Mag-log inKalina se levanta, recolhe sua bolsa e me cumprimenta antes de acompanhar Benson até a porta. Observo sua maneira de caminhar, a postura firme e a tranquilidade com que se despede. Não demonstrou submissão durante a entrevista, mas também não foi desrespeitosa. Reconheceu suas limitações, apresentou argumentos consistentes e soube estabelecer limites sem transformar nossas diferenças de opinião num confronto.
Benson acompanha a nova funcionária até a antessala e retorna alguns minutos depois, trazendo uma expressão que conheço perfeitamente. Meu assessor está intrigado com minha decisão e provavelmente acredita que cometi um erro ao contratar a candidata menos experiente. Ele se aproxima da mesa e aguarda enquanto assino um documento que havia deixado separado antes das entrevistas. — Senhor Whitaker, posso fazer uma pergunta? — Pode, Benson. Imagino que esteja querendo discutir minha decisão de contratar a senhorita Westbrook. — Exatamente, senhor. O senhor tem certeza de que deseja mantê-la como assistente pessoal? Confesso que fiquei surpreso. Ela não possui todas as qualificações exigidas, não fala vários idiomas e demonstrou uma personalidade bastante firme durante a entrevista. Em determinados momentos, tive a impressão de que não estava disposta a ser submissa às suas exigências. Coloco a caneta sobre a mesa e encaro meu assessor, incomodado com sua interpretação. Benson trabalha comigo há tempo suficiente para saber que não tolero funcionários incapazes de pensar por conta própria. Ainda assim, parece acreditar que minha assistente precisa concordar com tudo o que digo. — Benson, em algum momento eu disse que procurava uma mulher submissa? Não quero alguém que abaixe a cabeça sempre que eu levantar a voz. Preciso de uma pessoa competente, capaz de reconhecer quando estou ultrapassando os limites e que tenha coragem de me chamar a atenção quando necessário. Meu assessor permanece em silêncio, permitindo que eu continue. — Você sabe que sou intolerante com incompetência, extremamente exigente e implacável nos negócios. Conhece meu temperamento e sabe que posso perder a paciência quando as coisas não acontecem como deveriam. Justamente por isso, preciso de alguém que não tenha medo de apresentar argumentos e defender uma posição. Se minha assistente concordar com todas as minhas decisões apenas para evitar conflitos, de que maneira poderá me ajudar quando eu estiver cometendo um erro? Benson parece refletir sobre minhas palavras. Ele conhece minha maneira de trabalhar e já presenciou situações em que executivos preferiram esconder problemas por receio da minha reação. Não quero que minha assistente repita esse comportamento, principalmente porque terá acesso à minha agenda e a informações importantes para o funcionamento da empresa. — Compreendo, senhor Whitaker. A senhorita Westbrook realmente demonstrou personalidade. Ela não se deixou intimidar pelas suas perguntas e também não tentou agradá-lo quando o senhor questionou suas convicções pessoais. — Exatamente. Ela respondeu às perguntas com conhecimento, reconheceu aquilo que ainda precisa aprender e não procurou esconder suas limitações. Além disso, demonstrou compreender que a competência profissional não depende de concordância política ou submissão pessoal. Quero alguém que apresente trabalho, Benson, não uma funcionária que passe o dia tentando descobrir meu humor para saber como deve responder. — Entendo, senhor. Confesso que não esperava uma entrevista tão satisfatória depois de analisar o currículo dela. Talvez eu tenha atribuído importância excessiva à experiência nas grandes corporações. — Foi exatamente o que aconteceu. Uma pessoa pode trabalhar durante muitos anos numa multinacional e continuar incapaz de tomar decisões sem consultar os superiores. Da mesma maneira, alguém que passou por empresas pequenas pode desenvolver uma capacidade administrativa excelente. O tamanho da empresa anterior não determina a inteligência de um profissional. Benson concorda com minha observação e consulta algumas anotações, provavelmente procurando organizar as providências necessárias para a contratação. — Providenciarei todos os documentos, senhor Whitaker. Também entrarei em contato com o departamento responsável pelos benefícios para confirmar a inclusão da filha e da mãe da senhorita Westbrook no programa de assistência médica. — Muito bem. Quero tudo organizado antes do fim do expediente. Não pretendo chegar amanhã e descobrir que minha nova assistente ainda está preenchendo documentos ou aguardando autorização para utilizar os sistemas da empresa. — Sim senhor, cuidarei pessoalmente disso. Também providenciarei o telefone corporativo e verificarei se o cartão destinado ao vestuário profissional poderá ser entregue ainda hoje. Volto minha atenção para os relatórios sobre a mesa, mas recordo uma situação que preciso esclarecer antes de dispensar Benson. Minha noiva costuma aparecer na empresa sem avisar, principalmente quando