LOGINOs dias se arrastavam na fazenda como o sol lento no céu do interior. Ana tentava manter a rebeldia acesa, mas a rotina imposta por Pedro ou melhor, a ausência de rotina imposta a desgastava. Ele não a obrigava a nada: não exigia que cozinhasse, limpasse ou se comportasse como "esposa". Apenas vivia como sempre vivera, e isso a irritava mais do que qualquer ordem.
Certa manhã, Ana apareceu na cozinha com uma blusa solta e jeans surrado, o cabelo preso num coque bagunçado. — Vou dar uma volta pela propriedade — anunciou ela, como se fosse um desafio. Pedro, bebendo café preto na mesa comprida, ergueu os olhos devagar. — Cuidado com o curral do fundo. O touro novo tá arisco. — Eu sei me virar — rebateu ela, seca. — Não preciso de babá. Ele deu de ombros. — Nunca disse que precisava. Mas quando ela voltou horas depois, suja de terra e com um arranhão no braço, Pedro estava na varanda, esperando. Não disse nada sobre o machucado. Apenas estendeu um copo d'água gelada. — Toma. Vai desidratar desse jeito. Ana pegou o copo, mas não agradeceu. — Não pedi sua ajuda. — Eu sei. Mas você tá aqui. Então beba. As farpas continuavam. Pequenas, afiadas, diárias. Mas aos poucos Ana ia tomando conhecimento do lugar, e o primeiro lugar que começou a tomar espaço, foi na cozinha, pois passara a vida cozinhando pra família quando morava com os pais, ela amava cozinhar. E na fazenda não foi diferente, ela fazia por gosto, não porque Pedro mandasse, mas também para passar seu tempo enquanto ela vivia ali, como "prisioneira", como ela mesma vivia falando. Ela preparava pratos que enchiam a casa de cheiro bom, carne de panela com batata, arroz soltinho, feijão temperado com alho e louro. Ela colocava o prato dele na mesa sem dizer uma única palavra, e comia sozinha na cozinha, de pé, olhando pela janela. Pedro comia em silêncio na sala de jantar, olhando para o prato como se fosse um relatório de safra. Às vezes, quando achava que ela não estava vendo, observava as costas dela enquanto lavava a louça. Não dizia nada. Nunca dizia nada, apenas observava a cintura volumosa da jovem, o cabelo esvoaçado caindo em cascata, isso o pertubava, e muito... Ana ainda passava o dia provocando Pedro. Respondia “sim senhor” e “não senhor” para ele com um tom que transformava qualquer educação em provocação. Quando ele dava alguma ordem — “deixa esse portão aberto”, “não deixa a porteira do curral encostada” —, ela obedecia, mas sempre com um comentário ácido depois. — Se o senhor quer tanto mandar em alguma coisa, por que não manda no vento? — disse ela uma vez, enquanto fechava a porteira com mais força do que precisava. Pedro apenas a encarou por alguns segundos. Depois virou as costas e foi embora, e sem que ela percebesse ele deu um leve sorriso. E assim seguiam os dias... dois estranhos dividindo a mesma casa, o mesmo teto, o mesmo silêncio pesado. Uma tarde ensolarada, Ana resolveu subir na mangueira mais alta do pomar. Ela queria as mangas mais maduras, as que ficavam lá em cima, quase fora do alcance. Subiu descalça, ágil como sempre foi, rindo sozinha do perigo. Quando esticou o braço para pegar a última, o galho cedeu. Não muito. Só o suficiente para desequilibrá-la. Ela caiu. O impacto foi seco. A perna torceu de lado, o tornozelo virou num ângulo errado. A dor subiu como facada. Ana orgulhosa, mordeu o lábio até sangrar para não gritar. Mas foi impossivel, obrigou-se a gritar mesmo assim logo em seguida quando tentou se apoiar no pé. Minutos depois, Pedro apareceu correndo. Alguém o chamou do curral. Ele largou o arame farpado que estava esticando e veio sem chapéu, sem camisa de manga comprida, só com a regata suja de terra e suor. — Ana! Ele se ajoelhou ao lado dela, as mãos grandes e calejadas pairando sem saber onde tocar primeiro. — Não mexe — disse ele, voz baixa, mas firme. — Deixa eu ver. Ela tentou afastar a mão dele. — Não precisa. Eu me viro. — Cala a boca, menina! O tom era bruto mas preocupado. E isso a pegou de surpresa. Pedro passou um braço por baixo dos joelhos dela e o