INICIAR SESIÓNO silêncio no escritório era interrompido apenas pelo movimento das páginas que Riccardo folheava diante de mim.
Havia documentos espalhados sobre a mesa, relatórios financeiros, registros de empresas e uma pasta com informações preliminares sobre os Bellini. Nada que justificasse, por enquanto, a preocupação que minha mãe havia demonstrado. Mas eu aprendera há muito tempo que as famílias não escondiam informações sem um motivo. — Os negócios dos Bellini parecem sólidos — Riccardo comentou, fechando uma das pastas. — Pelo menos, aqueles que estão à vista. Ergui os olhos. — E os que não estão? — Ainda estamos verificando. Existem movimentações que não fazem muito sentido, mas preciso de mais tempo antes de afirmar qualquer coisa. Recostei-me na cadeira, observando-o. — Continue procurando. Riccardo assentiu e empurrou outra pasta na minha direção. — Há mais uma coisa. Matteo pediu para falar com você. Soltei uma respiração curta. — Ele sabe onde me encontrar. — Disse que é importante. — Para ele, tudo é importante quando envolve alguma coisa que deseja. Riccardo esboçou um sorriso discreto. — Talvez desta vez seja mesmo. Antes que eu pudesse responder, a porta se abriu. Matteo entrou sem esperar autorização, como costumava fazer quando queria demonstrar que não precisava dela. Meu irmão usava um terno azul-escuro impecável, o cabelo perfeitamente arrumado e aquele sorriso convencido que, desde a adolescência, parecia fazer parte de seu rosto. — Alessandro. — Matteo. Ele olhou para Riccardo, que permaneceu sentado. — Preciso conversar com meu irmão. — Então converse — respondi, indicando a cadeira diante da mesa. Matteo lançou um olhar rápido aos documentos. — A sós. Riccardo se levantou, recolhendo o próprio tablet. — Estarei do lado de fora. Assim que a porta se fechou, Matteo ocupou a cadeira e cruzou uma perna sobre a outra. — Soube que mandou investigar os Bellini. — Mandei verificar os riscos de um acordo que envolve nossa família. — Não há risco algum. — Fico feliz que tenha tanta certeza. O sorriso dele perdeu um pouco da força. — O casamento está acertado. O pai dela concordou, eu concordei. Não entendo por que você insiste em tratar isso como uma operação militar. — Porque qualquer acordo que envolva nosso sobrenome pode se tornar uma operação militar. Matteo inclinou-se para a frente. — Você não precisa se preocupar com isso. Eu sei o que estou fazendo. Observei meu irmão por alguns segundos. Havia uma inquietação em seus olhos, escondida sob a arrogância cuidadosamente construída. Matteo queria que eu o considerasse capaz. Mais do que isso, precisava que eu dissesse em voz alta. — Então me explique — pedi. Ele franziu a testa. — O quê? — Por que esse casamento é tão importante para você? Matteo soltou uma risada sem humor. — Porque é uma aliança vantajosa. Os Bellini têm influência, propriedades, contatos políticos. É um casamento que fortalece nossa posição. — Isso é o que está no contrato. Perguntei por que você o quer. O maxilar dele se contraiu. — Talvez eu esteja cansado de ser tratado como se não pudesse tomar minhas próprias decisões. A resposta veio rápida demais para ser ensaiada. Fiquei em silêncio. Matteo desviou os olhos para a janela. Por um instante, pareceu mais jovem do que seus vinte e nove anos. Não o homem que entrava em reuniões esperando ser obedecido, mas o garoto que cresceu assistindo ao nosso pai me ensinar a comandar, enquanto ele permanecia à margem. Eu sabia que havia coisas que ele nunca me perdoara. Algumas eram injustas. Outras, talvez, eu jamais tivesse percebido. — Ninguém está impedindo você de tomar decisões — falei. — Não? — Ele voltou a me encarar. — Você questiona tudo o que faço. Investiga meus acordos, interfere nos meus negócios e agora quer examinar a família com quem vou me casar. — Se você acredita que uma investigação é uma interferência, talvez não esteja tão seguro desse acordo quanto diz. Matteo se levantou. — Não preciso da sua aprovação. — Ótimo. Porque não estou oferecendo. Ele caminhou até a janela, mantendo as mãos nos bolsos. A cidade se estendia além do vidro, indiferente às disputas que aconteciam dentro daquele escritório. — O casamento acontecerá em três meses — afirmou. — E quero que você esteja presente. — Se o acordo continuar de pé, estarei. — Não é suficiente. Aquela frase me fez erguer o olhar. — O que você quer, Matteo? Ele virou-se para mim. — Quero que pare de agir como se eu estivesse prestes a cometer um erro. Quero que confie em mim, ao menos uma vez.Escutei em silêncio, cada detalhe reforçando a impressão de que minha presença naquela mesa era apenas uma formalidade.Quando o café chegou, ele tomou um gole e voltou a me olhar.— Minha família espera conhecê-la melhor.— Já nos conhecemos.— Não dessa maneira. Minha mãe gostaria de recebê-la para jantar. Podemos organizar algo ainda esta semana.— Vou verificar minha agenda.— Valentina.O modo como pronunciou meu nome me fez erguer os olhos.— Não precisa transformar tudo em uma negociação.Quase sorri diante da ironia.— Foi você quem me chamou para conversar sobre um casamento negociado.Matteo não achou graça.— Quero que isso funcione.— Então comece me tratando como alguém que tem o direito de escolher.Ele permaneceu em silêncio, e aproveitei para me levantar.— Preciso ir.Matteo também se levantou.— Espero que tenha entendido o que conversamos.Peguei minha bolsa e ajeitei o vestido.— Entendi perfeitamente.— E?Olhei diretamente para ele.— Ainda não concordei em me ca
