todas as noites, revirei a margem, procurei entre as pedras e as raízes, mas o colar não apareceu.O homem do rio não voltou a cruzar meu caminho. Nenhum reencontro. Nenhum sinal.Luppita permanecia inquieta, como um animal preso numa jaula pequena demais. Continuava dizendo que ele era o nosso companheiro, mas, com o passar

  • A Destinada Rejeitada do Rei Alfa fez dele seu Escravo   Capítulo 10 — O Plano de Morgana

    [Ponto de Vista de Morgana]Esperei Clara adormecer.Quando o silêncio tomou a casa, saí pelos fundos, envolta em um manto escuro. A lua cheia iluminava o caminho enquanto eu seguia em direção ao rio.Eu conhecia aquela parte do rio. Foi onde estive com Clara durante os rituais para o desabrochar da loba, que não aconteceu.Quando cheguei à margem, parei. A água estava calma, refletindo o céu estrelado como um espelho negro. Clara sempre falava que vinha nadar por aqui. Mas conhecer e encontrar eram duas coisas diferentes.— Deixa eu ver... humm, primeiro vou por aqui — murmurei.Caminhei devagar, examinando o chão, as pedras, as raízes expostas. A luz da lua não estava suficientemente clara, para revelar detalhes pequenos. Liguei a lanterna que trouxe comigo e comecei a procurar atentamente.Revirei a lama úmida da margem, levantei pedras cobertas de musgo, afastei folhas molhadas e galhos quebrados.Nada.— Droga — sussurrei.O tempo estava passando e, nada de encontrar o colar.Ser

Plus de chapitres
Découvrez et lisez de bons romans gratuitement
Accédez gratuitement à un grand nombre de bons romans sur GoodNovel. Téléchargez les livres que vous aimez et lisez où et quand vous voulez.
Lisez des livres gratuitement sur l'APP
Scanner le code pour lire sur l'application
DMCA.com Protection Status