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Capítulo 5 - Valentina (parte 2)

Autor: Sia Paiomas
last update Fecha de publicación: 2026-10-16 13:42:30

Matteo me observou por alguns segundos.

— Podemos construir uma relação depois do casamento.

— E até lá?

— Até lá, precisamos fazer o que é necessário.

Desviei o olhar para a janela. Do lado de fora, algumas pessoas atravessavam a rua, apressadas para chegar a seus destinos. Por um momento, invejei a simplicidade daquela rotina.

— Eu não aceitei me casar com você — falei.

A expressão de Matteo mudou.

— Seu pai me garantiu que você compreendia a importância do acordo.

— Compreender não é aceitar.

Ele apoiou as mãos na mesa, aproximando-se um pouco.

— Valentina, não estou aqui para discutir a origem das palavras.

— Então seja claro.

— O casamento acontecerá dentro de três meses. As famílias já começaram a organizar tudo.

Senti meu peito apertar.

— Sem a minha confirmação?

— Seu pai está cuidando dos preparativos.

— Meu pai não vai subir ao altar no meu lugar.

Matteo respirou fundo, claramente perdendo a paciência.

— Você está tornando tudo mais difícil do que precisa ser.

— E você está agindo como se minha opinião fosse irrelevante.

— Não é irrelevante. Mas precisamos pensar no quadro geral.

— Sempre o quadro geral. Nunca a pessoa que está no centro dele.

Ele ficou em silêncio, os olhos fixos nos meus.

Por um breve instante, pensei que fosse encerrar a conversa. Em vez disso, Matteo se inclinou ainda mais.

— Vou ser honesto com você. Não tenho interesse em começar uma disputa entre nossas famílias por causa de uma cerimônia.

— Então não comece.

— A questão é que existem compromissos assumidos. E compromissos têm consequências quando são quebrados.

Aquelas palavras mudaram o tom da conversa.

— Isso é uma ameaça?

Matteo ergueu as sobrancelhas, fingindo surpresa.

— Não seja dramática. Estou apenas explicando como as coisas funcionam.

— Sei muito bem como as coisas funcionam.

— Então sabe que uma recusa sua não afetaria apenas você.

Pensei em Beatrice. Na maneira como meu pai falava sobre o futuro dela, sempre com a intenção de protegê-la, mas sem jamais perguntar o que ela desejava. Pensei também no silêncio de minha mãe e nas respostas incompletas que recebera naquela tarde.

— O que aconteceria se eu recusasse? — perguntei.

Matteo demorou um pouco a responder.

— Espero que não precise descobrir.

Apertei os dedos ao redor do guardanapo sobre meu colo.

— Você não respondeu.

— Porque não vejo motivo para transformar uma possibilidade em um problema real.

— Para você, talvez seja apenas uma possibilidade. Para mim, é a minha vida.

Matteo passou a mão pelo cabelo, soltando uma respiração impaciente.

— Você tem uma família inteira dependendo desse acordo, Valentina.

— E você tem uma família inteira que poderia respeitar a minha decisão.

Ele me encarou, e algo em sua expressão endureceu.

— Não confunda a liberdade que teve durante toda a vida com a possibilidade de fazer o que quiser.

A frase me atingiu com mais força do que eu gostaria de admitir.

Não porque fosse inteiramente verdadeira, mas porque havia nela uma parte da realidade que eu conhecia muito bem. Cresci cercada de privilégios, com uma educação impecável, acesso a tudo o que precisava e oportunidades que poucas pessoas teriam. Porém, por trás de cada benefício, existia uma expectativa. Cada escolha minha deveria servir a algum propósito maior.

E agora esperavam que eu entregasse até mesmo meu futuro.

— Não estou pedindo para fazer o que quiser — respondi, mantendo a voz controlada. — Estou pedindo para participar da decisão sobre a minha própria vida.

Matteo se recostou novamente.

— Pense melhor antes de tomar qualquer decisão.

— É exatamente o que estou fazendo.

— Espero que chegue à conclusão certa.

Ele chamou o garçom e pediu um café. Eu não pedi nada.

Enquanto aguardávamos, Matteo começou a falar sobre a cerimônia, a lista de convidados, a possibilidade de realizar o casamento em uma propriedade da família Moretti e a conveniência de anunciar oficialmente o noivado nas próximas semanas.

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