Home / Romance / A Dívida Que Nos Uniu / Entre o Caos e a Amizade

Share

Entre o Caos e a Amizade

Author: Sah Flor
last update publish date: 2026-05-18 03:17:32

Os dias na fazenda se tornaram uma sequência confortável de rotinas compartilhadas, onde a amizade entre Pedro e Ana florescia como as flores silvestres nos pastos após uma chuva. Não havia grandes gestos, apenas o acúmulo de momentos que teciam uma rede de confiança e afeto entre eles.

Em uma manhã fresca, Ana acordou cedo e decidiu surpreender Pedro com um café da manhã completo. Ovos mexidos com ervas, pão torrado e uma bela caneca de café quente com leite ordenhado logo cedinho.

Ele desceu as escadas, o cheiro o guiando, e encontrou a mesa posta na varanda, com o sol nascendo sobre as montanhas.

— O que é isso? — perguntou ele, parando na porta, com os olhos surpresos.

Ana sorriu, cruzando os braços.

— Só um jeito de dizer que... obrigada por me deixar ficar... no meu ritmo. E por não ser tão bruto quanto eu achava que era. — disse ela sem perder a leve implicância.

Pedro sorriu e um pouco desconfiado, sentou-se devagar, pegando o garfo.

— Não sou santo, confesso, mas... você também não fica pra trás— disse dando uma boa garfada dos ovos mexido — Hum, isso tá muito bom, até melhor que os meu. —Ana sorriu faceira

—Ah que bom que gostou, disse sentando-se.

Eles comeram juntos, conversando sobre tudo... o preço do gado no mercado, as histórias da infância dela na fazenda do pai, as memórias dele de viagens antigas antes de se casar com a falecida esposa e pela primeira vez, Pedro se abriu um pouco ao falar sobre a perda, emocionado e com uma honestidade crua que fez Ana estender a mão sobre a mesa, tocando a dele por um breve instante.

— Deve ser duro carregar isso sozinho— disse ela, suavemente.

Ele assentiu, sem retirar a mão.

— Era. Agora... menos... bem menos...

Ela sorriu envergonhada, colocando uma mecha de cabelo que teimava em cair nos olhos para atrás das orelhas.

Outra tarde, eles passearam a cavalo pelos limites da propriedade. Pedro ensinava Ana a identificar pegadas de animais selvagens, e ela ria das próprias tentativas desajeitadas.

— Essa é de cachorro ? ou de onça ? — perguntou ela, apontando para uma marca na terra.

— Cachorro . Onça tem garras mais afiadas, mais funda, pesada.

— Nossa, você sabe conhece bem, sabe de tudo.

— Não tudo. Mas o suficiente pra não me perder.

Ana inclinou a cabeça, olhando para ele com um sorriso genuíno.

— Eu me sinto menos perdida aqui agora, até mesmo protegida, com você.

Pedro não respondeu com palavras, mas com o olhar dele que estava diferente para ela. Era quente e protetor.

Eles voltaram para casa ao entardecer, o silêncio entre eles agora era um companheiro acolhedor, não mais opressivo.

Mas a paz durou pouco...

Tudo mudou quando Sofia Alencar voltou. A filha de Pedro, de 26 anos, estudava medicina em Harvard e raramente visitava, mas uma pausa no semestre a trouxe de surpresa para a fazenda. Ela chegou num carro alugado, bagagens cheias de livros e roupas urbanas, o rosto bonito marcado por uma expressão dura que Ana não esperava.

Pedro a recebeu com um abraço apertado na varanda.

— Filha, que surpresa boa. Faz tempo demais.

Sofia retribuiu o abraço, mas seus olhos já vasculhavam a casa, parando em Ana, que observava da porta da cozinha. A olhou dos pés a cabeça antes de perguntar sem demora:

— Pai... quem é essa? — perguntou com a voz afiada como uma lâmina.

Pedro pigarreou.

— Essa é Ana... Minha... esposa.