deseja discutir assuntos relacionados aos preparativos do casamento. Já expliquei diversas vezes que meus compromissos profissionais não devem ser interrompidos por questões pessoais, mas ela insiste em acreditar que possui privilégios por causa do nosso relacionamento. — Benson, existe mais uma orientação que deverá transmitir à senhorita Westbrook: minha noiva também não tem autorização para interromper minhas reuniões. Quero que isso fique perfeitamente claro desde o primeiro dia. Meu assessor levanta os olhos das anotações, demonstrando compreender imediatamente a razão da advertência. — O senhor deseja que ela impeça a entrada da sua noiva mesmo quando aparecer sem agendamento? — Exatamente. Como expliquei durante a entrevista, nem minha mãe possui autorização para interromper uma videoconferência ou entrar no escritório sem minha permissão. Minha noiva não terá privilégios diferentes. Se ela aparecer enquanto eu estiver ocupado, Kalina deverá informar que não posso recebê-la. Quando terminar meus compromissos, decidirei se tenho disponibilidade para conversar. — Compreendo, senhor Whitaker. Transmitirei essa orientação e explicarei que a regra deve ser aplicada a todos os visitantes, independentemente do relacionamento pessoal que mantenham com o senhor. — Muito bem. Não quero que minha assistente seja colocada numa situação constrangedora por causa de insistências ou exigências da minha noiva. Se alguém questionar as regras, poderá dizer que são determinações minhas. E, caso exista algum problema, quero ser informado diretamente. Benson concorda e termina de organizar suas anotações. Ele parece satisfeito por finalmente compreender os motivos da contratação, embora ainda demonstre curiosidade sobre a maneira como Kalina conseguirá lidar com minha rotina. — Senhor Whitaker, acredito que a senhorita Westbrook terá um grande desafio pela frente. Sua agenda é bastante exigente, e nem todos conseguem trabalhar sob tanta pressão. Espero que ela realmente corresponda às suas expectativas. — Também espero, Benson. Entretanto, prefiro contratar alguém que tenha capacidade para aprender e personalidade para enfrentar dificuldades a escolher uma candidata que possua um currículo impressionante, mas não consiga defender suas próprias conclusões. Kalina demonstrou que possui inteligência, perspicácia e disposição para trabalhar. Agora precisará mostrar essas qualidades na prática. Meu assessor se despede e deixa o escritório para providenciar a contratação. Permaneço sozinho, observando por alguns segundos a pasta que contém o currículo de Kalina Westbrook. Ainda não sei se ela conseguirá acompanhar minhas exigências profissionais, principalmente durante períodos de negociações intensas e viagens internacionais. Entretanto, sua postura durante a entrevista despertou uma admiração que não costumo sentir por pessoas que acabo de conhecer. A mulher entrou em meu escritório aparentemente nervosa, recebeu perguntas difíceis e ouviu críticas sobre suas qualificações. Mesmo assim, não perdeu a educação, não tentou despertar minha compaixão e demonstrou uma segurança que poucas pessoas conseguem manter diante da minha maneira de conduzir uma entrevista. Sua inteligência ficou evidente quando analisou os riscos de investimentos internacionais, mas foi sua capacidade de estabelecer limites sem desrespeitar minha autoridade que realmente chamou minha atenção. Recolho os documentos espalhados sobre a mesa e volto ao trabalho, consciente de que amanhã terei uma nova assistente pessoal. Pela primeira vez em muito tempo, sinto curiosidade para descobrir como alguém reagirá às minhas exigências sem tentar conquistar privilégios ou demonstrar submissão. Agora vamos ver, Kalina Westbrook, se você vai conseguir aguentar esse emprego e acompanhar meu ritmo de trabalho. Ainda não sei se está preparada para enfrentar meu temperamento, mas gostei da sua inteligência, da sua determinação e da maneira como soube se impor diante de mim. Gostei de você.Recostei-me na cadeira e examinei outra fotografia que minha tia encaminha durante nossa conversa. Mérida aparece usando um vestido caro e exibindo o anel de noivado, aparentemente satisfeita com a posição que conquistou ao lado de Boris.— Talvez tenha sido isso mesmo, tia. Nosso relacionamento começou a se desgastar porque Mérida não se contentava com nada. Ela queria roupas caras, viagens, joias e uma vida cada vez mais luxuosa. O problema definitivo surgiu porque exigiu que eu comprasse uma cobertura para ela, e me recusei a realizar aquela compra.— Então você finalmente reconhece o tipo de mulher com quem se envolveu? Porque eu procurei avisá-lo várias vezes, Timothy, mas você nunca quis me ouvir. Agora veja com quem ela está noiva! Boris é mais rico do que você, e tenho certeza de que isso representou uma grande vantagem para Mérida.Observo novamente o rosto do empresário e começo a pensar numa possibilidade que me incomoda.— Será que os dois já estavam se relacionando antes
