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####CAPÍTULO 03

last update Petsa ng paglalathala: 2026-11-04 20:56:03

Quando termino de organizar meus pertences, peço a uma funcionária que chame Mildred, a governanta aparece pouco depois e observa as malas acomodadas junto à porta, demonstrando surpresa com a quantidade de volumes que separei.

— Senhora Westbrook, está acontecendo alguma coisa? Precisamos preparar algo para sua viagem?

— Procuro manter uma expressão neutra, evitando demonstrar o sofrimento que ainda ameaça me dominar.

— Não, Mildred, não irei viajar, apenas estou separando algumas roupas para doação.

A governanta parece constrangida com minha oferta e procura esclarecer suas intenções.

— Não, senhora, não é isso, a senhora deseja que eu a ajude a pegar mais alguma coisa? Posso chamar outra funcionária, se precisar.

— Não será necessário, Mildred, peça ao motorista para vir buscar as coisas que separei e colocá-las no carro, por favor.

— Sim senhora, providenciarei imediatamente. Pedirei a ele que venha buscar suas coisas, a senhora deseja mais alguma coisa?

— Não, mais nada, obrigada, Mildred, obrigada por tudo.

A governanta concorda e se afasta para providenciar o transporte das malas, permaneci alguns instantes observando o corredor, procurando controlar as emoções.

— Não quero que os empregados descubram o que aconteceu no escritório de Timothy, principalmente porque nenhum deles tem responsabilidade pelas atitudes do meu marido.

— O motorista aparece pouco depois, acompanhado de um funcionário que o ajuda a transportar os volumes.

— Agradeço pela gentileza e peço que acomodem tudo cuidadosamente no porta-malas.

A bolsa da bebê permanece comigo, pois contém os documentos médicos e os objetos que poderei precisar nos próximos dias.

Mildred acompanha a movimentação e permanece próxima à entrada, enquanto os funcionários terminam de organizar as malas.

— Ela demonstra preocupação, mas não faz perguntas, sua discrição me permite sair sem precisar inventar outras explicações, e agradeço silenciosamente por isso.

— Quando tudo está acomodado, despeço-me da governanta e caminho até o carro, o motorista abre a porta traseira, ajudando-me a entrar com cuidado.

— Acomodo a bolsa ao meu lado, apoio uma das mãos na barriga e espero que ele assuma seu lugar ao volante.

O homem pergunta para onde deseja ir, e informo o endereço da casa onde cresci, no bairro em que minha madrinha continua morando.

— Ele confirma o destino e inicia o percurso, afastando-se lentamente da residência.

— Observo a fachada desaparecer pelo vidro traseiro e sinto uma mistura de tristeza e alívio.

— Deixo para trás uma mansão luxuosa, roupas caras e uma vida que muitas pessoas considerariam privilegiada, entretanto, nada daquilo poderia compensar a ausência de respeito e a descoberta de que meu casamento foi construído sobre mentiras.

Eu não precisava da sua fortuna, Timothy, nunca precisei de luxo para ser feliz, queria apenas que você fosse honesto comigo.

— Durante o trajeto, procuro organizar meus pensamentos. Dorothy certamente ficará surpresa ao me ver chegando com malas, principalmente porque não anunciei nenhuma visita.

— Ela acredita que meu casamento é feliz, nunca lhe contei que aceitei uma união contratual para conseguir pagar sua cirurgia, pois, na época, estava fragilizada pela doença e não queria acrescentar preocupações ao sofrimento que já enfrentava.

Quando o tratamento aconteceu e sua recuperação começou, preferi preservar o segredo, depois, quando meus sentimentos por Timothy se tornaram verdadeiros, imaginei que não haveria necessidade de revelar como tudo começou.

— Minha madrinha sempre desejou que eu encontrasse um homem que me respeitasse, e fiquei feliz ao perceber sua satisfação quando contei que estava apaixonada.

— Agora precisarei explicar que tudo aconteceu de uma maneira muito diferente daquela que ela imagina.