Sofia congelou, depois soltou uma risada incrédula.

— Esposa? Você tá brincando, né? Ela tem o quê, 20 anos?

Pedro ficou sem reação, enquanto Ana deu um passo à frente, tentando ser educada.

— Tenho 22. Prazer, Sofia. Seu pai me falou muito de você.

Sofia ignorou a mão estendida.

— Ah, falou? Que bom. Mas ele não me falou nada sobre você. O que é isso, pai? Um casamento arranjado? Um Age Gape? Resolveu agora pegar menininhas? Que absurdo Pai!

Pedro franziu a testa, irritado

— Sofia, mais respeito! —Esbravejou ele entre dentes

— Respeito? — rebateu ela, entrando na casa e jogando a bolsa no sofá. — Uma garota nova, bonita, casando com um viúvo rico e recluso? Parece oportunismo pra mim... ou safadeza!

Ana sentiu o rosto queimar, mas manteve a compostura.

—Não se preocupe Sofia, que eu não quero nada do que é seu, se é isso que te preocupa. Foi um acordo com meu pai, mas...

— Acordo? — interrompeu Sofia, rindo com desdém. — Claro, "acordo". Você acha que eu sou idiota? Sei muito bem reconhecer uma golpista quando vejo uma.

—Chega Sofia! —Gritou Pedro assustando-a.

—Deixa Pedro, —Ana tentou acalmá-lo —Ela tem razão, disse Ana. — Eu no lugar dela talvez também agiria assim...

—Razão? Você ainda a defende Ana? Aqui ninguém vai te tratar mal. Ela vai ter que te respeitar, aqui é sua casa também — Disse ele defendendo Ana.

Sofia fechou a cara mais ainda, pegou sua bolsa,

—Eu vou pro meu quarto, se é que eu ainda tenho um. — disse deixando os dois sozinhos.

Os dias seguintes viraram um inferno sutil.

Sofia implicava com tudo que Ana fazia.

Criticava a comida que ela cozinhava

—"Isso é o que você chama de jantar? Meu pai merece o melhor...

Ela escondia itens pessoais de Ana.

Aprontava pequenas sabotagens. Como soltar o cavalo favorito de Ana no pasto distante, forçando-a a passar horas procurando, ou "acidentalmente" derrubar um vaso antigo na sala, culpando o "vento". Sujava a pia ou a mesa e não limpava, provocando Ana, para que ela se sentisse como uma empregada na casa.

— Você não pertence a esse lugar garota— sussurrou Sofia certa noite, encurralando Ana no corredor enquanto Pedro dormia. — Meu pai é um homem bom, mas ingênuo. Você é só uma parasita. Vá embora antes que eu conte pra todo mundo na cidade o que você realmente é: uma oportunista que se vendeu por dinheiro.

Ana tentava ignorar, focando na amizade com Pedro. Ele notava a tensão e tentava mediar.

— Sofia, para com isso. Ana não fez nada errado, ela é mais inocente que todos nós juntos.

— Inocente? Ah para pai! Ela se enfiou na nossa casa! Mamãe se foi e você arrumou uma substituta da minha idade, ou melhor, mais nova que eu. Isso chega a ser nojento!

Pedro suspirava, exausto. — Ana é tão dona dessa casa como você minha filha. Ela é minha esposa agora...

Ela o ignorava e o deixava falando sozinho.

Os problemas agora escalavam. A fazenda, que antes era um refúgio, ecoava discussões a todo tempo. Sofia ligava para amigos da cidade espalhando fofocas, e Ana via olhares curiosos dos empregados. O sossego se foi. Agora eram noites sem dormir, refeições tensas, caminhadas solitárias interrompidas por comentários venenosos.

Então algo terrível aconteceu...

Após uma briga feia na cozinha onde Sofia acusou Ana de "roubar" um anel da mãe falecida que ela lembrava de ter consigo, acusando assim Ana de entrar no quarto dela e mexer em suas coisas, que na verdade estavam guardada no cofre no Banco, Ana quebrou, explodiu.