Essa é a única explicação que encontro para sua atitude. Kalina chegou ao escritório enquanto eu estava com Mérida, provavelmente escutou o que dissemos e descobriu que os documentos do divórcio já estavam preparados. — Não sei exatamente o que ouviu, mas sua decisão de assinar tudo sem conversar comigo demonstra que compreendeu a situação.— Volto a examinar o acordo e verifico as assinaturas mais uma vez, não esperava que a separação acontecesse dessa maneira, principalmente porque imaginei que precisaria explicar a Kalina que nosso casamento por contrato estava chegando ao fim. —Ela poderia chorar, tentar me convencer a continuar casado ou utilizar a gravidez para modificar nossas condições, mas resolveu tudo sozinha.Talvez tenha sido melhor assim, afinal Kalina conhecia o prazo estabelecido no contrato e sabia que, em algum momento, precisaríamos nos divorciar.— Se decidiu antecipar a assinatura, poupou-me uma conversa que certamente seria desagradável.— Pego minha caneta, a
### TIMOTHYQuando saio do quarto de conforto com Mérida, onde estávamos fazendo amor, ela ajeita suas roupas diante do espelho e verifica o horário no celular.— Nossa relação já dura bastante tempo, e estou cansado de precisar encontrá-la às escondidas dentro do meu próprio escritório.— Entretanto, agora que consegui cumprir as exigências dos meus pais para receber a herança, não existe mais motivo para prolongar meu casamento com Kalina. — A gravidez dela garantiu o que eu precisava para concluir meus negócios, e pretendo resolver a questão do divórcio ainda hoje.Mérida recolhe sua bolsa, aproxima-se da minha mesa e confere rapidamente a própria aparência no reflexo de uma das janelas.— Vou sair para almoçar, Timothy, e, quando voltar, trago seu almoço. Você passou a manhã inteira trabalhando e ainda não comeu nada. — Mas não se esqueça do que me prometeu, porque hoje você vai fazer Kalina assinar os documentos do divórcio, não é? Já esperamos tempo suficiente, e quero que f
Mamãe Dorothy interrompe o que está fazendo e me observa com atenção, percebendo que minha expressão mudou desde que cheguei.— O que aconteceu, minha filha? Grażyna está bem? A professora comentou alguma coisa sobre ela?— A professora disse que hoje ela participou das atividades, comeu bem e interagiu com os colegas, mas minha filha acabou de me contar uma coisa muito desagradável. Algumas crianças estão dizendo que ela não tem pai porque foi uma menina malvada e que Timothy foi embora por causa dela. Imagine, mamãe, uma criança de três anos ouvindo essas coisas e começando a acreditar que é responsável pelo abandono do próprio pai!Mamãe Dorothy demonstra indignação, e sua expressão se transforma enquanto explico o restante da conversa que tive com Grażyna dentro do carro. Conto que minha filha chegou a perguntar se havia feito alguma coisa errada e que aparentemente tentou procurar uma professora, mas não recebeu a atenção de que precisava.— Isso é um absurdo, minha filha! Uma cr
Agradeço pelas informações e aguardo enquanto a professora chama minha filha. Grażyna aparece carregando sua pequena mochila e se aproxima de mim com os braços estendidos. Abaixo-me para recebê-la, dou-lhe um beijo e ajeito delicadamente seus cabelos, satisfeita por finalmente tê-la comigo depois de um dia tão movimentado.— Minha princesinha, você gostou da escolinha hoje? A professora me contou que você comeu direitinho, fez todas as atividades e brincou com seus coleguinhas.Grażyna segura minha mão e responde com um sorriso discreto.— Sim mamãe, gostei. Hoje a gente brincou bastante, e eu fiz um desenho para a senhora.— Que maravilha, minha filha! Quero ver esse desenho quando chegarmos em casa. Agora vamos embora porque a vovó está preparando um jantar gostoso para nós, e ainda precisamos organizar suas coisinhas.Acompanho minha filha até o carro, acomodo-a cuidadosamente na cadeirinha e verifico se o cinto de segurança está ajustado corretamente. Depois de guardar sua mochila
Continuo guardando os mantimentos enquanto mamãe retoma os preparativos do jantar, a cozinha é pequena, por isso precisamos organizar nossos movimentos para não esbarrarmos uma na outra. — Estamos acostumadas com o espaço e conseguimos manter tudo em ordem, mas não posso evitar imaginar como será bom ter uma cozinha maior, onde possamos preparar as refeições sem disputar cada centímetro da bancada.— Mamãe Dorothy coloca uma panela sobre o fogão e muda discretamente de assunto.— Minha filha, Mildred, me telefonou hoje, você sabe o que aconteceu com Timothy?Interrompo por alguns segundos a organização das compras e olho para ela, surpresa por ouvir o nome do meu ex-marido depois de tanto tempo.— Não, mamãe, não sei, Timothy nunca procurou saber de mim nem da nossa filha, por isso também não tenho interesse em acompanhar a vida dele, o que aconteceu?— Mildred me contou que ele encontrou os papéis do divórcio depois que você foi embora e descobriu que já estavam assinados. — Pelo q