outro nas costas. Levantou-a como se ela não pesasse nada. Ana abriu a boca para protestar, mas a dor latejante no tornozelo a calou. Ele a levou para dentro de casa, subiu as escadas com cuidado, entrou no quarto dela e a deitou na cama. Foi buscar gelo na cozinha, voltou com uma toalha molhada e um balde. Sentou-se na beira da cama, segurou o pé dela com uma delicadeza que ninguém imaginaria possível em mãos tão grandes e ásperas. — Vai doer um pouco — avisou. — Eu aguento — respondeu ela, mas a voz saiu fraca. Ele começou a colocar gelo devagar. De vez em quando erguia os olhos para ver se ela estava bem. Quando ela fazia careta, ele parava, esperava. Não falava muito. Só fazia o que precisava ser feito. Ana observava tudo aquilo em silêncio. O jeito como ele franzia a testa concentrado. Como os músculos do antebraço se moviam enquanto segurava o pé dela com cuidado. Como ele parecia… humano. Não o fazendeiro frio e solitário que ela pintou na cabeça. Não o homem que aceitou uma esposa em troca de uma dívida. Era só... Pedro. E, pela primeira vez desde que chegara àquela fazenda, Ana não sentiu vontade de brigar. Ela apenas fechou os olhos e deixou que ele cuidasse dela. Os dias se passaram, Ana se recuperou da queda, quase não sentia dor ao caminhar, porém apesar de ser grata por Pedro ter cuidado dela, a ideia de fugir daquele lugar, ainda pairava naquela cabecinha teimosa. Então Ana começou a planejar sua fuga em segredo. Tinha algum dinheiro guardado que sua mãe havia lhe durante um bom tempo para comprar seu enxoval quando um dia se casasse, agora lhe serviria, visto que seu casamento não foi como um dia ela imaginou. Observava os horários dos caminhoneiros que passavam pela estrada principal, para que pudesse conseguir uma carona até a cidade. Certa noitinha, quando Pedro saiu para verificar um gado doente, ela arrumou uma mochila pequena: roupas, documentos, um pouco de comida. O coração batia forte enquanto descia as escadas rangentes, a casa escura e silenciosa. Chegou à porteira principal. A lua iluminava o caminho de terra. Mas, ao abrir o trinco, ouviu o som de cascos. Pedro apareceu montado no cavalo, vindo da direção oposta, como se soubesse. — Indo a algum lugar? — perguntou ele, a voz baixa, sem raiva. Ana congelou. — Vou embora. Você não pode me impedir. Ele desmontou devagar, aproximando-se. — Não vou impedir. A estrada tá ali, ele disse —Porém pense bem, não terá mais volta. — Eu não aguento mais isso — disse ela, a voz falhando. — Essa casa, esse silêncio, você me olhando como se eu fosse um erro que você comprou. Pedro ficou quieto por um longo momento. — Eu nunca te vi como erro. Ana riu, amarga. — Então por que aceitou tudo isso? — Porque... eu tava sozinho. E porque... achei que talvez você pudesse mudar isso —Confessou. Ela baixou os olhos, as lágrimas vindo sem permissão. — Eu tentei fugir três vezes nos últimos meses. Toda vez você aparece. Como se soubesse. — Eu sei porque te observo menina — admitiu ele, sem rodeios. — Não pra te prender, mas pra te proteger. Ana ergueu o rosto, surpresa. — Proteger de quê? — De você mesma. De decisões que você toma na raiva. Ela deixou a mochila cair no chão. — Me deixa ir, Pedro. Por favor. Ele respirou fundo, olhando para o céu estrelado antes de voltar os olhos para ela. — Tá bem. Você tá livre. As palavras caíram pesadas no ar. — Livre? — repetiu ela, incrédula. — Livre. A dívida do seu pai eu perdoo. Amanhã mesmo mando o recibo pra ele. Você pode ir embora agora... voltar pra sua vida de antes. Sem culpa, sem obrigação. Eu não vou atrás, prometo. Ana sentiu o chão sumir. Esperava resistência, briga, talvez até uma discussão acalorada. Não isso. Não a liberdade jogada aos seus pés como se não doesse nele também. — Por quê? — perguntou ela, a voz quase um sussurro. Pedro passou a mão na barba, o gesto cansado. — Porque eu não quero uma esposa que fica por obrigação. Quero... se for pra ficar, que seja porque você quer. Não porque tem que ficar. O silêncio se estendeu. Ana olhou para a estrada