— Chega! — gritou ela, entre lágrimas — Eu não aguento mais isso. Seu pai me deu liberdade pra ficar ou ir, e eu escolho ir. Não vou destruir sua família. Sofia venceu. Aqui é a casa dela, e eu sou a intrusa.

Pedro tentou intervir.

— Ana, espera. A gente vai resolver isso!

Mas Ana já estava arrumava a mala.

— Não, Pedro. Eu gosto muito de você, de verdade. Você é alguém que me cuidou, me protegeu... Mas isso... isso tá me matando. Eu vou embora. Amanhã cedo bem cedo.

Sofia observava da porta com um sorriso triunfante disfarçado.

A noite caiu pesada na fazenda, e Ana, sozinha no quarto, se perguntou se a amizade que construíra com Pedro, valia o preço de tanta dor...

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A Dívida Que Nos Uniu    O Que o Amor Não Pode Segurar

    Os meses seguintes foram de preparação. O noivado de Sofia e Henrique avançava. Sofia usava o anel de compromisso com um sorriso educado, aceitava os planos do casamento e respondia às mensagens carinhosas do noivo. Mas algo nela havia mudado, ela estava inquieta. O brilho nos olhos, já não era o mesmo. Uma tarde, enquanto ajudavam a consertar a cerca do pasto novo, Marcos não aguentou. Sofia ria de alguma coisa, com o cabelo preso num coque bagunçado e as mãos sujas de terra e estava um pouco mais leve. Marcos parou o trabalho, limpou as mãos na calça e a chamou— Sofia… eu... preciso falar com você. —falou ele sem jeito, criando coragem.Ela virou-se, ainda sorrindo.— Fala.Ele respirou fundo e com o peito apertado desabafou,— Eu não consigo mais fingir. Eu... eu me apaixonei por você. E... eu sei que você está noiva. Eu sei que não tenho o direito, mas eu achei que precisava te falar. Porque se eu não falasse, eu ia explodir.Sofia ficou em silêncio. O sorriso desapareceu. Os o

  • A Dívida Que Nos Uniu    Entre Escolhas e Memórias

    As semanas seguintes trouxeram uma calma relativa à fazenda. Lucas ainda acordava algumas noites com pesadelos, mas agora conseguia voltar a dormir mais rápido quando Pedro ou Ana o abraçavam. A terapia ajudava. Ele já corria de novo pelo quintal, pedia para montar na Lua e desenhava a família quase todos os dias.— Mamãe, olha! Agora a Clara tá no desenho também — mostrava ele, orgulhoso, com o lápis de cor na mão.Ana se agachava, beijava a testa dele e sorria.— Está perfeito, meu amor. Você é o artista da família.Sofia vinha com mais frequência. Sua residência em São Paulo era exigente, mas ela arrumava um jeito de passar os finais de semana na fazenda.O romance com Henrique Martins crescia, tinham longas conversas por telefone, mensagens carinhosas e beijos furtivos quando ele ia até a fazenda ou quando ela escapava de São Paulo e ia até ele.Numa tarde de sábado, Henrique chegou na fazenda. Encontrou Sofia no quintal, sentada no gramado com a pequena Sofia filha de Marcos, no

  • A Dívida Que Nos Uniu    Cicatrizes que Ficam

    Os dias após o resgate de Lucas foram marcados por um silêncio pesado na fazenda. O menino dormia mal, acordava várias vezes à noite com pesadelos, chamando pelo pai aos gritos. Ana e Pedro revezavam-se ao lado dele. Na primeira noite depois do ocorrido, Lucas acordou chorando alto por volta das três da manhã.— Papai! O tio mau… ele tá aqui!Pedro levantou ligeiro indo para o quarto do filho o pegando no colo em seguida,— Shhh, meu amor. Papai tá aqui. Ninguém vai te levar. Papai te protege.Lucas agarrou o pescoço dele, com o corpinho tremendo.— Ele disse que eu era dele… que vocês não eram minha família de verdade…Ana sentou na cama, os olhos estavam inchados de choro, e abraçou os dois.— Nós somos sua família, meu filho. De verdade. Ninguém nunca vai mudar isso.Pedro beijou os cabelos cacheados do menino.— Eu te encontrei filho. E eu sempre vou te encontrar. Você é meu filho. Pra sempre e nada vai mudar isso viu?Lucas chorou até dormir de novo, agarrado aos dois. Ana e Pe