— Conheço Dorothy suficientemente bem para saber que ficará indignada, principalmente quando descobrir que Timothy se aproveitou da minha necessidade de pagar seu tratamento médico.

Minha madrinha sempre me ensinou a valorizar a honestidade, respeitar as pessoas e não permitir que dificuldades financeiras determinassem meu caráter.

— Foi trabalhando como diarista, muitas vezes enfrentando jornadas cansativas, que conseguiu me criar depois da morte dos meus pais.

— Lembro-me de suas mãos cansadas, do cuidado com que organizava nossas despesas e da alegria que demonstrou quando concluí minha faculdade.

— Nunca tivemos muito dinheiro, mas nossa casa era um lugar onde me sentia amada e protegida.

— Estou voltando para o único lar onde nunca precisei conquistar o direito de pertencer.

O movimento do trânsito diminui à medida que nos afastamos da região empresarial, os grandes edifícios cedem espaço a construções menores, estabelecimentos comerciais de bairro e ruas residenciais.

— Reconheço os lugares por onde passei incontáveis vezes durante a adolescência e os primeiros anos da vida adulta.

— A padaria da esquina continua funcionando, assim como o pequeno mercado onde costumávamos fazer compras.

Sinto uma saudade profunda daquela rotina, não era uma vida fácil, muitas vezes, precisávamos escolher cuidadosamente como utilizar o dinheiro disponível, principalmente quando Dorothy começou a apresentar problemas de saúde.

— Entretanto, nunca me faltaram carinho, orientação e a certeza de que minha madrinha estaria ao meu lado.

— O carro entra na rua onde fica a casa dos meus pais, a construção permanece praticamente como a deixei, é uma residência simples, com dois quartos, sala, cozinha, banheiro e um pequeno jardim.

— Meu pai trabalhou durante muitos anos para manter aquele imóvel, e minha mãe cuidava de cada detalhe com dedicação.

Depois da morte deles, Dorothy deixou a casa alugada onde morava e veio viver comigo.

— Foi a maneira que encontramos de permanecer juntas, preservando o lugar que meus pais construíram, quando comecei a trabalhar, procurei contribuir para as despesas e manter a residência em boas condições, principalmente porque sabia o quanto aquele imóvel representava para nossa família.

— A visão da fachada provoca uma emoção intensa, sinto como se uma parte de mim, esquecida durante os meses em que tentei me adaptar à vida de esposa de um empresário, estivesse finalmente encontrando o caminho de volta.

O motorista estaciona diante do portão e desce para abrir minha porta, agradeço sua atenção e peço que retire as malas, deixando-as cuidadosamente na varanda.

— Ele pergunta se desejo que me aguarde, mas explico que não será necessário, depois de agradecer novamente, dispenso seus serviços e observo o veículo afastar-se pela rua.

— Permaneço alguns instantes diante da casa, contemplando as janelas e os pequenos vasos de flores que Dorothy cultiva junto à entrada.

— Minha mão repousou sobre a barriga, e sinto a menina movimentar-se delicadamente.

Estamos em casa, minha filha, e você não precisa se justificar.

Aproximo-me da porta e aperto a campainha, escutei passos conhecidos do outro lado e espero, procurando controlar o tremor das mãos.

— A fechadura gira, e Dorothy aparece diante de mim, abrindo um sorriso que desaparece assim que observa meu rosto e percebe as malas acomodadas na varanda.

— Minha madrinha segura a porta com uma das mãos e se aproxima imediatamente, demonstrando preocupação com meu estado.

— Seus olhos percorrem meu rosto, detendo-se nas lágrimas que não consigo mais esconder.

— Kalina, minha filha, o que aconteceu com você? Por que está chorando, minha filha?

Tento responder, mas as palavras ficam presas na garganta. Toda a força que consegui reunir desde que saí do escritório de Timothy parece desaparecer diante da mulher que me criou.

— Dorothy abre os braços para me receber, e eu me aproximo sem conseguir controlar o choro.

— Minha madrinha me envolve num abraço carinhoso, enquanto escondo o rosto em seu ombro e finalmente desabo em lágrimas.

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