Matteo me observou por alguns segundos.— Podemos construir uma relação depois do casamento.— E até lá?— Até lá, precisamos fazer o que é necessário.Desviei o olhar para a janela. Do lado de fora, algumas pessoas atravessavam a rua, apressadas para chegar a seus destinos. Por um momento, invejei a simplicidade daquela rotina.— Eu não aceitei me casar com você — falei.A expressão de Matteo mudou.— Seu pai me garantiu que você compreendia a importância do acordo.— Compreender não é aceitar.Ele apoiou as mãos na mesa, aproximando-se um pouco.— Valentina, não estou aqui para discutir a origem das palavras.— Então seja claro.— O casamento acontecerá dentro de três meses. As famílias já começaram a organizar tudo.Senti meu peito apertar.— Sem a minha confirmação?— Seu pai está cuidando dos preparativos.— Meu pai não vai subir ao altar no meu lugar.Matteo respirou fundo, claramente perdendo a paciência.— Você está tornando tudo mais difícil do que precisa ser.— E você está
O relógio sobre a mesa marcava pouco mais de seis da tarde quando meu celular vibrou.Matteo Moretti.Fiquei alguns segundos encarando o nome na tela antes de atender.— Matteo.— Valentina. Precisamos conversar.A voz dele era firme, sem qualquer vestígio de cordialidade.— Meu pai disse que você gostaria de falar comigo.— Prefiro que seja pessoalmente.Olhei pela janela do meu escritório. O céu começava a adquirir tons alaranjados, e o movimento dos carros se acumulava nas ruas.— Sobre o quê?— Sobre o nosso casamento.A palavra provocou uma sensação desagradável no meu estômago.— Estou ocupada.— Não vai demorar.Fechei os olhos por um instante, respirando fundo.— Onde?— Estou no restaurante do hotel Bellini. Podemos conversar aqui.A escolha do lugar não me passou despercebida. Um dos nossos hotéis, um ambiente onde eu conhecia os funcionários e onde Matteo, teoricamente, não teria qualquer vantagem sobre mim.— Estarei aí em vinte minutos.Encerrei a ligação antes que ele pu
Por alguns segundos, não respondi. A confiança não era algo que eu distribuía para aliviar o orgulho de alguém. Era construída, testada e, quando necessário, retirada.— Não confundo confiança com negligência — falei. — E não vou deixar de proteger esta família porque você se sente ofendido.— Esta família também é minha.— Nunca disse o contrário.Matteo apertou os lábios, como se procurasse uma resposta que pudesse me atingir. Quando finalmente falou, sua voz estava mais baixa.— Você sempre precisa ter a última palavra.— Quando a conversa envolve a segurança dos Moretti, sim.Ele soltou uma risada amarga e pegou o paletó que havia deixado sobre a poltrona.— Um dia, Alessandro, você vai perceber que não pode controlar tudo.— Nunca precisei controlar tudo. Apenas o que pode nos destruir.Matteo parou junto à porta.— Não se preocupe com os Bellini. Cuide dos seus próprios assuntos.— É exatamente o que estou fazendo.Ele saiu, fechando a porta com força suficiente para deixar clar
O silêncio no escritório era interrompido apenas pelo movimento das páginas que Riccardo folheava diante de mim.Havia documentos espalhados sobre a mesa, relatórios financeiros, registros de empresas e uma pasta com informações preliminares sobre os Bellini. Nada que justificasse, por enquanto, a preocupação que minha mãe havia demonstrado.Mas eu aprendera há muito tempo que as famílias não escondiam informações sem um motivo.— Os negócios dos Bellini parecem sólidos — Riccardo comentou, fechando uma das pastas. — Pelo menos, aqueles que estão à vista.Ergui os olhos.— E os que não estão?— Ainda estamos verificando. Existem movimentações que não fazem muito sentido, mas preciso de mais tempo antes de afirmar qualquer coisa.Recostei-me na cadeira, observando-o.— Continue procurando.Riccardo assentiu e empurrou outra pasta na minha direção.— Há mais uma coisa. Matteo pediu para falar com você.Soltei uma respiração curta.— Ele sabe onde me encontrar.— Disse que é importante.
Aquele silêncio começou a me incomodar de verdade.— Pai, o que está acontecendo?Ele voltou para a mesa.— Nada que você precise resolver.— Eu sou a herdeira desta família. Se existe alguma coisa que ameaça os Bellini, eu preciso saber.— Você saberá o que for necessário.Apertei os lábios.Eu odiava aquela resposta.Era a mesma que recebia quando era adolescente e fazia perguntas sobre os negócios da família que meu pai não queria explicar.A diferença era que, naquela época, eu ainda acreditava que ele sempre sabia o que estava fazendo.— Quando vou conhecer os termos definitivos do acordo? — perguntei.— Matteo virá jantar conosco no próximo fim de semana. Vocês terão oportunidade de conversar.— Que gentil da parte dele.Meu pai ignorou o sarcasmo.— Espero que seja cordial.— Sou sempre cordial.Ele ergueu uma sobrancelha.— Valentina.— O quê? Eu sou.— Não confunda sinceridade com falta de educação.Sorri.— Nunca confundo.Levantei-me.— Posso voltar ao trabalho?Vittorio as