  • A Dívida Que Nos Uniu    Sobrevivendo a tempestade

    A camionete de Pedro voava pela estrada de terra, levantando uma nuvem de poeira vermelha que parecia sangue no ar. O coração dele batia tão forte que parecia querer sair do peito. As mãos apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.— Aguenta, filho… papai tá indo te buscar — repetia ele em pensamento. — Calma seu Pedro, correndo desse jeito não vamos chegar a lugar algum, — disse Marcos que o acompanhava.— É a vida do meu filho que está em risco Marcos, eu não posso perder tempo porra — respondeu Pedro nervoso.A polícia havia montado bloqueios nas estrada da região, mas Valter conhecia outras estradas secundárias, que ligavam a mata. No banco do passageiro, Marcos segurava firme uma espingarda no colo.— Se ele machucar o menino… — murmurou Marcos, com a voz grave.— Eu mato ele — completou Pedro, sem hesitar. — Juro por Deus que eu acabo com ele.Enquanto isso, em casa, o inferno era silencioso. Ana estava desperada, andava de um lado para o outro n

  • A Dívida Que Nos Uniu    Tempestade no Paraíso

    E os meses se passaram, e a pequena Clarinha nasceu numa manhã chuvosa de setembro, após um parto normal e tranquilo. Ana sentiu as contrações pela madrugada e foi levada por Pedro ao hospital, e assim que chegou por lá, logo a pequenina nasceu, sem muito esforço. Clara Alencar, era forte, cabelos escuros, com pulmões à pleno vapor, pois seu choro era ouvido a uma boa distância, e com isso ela já mostrava sua personalidade.Ana segurou a filha no peito pela primeira vez e chorou emocionada, exausta e aliviada.— Ela é perfeita… — sussurrou ela, olhando para a bebê de cabelos escuros.Pedro, com os olhos vermelhos, beijou a testa da filha e depois a de Ana.— Obrigado por aguentar tudo isso, minha menina. Obrigado meu amor.Maria e Rosa, mãe e tia de Ana, vieram morar definitivamente na fazenda uma semana depois do nascimento. Maria trouxe sua energia prática e Rosa, suas histórias e risadas. A casa ganhou mais vida, mais cor, mais alegria, mais gente. Rosa cuidava de Clara à noite

  • A Dívida Que Nos Uniu    Raízes e Novos Brotos

    O tempo na fazenda do corria como o vento nas montanha, às vezes era suave, às vezes forte, mas sempre seguindo adiante.Seis meses se passaram desde a confirmação da nova gravidez. Ana estava com 28 semanas, a barriga já bem arredondada e o corpo mudando a cada dia. O médico, Dr. Henrique Martins, o mesmo que acompanhou a gravidez anterior e a recuperação de Ana, fazia o acompanhamento com rigor. Nas consultas mensais, ele repetia sempre,— Tudo dentro do esperado, Ana. Pressão controlada, bebê crescendo bem. Mas continue com o repouso relativo. Nada de esforço excessivo, alimentação regrada, e tome certinho as vitaminas que te passei.Na última ultrassonografia, o momento foi emocionante. Pedro segurava a mão de Ana com força, com os olhos fixos na tela.— Querem saber o sexo? — perguntou o médico sorrindo.Os dois assentiram ao mesmo tempo emocionados.— É uma menina — revelou o médico.Ana soltou um soluço de emoção, e Pedro beijou sua testa, com os olhos emocionados.— Uma menin

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status