escura, depois para a casa grande atrás dele — as luzes acesas na varanda, o som distante dos grilos. Pensou nas noites sozinha no quarto, nas vezes que ele cuidou dela sem pedir nada em troca, nas conversas curtas que aos poucos viraram algo mais. No jeito que ele a olhava agora: não como posse, mas como alguém que ele aprendera a respeitar. Ela deu um passo à frente, em direção a ele, não à estrada. — E se eu quiser ficar? — perguntou, a voz baixa, mas firme. Pedro a encarou, surpreso pela primeira vez. — Então fica. Mas não por pena ou por medo. Fica porque aqui é onde você quer estar. Ana respirou fundo, o peito subindo e descendo. — Eu odeio você "às vezes". Odeio o que meu pai fez, odeio como tudo começou, odeio essa situação... Ele não se moveu, apenas esperou, respirou fundo... Ela continuou, — Mas... eu vi você cuidando do cavalo ferido semana passada. Vi você falando sozinho com sua filha no telefone, tentando não mostrar que sente falta dela. Vi você me olhando quando acha que eu não percebo. E eu vi também seu cuidado comigo naquele dia — Ela fez uma pausa. — Eu não sei o que é isso ainda, está tudo muito confuso, mas...acho que não sei se quero realmente ir embora agora sem descobrir o que se passa aqui dentro — tocou de leve no peito. Pedro deu um passo lento na direção dela, a mão grande estendida, — Então descobre... Aqui. Comigo! Ana hesitou só um segundo. Depois, colocou a mão na dele. Os dedos calejados dele envolveram os dela com cuidado, como se temesse quebrar algo precioso. — Não vai ser fácil — murmurou ela. — Eu sei... — E eu vou continuar te chamando de bruto. — E eu vou continuar te chamando de teimosa. Ana sorriu pela primeira vez, um sorriso pequeno, tímido, mas verdadeiro. — Combinado. — apertaram as mãos. Então eles voltaram para casa juntos. A porta se fechou atrás deles, mas dessa vez não era prisão. Era escolha. E, aos poucos, o silêncio da fazenda começou a ser preenchido por algo novo: risadas baixas, olhares demorados, toques que não precisavam de palavras. O romance que nascera de uma dívida agora florescia por vontade própria, sem cobranças e sem pressa.Os meses seguintes foram de preparação. O noivado de Sofia e Henrique avançava. Sofia usava o anel de compromisso com um sorriso educado, aceitava os planos do casamento e respondia às mensagens carinhosas do noivo. Mas algo nela havia mudado, ela estava inquieta. O brilho nos olhos, já não era o mesmo. Uma tarde, enquanto ajudavam a consertar a cerca do pasto novo, Marcos não aguentou. Sofia ria de alguma coisa, com o cabelo preso num coque bagunçado e as mãos sujas de terra e estava um pouco mais leve. Marcos parou o trabalho, limpou as mãos na calça e a chamou— Sofia… eu... preciso falar com você. —falou ele sem jeito, criando coragem.Ela virou-se, ainda sorrindo.— Fala.Ele respirou fundo e com o peito apertado desabafou,— Eu não consigo mais fingir. Eu... eu me apaixonei por você. E... eu sei que você está noiva. Eu sei que não tenho o direito, mas eu achei que precisava te falar. Porque se eu não falasse, eu ia explodir.Sofia ficou em silêncio. O sorriso desapareceu. Os o
As semanas seguintes trouxeram uma calma relativa à fazenda. Lucas ainda acordava algumas noites com pesadelos, mas agora conseguia voltar a dormir mais rápido quando Pedro ou Ana o abraçavam. A terapia ajudava. Ele já corria de novo pelo quintal, pedia para montar na Lua e desenhava a família quase todos os dias.— Mamãe, olha! Agora a Clara tá no desenho também — mostrava ele, orgulhoso, com o lápis de cor na mão.Ana se agachava, beijava a testa dele e sorria.— Está perfeito, meu amor. Você é o artista da família.Sofia vinha com mais frequência. Sua residência em São Paulo era exigente, mas ela arrumava um jeito de passar os finais de semana na fazenda.O romance com Henrique Martins crescia, tinham longas conversas por telefone, mensagens carinhosas e beijos furtivos quando ele ia até a fazenda ou quando ela escapava de São Paulo e ia até ele.Numa tarde de sábado, Henrique chegou na fazenda. Encontrou Sofia no quintal, sentada no gramado com a pequena Sofia filha de Marcos, no
