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Capítulo 5 - Valentina (parte 1)

Autor: Sia Paiomas
last update Fecha de publicación: 2026-10-16 13:40:56

O relógio sobre a mesa marcava pouco mais de seis da tarde quando meu celular vibrou.

Matteo Moretti.

Fiquei alguns segundos encarando o nome na tela antes de atender.

— Matteo.

— Valentina. Precisamos conversar.

A voz dele era firme, sem qualquer vestígio de cordialidade.

— Meu pai disse que você gostaria de falar comigo.

— Prefiro que seja pessoalmente.

Olhei pela janela do meu escritório. O céu começava a adquirir tons alaranjados, e o movimento dos carros se acumulava nas ruas.

— Sobre o quê?

— Sobre o nosso casamento.

A palavra provocou uma sensação desagradável no meu estômago.

— Estou ocupada.

— Não vai demorar.

Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.

— Onde?

— Estou no restaurante do hotel Bellini. Podemos conversar aqui.

A escolha do lugar não me passou despercebida. Um dos nossos hotéis, um ambiente onde eu conhecia os funcionários e onde Matteo, teoricamente, não teria qualquer vantagem sobre mim.

— Estarei aí em vinte minutos.

Encerrei a ligação antes que ele pudesse acrescentar alguma coisa.

Fiquei sentada por mais alguns instantes, observando a tela apagada do celular. Eu sabia que aquela conversa era inevitável. O que me incomodava era a certeza de que Matteo não estava interessado em saber o que eu pensava. Ele queria garantir que eu compreendesse o que esperavam de mim.

Peguei minha bolsa, avisei à minha assistente que encerraria o expediente e deixei o escritório.

Matteo estava sentado em uma mesa reservada, próxima às janelas, quando cheguei ao restaurante.

Ele se levantou assim que me viu, ajeitando os punhos da camisa sob o paletó.

— Valentina.

— Matteo.

Ele puxou a cadeira para mim. Agradeci com um movimento discreto da cabeça e me sentei.

Um garçom se aproximou, mas dispensei o cardápio. Não pretendia prolongar aquele encontro.

— Você está bonita — Matteo comentou, acomodando-se à minha frente.

— Obrigada.

O silêncio que se seguiu foi breve. Ele apoiou os antebraços sobre a mesa e me observou como se estivesse avaliando uma negociação.

— Imagino que seu pai já tenha explicado a importância desse casamento.

— Meu pai explicou o que espera de mim.

— E você concorda?

Sustentei seu olhar.

— Ainda estou tentando entender por que todos parecem tão determinados a decidir o meu futuro.

Matteo soltou uma risada baixa.

— Não é uma decisão tão incomum entre nossas famílias.

— Não perguntei se é comum.

O sorriso dele desapareceu por um instante.

— Você foi criada para assumir responsabilidades, Valentina. Assim como eu. Sabemos que nem sempre podemos fazer apenas o que desejamos.

— Responsabilidade não significa ausência de escolha.

— Talvez não. Mas existem escolhas que afetam muito mais do que a pessoa que as faz.

A frase permaneceu entre nós.

Observei os traços de seu rosto, tentando compreender o que havia por trás daquela segurança quase arrogante. Matteo era bonito, sabia disso e fazia questão de usar essa vantagem. Seus gestos eram calculados, sua postura impecável e seu tom de voz carregava a confiança de alguém acostumado a conseguir o que queria.

— Você quer se casar comigo? — perguntei.

Ele pareceu surpreso com a pergunta direta.

— Claro.

— Por quê?

Matteo recostou-se na cadeira.

— Nossas famílias compartilham interesses. A união fortalece os dois lados, amplia nossas possibilidades e consolida uma parceria importante.

— Você acabou de descrever um contrato.

— Um casamento também pode ser uma parceria.

— E é só isso que você espera de mim?

Ele inclinou a cabeça, como se minha pergunta fosse ingênua.

— O que mais você espera de um casamento como o nosso?

Não respondi imediatamente.

Talvez eu esperasse respeito. Talvez desejasse que, ao menos, ele demonstrasse algum interesse em conhecer a mulher com quem dividiria a vida. Não precisava de promessas de amor, nem acreditava em finais de contos de fadas. Mas havia uma diferença enorme entre aceitar uma união por dever e ser tratada como uma cláusula de um acordo.

— Gostaria de saber se existe alguma coisa além dos interesses das nossas famílias — respondi, por fim.

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