Os dias após o resgate de Lucas foram marcados por um silêncio pesado na fazenda. O menino dormia mal, acordava várias vezes à noite com pesadelos, chamando pelo pai aos gritos. Ana e Pedro revezavam-se ao lado dele. Na primeira noite depois do ocorrido, Lucas acordou chorando alto por volta das três da manhã.— Papai! O tio mau… ele tá aqui!Pedro levantou ligeiro indo para o quarto do filho o pegando no colo em seguida,— Shhh, meu amor. Papai tá aqui. Ninguém vai te levar. Papai te protege.Lucas agarrou o pescoço dele, com o corpinho tremendo.— Ele disse que eu era dele… que vocês não eram minha família de verdade…Ana sentou na cama, os olhos estavam inchados de choro, e abraçou os dois.— Nós somos sua família, meu filho. De verdade. Ninguém nunca vai mudar isso.Pedro beijou os cabelos cacheados do menino.— Eu te encontrei filho. E eu sempre vou te encontrar. Você é meu filho. Pra sempre e nada vai mudar isso viu?Lucas chorou até dormir de novo, agarrado aos dois. Ana e Pe
A camionete de Pedro voava pela estrada de terra, levantando uma nuvem de poeira vermelha que parecia sangue no ar. O coração dele batia tão forte que parecia querer sair do peito. As mãos apertavam o volante com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.— Aguenta, filho… papai tá indo te buscar — repetia ele em pensamento. — Calma seu Pedro, correndo desse jeito não vamos chegar a lugar algum, — disse Marcos que o acompanhava.— É a vida do meu filho que está em risco Marcos, eu não posso perder tempo porra — respondeu Pedro nervoso.A polícia havia montado bloqueios nas estrada da região, mas Valter conhecia outras estradas secundárias, que ligavam a mata. No banco do passageiro, Marcos segurava firme uma espingarda no colo.— Se ele machucar o menino… — murmurou Marcos, com a voz grave.— Eu mato ele — completou Pedro, sem hesitar. — Juro por Deus que eu acabo com ele.Enquanto isso, em casa, o inferno era silencioso. Ana estava desperada, andava de um lado para o outro n
E os meses se passaram, e a pequena Clarinha nasceu numa manhã chuvosa de setembro, após um parto normal e tranquilo. Ana sentiu as contrações pela madrugada e foi levada por Pedro ao hospital, e assim que chegou por lá, logo a pequenina nasceu, sem muito esforço. Clara Alencar, era forte, cabelos escuros, com pulmões à pleno vapor, pois seu choro era ouvido a uma boa distância, e com isso ela já mostrava sua personalidade.Ana segurou a filha no peito pela primeira vez e chorou emocionada, exausta e aliviada.— Ela é perfeita… — sussurrou ela, olhando para a bebê de cabelos escuros.Pedro, com os olhos vermelhos, beijou a testa da filha e depois a de Ana.— Obrigado por aguentar tudo isso, minha menina. Obrigado meu amor.Maria e Rosa, mãe e tia de Ana, vieram morar definitivamente na fazenda uma semana depois do nascimento. Maria trouxe sua energia prática e Rosa, suas histórias e risadas. A casa ganhou mais vida, mais cor, mais alegria, mais gente. Rosa cuidava de Clara à noite
O tempo na fazenda do corria como o vento nas montanha, às vezes era suave, às vezes forte, mas sempre seguindo adiante.Seis meses se passaram desde a confirmação da nova gravidez. Ana estava com 28 semanas, a barriga já bem arredondada e o corpo mudando a cada dia. O médico, Dr. Henrique Martins, o mesmo que acompanhou a gravidez anterior e a recuperação de Ana, fazia o acompanhamento com rigor. Nas consultas mensais, ele repetia sempre,— Tudo dentro do esperado, Ana. Pressão controlada, bebê crescendo bem. Mas continue com o repouso relativo. Nada de esforço excessivo, alimentação regrada, e tome certinho as vitaminas que te passei.Na última ultrassonografia, o momento foi emocionante. Pedro segurava a mão de Ana com força, com os olhos fixos na tela.— Querem saber o sexo? — perguntou o médico sorrindo.Os dois assentiram ao mesmo tempo emocionados.— É uma menina — revelou o médico.Ana soltou um soluço de emoção, e Pedro beijou sua testa, com os olhos emocionados.— Uma menin







